8 de fevereiro de 2010

A cozinha dorme porque fez por merecer…

Arquivado em: Cotidiano — Tags:, — Roberta Sudbrack @ 16:54

Cozinheiro tem um quê de alfaiate, seja pelo artesanato, seja pela busca do arremate perfeito. Na ótima matéria que saiu essa semana sobre a cozinha do RS na revista Veja Rio  ficou faltando – imagino que não por falta de vontade, mas por falta de espaço – o depois. Aquele momento em que a cozinha finalmente dorme. Resolvi arrematar com um artigo que escrevi para a Revista Gula sobre a visão da cozinha depois que ela passa pelas tempestades tão bem retratadas na matéria da Veja. Para se ter uma exata dimensão da coisa, sugiro dar antes um pulinho no site da Veja http://eaturl.info/rjba e depois voltar correndo para cá para os arremates.

Já são altas horas quando sento aqui no meio dessa cozinha. Minha cozinha. O silêncio é absoluto. As vozes e o tilintar – essa expressão proustiana que tanto me fascina -  de copos e  panelas, ainda ecoam dentro de mim. Um turbilhão de sons, ruídos e sensações. Algo como um efeito alucinógeno que permanece dentro da gente mesmo depois que a cena termina. Todos se foram e eu fiquei. Escutar o silêncio de uma cozinha que dorme é uma sensação tão intensa quanto a que toma conta do corpo do cozinheiro nos momentos de ação dentro dela. Ser cozinheiro é sem a menor dúvida uma escolha de vida. Cozinhar é um sacerdócio. Sacerdócios são fontes inesgotáveis de doação, abnegação e entrega.

Excelência! Palavra profunda. Ao mesmo tempo: cruel. Difícil alcançá-la, quase um martírio conviver com ela. A excelência está nos detalhes. Sempre a parte mais complexa de uma receita. Receitas são antes de tudo viagens por diferentes culturas, diversos sabores, texturas e ingredientes inspiradores. O prato que delas surgem, um  símbolo de convivência e conectividade entre esses diversos ativos informacionais. Para nós, o ideal é que ele possa criar um diálogo que dispense as palavras. Mas essa é só mais uma das nossas pretensões.

Não há como negar que nós, os cozinheiros, somos um pouco temperamentais demais, um pouco vaidosos demais, um pouco ditadores demais. Apegados demais às nossas receitas. Trocar batatinhas por um arrozinho pode não ser uma boa ideia. Dependendo do momento pode ser perigoso! Para compensar, digamos que, afinal de contas a nossa maior obsessão é mexer com os seus sentidos. Vivemos em busca do momento perfeito que, sabemos, nunca encontraremos. Na verdade, aí está a graça de nossas vidas. A perfeição estagna. Não podemos nos dar a esse luxo por você. Muito menos por nós.

O silêncio ainda reina nessa cozinha que há pouco pulsava em ritmo frenético. Mais uma noite de entrega e abnegação terminou. É sábado, os amigos estão na noite, às namoradas ligam para reclamar, à hora do cinema passou. Os olhares estão cansados, o chão por lavar. As panelas usadas o resto de nós. Curiosamente tudo isso nos alegra. Mais curiosamente ainda nos restaura e alimenta. Somos o resultado dessa entrega. Essa entrega é o melhor de nós. Permito que o silêncio seja interrompido pela música, ingrediente tão fundamental à minha cozinha. Ouço Chico Buarque ao longe: “amanhã vai ser outro dia”… Apago o último feixe de luz e penso: a cozinha dorme porque fez por merecer.

Até!

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