Estou me preparando há dias para escrever esse post. No meio do caminho, não bastassem todas as emoções que ainda estou digerindo, veio a conquista do prêmio de Chef do Ano do Brasil pelo Guia 4 Rodas http://bit.ly/110IxE. Para falar a verdade as emoções ainda estão muito concentradas. Nada ficou no lugar, como diria a Calcanhotto.
Eu sempre fui fascinada pela Pina Bausch. A linguagem dela sempre me encantou. Nunca soube muito sobre ela, não sabia como era fisicamente, não imaginava a sua figura, não sabia do que gostava. Simplesmente me entregava ao seu balé. Vivia o mais intensamente possível a emoção e a oportunidade de assisti-la onde quer que eu estivesse. Perder uma apresentação de Pina Bausch? Sempre pareceu um sacrilégio. Algo que ninguém tinha o direito de fazer. Cheguei assistir a Cia Pina Bausch, em Paris, atrás de uma pilastra gigantesca, no pior lugar do teatro. Era o que tinha sobrado. Não me arrependo. E como é bom não se arrepender de nada nessa vida.
Um dia comentando com a Bia Lessa sobre esse meu fascínio pela Pina, vi seus olhinhos se iluminarem e com a alegria de uma criança ela me disse: “Somos amigas! Vou dar um jeito de você cozinhar para ela. Vai ser sensacional! Ela vai adorar!” E assim ficou acertado, Pina viria ao Brasil em Setembro e eu iria a São Paulo para preparar um jantar para ela e sua trupe. Uma alegria infantil também tomou conta de mim. Só pensava nisso.
O curioso é que nem assim me interessei em saber como ela era, quais eram os seus gostos, que cara tinha. Não julguei necessário, sei lá, acreditei que o melhor seria manter esse mistério até o fim. Inspiraria-me nos seus movimentos, na sua densidade, sua delicadeza e na sua força para criar o menu. Não precisava conhecer a Pina antes de cozinhar para a Pina.
No meio desse turbilhão de emoção e expectativa, Bia me ligou para propor que eu fosse a Wuppertal, na Alemanha, já que estaria na Europa em junho. Ela ligaria para a Pina e acertaria tudo, eu poderia ver a Cia Pina Bausch em casa! Procurei passagem e tentei encaixar essa aventura deliciosa na minha agenda. Não consegui. Liguei para a Bia e disse: “Não tem problema, ela vem em Setembro e vai ser lindo.” Bia, que nunca desiste de nada, me disse para pelo menos não deixar de ir ao restaurante preferido da Pina em Paris, um pequeno bistrô atrás do Centre George Pompidou, chamado Le Hangar. No meu último dia em Paris fui almoçar lá e respirei Pina por todos os lados. Uma emoção estranha, coisa de quem já se conhece. Senti-me muito mais próxima dela através do ambiente, da comida, do vinho. Sentia-me até confortável em chamá-la de Pina, como só os amigos falavam. Brindamos a ela!
Voltei ao Brasil alguns dias antes da morte de Pina. Não acreditava. Liguei para a Bia, chorei com ela ao telefone. Fiquei perplexa. Apesar de tão distante, tudo agora parecia tão perto. Pela primeira vez vi uma foto de Pina Bausch e ela me pareceu familiar, como se a conhecesse há anos. Uma emoção muito estranha, muito visceral e complexa como alguns de seus espetáculos.
Setembro chegou e no domingo embarquei para São Paulo para ir ao encontro de Pina Bausch. Estava nervosa, emocionada, amedrontada. Tudo parecia tão íntimo, tão difícil e ao mesmo tempo tão natural. Um grupo enorme e amoroso viajou para São Paulo para estar mais próximo dela. Assistiríamos o ensaio geral, seria a primeira vez que a Cia dançaria Cafe Muller sem ela. Estávamos todos muito tocados, envolvidos, imersos naquele sofrimento agora tão nosso também.
Foi lindo. Difícil e perturbador. A angústia estava inegavelmente presente nos olhares, nos gestos e nos movimentos dos bailarinos. Apesar disso a entrega era tão intensa e visceral que tecnicamente tudo estava como deveria estar. Mas não estava. Ela não estava. Lembrei-me imediatamente da minha equipe. Das nossas longas jornadas e da dificuldade que eu tenho em deixar a cozinha por uma só noite. No envolvimento, nos detalhes. No nosso sofrimento. Quando há entrega é impossível não sofrer. Lembrei das pessoas que já trabalharam ao meu lado, algumas com as quais eu me envolvi profundamente e que hoje já não estão mais lá. Lembrei da minha obsessão pela precisão. Da minha loucura concentrada e aturada por aquelas pessoas que dão tudo de si diariamente para expressá-la. Da minha luta pela constância nas execuções, nos movimentos. Tudo aquilo parecia tão próximo agora, tão intimamente familiar era essa luta travada diariamente entre a emoção e a emoção.
No meio desse caminho revolto e coalhado de emoções, veio o prêmio. O que pensar? O que dizer? Onde encaixar esse sentimento agora? Cheguei ao Rio e corri para a minha cozinha. Larguei a mochila na escada e subi só com o prêmio nas mãos. Entrei na cozinha e disse: “Mandaram entregar isso para vocês”. Sempre dividimos. Agora era hora de doar. Afinal, o meu caminho sem eles não teria chegado ao meio. Esse meio intenso e desconcertante, onde perdi e reencontrei Pina… E a partir de onde ainda há tanto para viver, sofrer e caminhar.
Até!