Na semana passada vivi mais uma grande emoção. Minha vida é efetivamente repleta delas provavelmente porque procuro por elas diariamente, com a curiosidade de uma criança e a obstinação de uma Sudbrack! Acordei e dei de cara com o twitter em polvorosa a minha espera. Acordei tarde como convém aos trabalhadores da noite. Há algum tempo atrás me culpava um pouco por essa prática. Minha médica me perguntou então a que horas eu dormia todos os dias? Nunca antes das quatro da manhã é a resposta padrão. Logo, estou livre para dormir até as 12:00hrs por recomendação médica! Mas aí também já é demais! Antes disso o pescador já ligou e o cardápio do dia tem que ser desenhado. Frederico já está impaciente e o dever me chama há horas!
Quando consegui chegar ao twitter – um pão na chapa, geléia Bonne Maman de morango, café coado e um suco de laranja lima depois – a notícia já havia se espalhado: “@cadoria escreveu um post sobre sua tão esperada visita ao RS! Ela vai morrer de emoção quando ler.” Só isso já me paralisou. Como no dia em que ele finalmente sentou em uma de nossas humildes mesas de madeira mineira sem toalha e recostou-se em uma das cadeiras do mestre Sérgio Rodrigues no RS.
Não sou uma pessoa das letras. Fui uma péssima aluna no colégio, um desgosto completo para o meu avô. Sou uma estudiosa na cozinha. “Caxias” mesmo! Acho que sempre posso aprender mais e estou sempre em busca disso. Ainda assim todo o meu conhecimento se ampara no empirismo. Coisa que para a academia não é lá muito apreciável.
No dia em que subi ao palco da livraria da cultura, em São Paulo, para falar para uma platéia atenta e curiosa no curioso e fundamental encontro “Estantes e Panelas”, dei logo de cara com dois ícones da gastronomia bem na minha frente: Carlos Alberto Dória e Nina Horta. Meu mundo girou. Para um lado, para o outro, para o mesmo outra vez e finalmente para o outro de novo. Quando finalmente eu sentei já não sabia nem mais quem eu era! Não tenho problemas em falar em público, na televisão, rádio, o que seja. Normalmente me parece muito natural. E é. Mas a combinação de sabores que avistei bem ali na minha frente causou uma explosão daquelas dignas e tão apreciadas pela cozinha molecular, ou tecnoemocional, como quiserem. O fato é que sem o uso de nitrogênio líquido ou pirotécnias mil a sensação foi avassaladora.
A história com a Nina é muito engraçada. Ela nunca me deu bola e nem me dá. Mas sou louca por ela. A única vez que a encontrei antes dessa palestra foi numa edição do evento Boa Mesa, quando o Boa Mesa ainda era uma referência em encontros de gastronomia. Era o que de mais importante e relevante acontecia nessa área. Todos queriam estar lá. E lá vinha ela andando com o Josimar Melo cercados de gente por todos os lados, pois afinal eram e são figuras marcantes nesse cenário. Eu também estava sendo muito assediada naquele momento porque era a chef de cozinha do Presidente da República naquela época, mas quando a vi se aproximando, era simplesmente sua fã, desajeita, mas só isso. Fomos apresentadas e ela jura que eu fui blasé. Não me lembro bem o que ela diz ter sido a minha resposta. Mas me lembro que os dois estavam muito ocupados para terem prestado atenção seja lá no que fosse que eu pudesse ter dito.
Continuei gostando muito dela, lendo suas crônicas na Folha de São Paulo e acompanhando suas opiniões sempre tão relevantes e marcantes. Outro dia reli a sua obra prima, “Não é sopa” da Cia das letras, uma das coisas mais sensacionais já escritas sobre a cultura gastronômica desse país. Tentei dizer isso a ela no dia do nosso segundo encontro na livraria da cidade, mas mais uma vez ela insistiu em me relembrar o quanto eu havia sido blasé com ela no nosso único encontro anos atrás. Eu quase tomei coragem e disse: “Mas Nina, você estava em outro clima… Não acha que pode ter entendido errado?” Não tive. Preferi outro plano, convidá-la para ir algum dia ao RS. No que ela me respondeu de pronto: “Não gosto de avião e parece que o trem bala não vai sair.” Ok! Continuo lendo as suas crônicas e sonhando com a possibilidade de assistir algum dia a minha comida falar por mim – ela fala por mim e de mim muito melhor do que eu! – o quanto sou louca por ela! Lembrei-me muito dela e desse nosso relacionamento conturbado quando assisti Julie and Julia também.
Enfim, lá estavam esses dois monstros sagrados do pensamento, da avaliação e da reflexão gastronômica sentados bem a minha frente. Eu leio muito os textos do Dória, gosto muito das suas colocações, provocações e, sobretudo, das reflexões. Acredito numa gastronomia moderna brasileira centrada nesses pilares. Acho que estamos construindo dia após dia – infelizmente cada um mais trancado na sua cozinha do que deveria – uma cozinha moderna que preserva nossa herança gastronômica e utiliza como argumento justamente a preservação dessa herança sem regionalismos. Ou seja, a cada dia que passa justamente pelo nível técnico e intelectual de tantos chefs Brasil a fora, estamos cada vez mais livres para experimentar, discutir, reavaliar e atribuir uma linguagem mais universal para esses ingredientes que frequentemente nossa mente só reconhece de uma maneira. Comumente aquela que está ligada à nossa memória afetiva: comida de Vó, de fazenda, de tia, de mãe…
Apesar de discordarmos um pouco no quesito busca dos sabores perdidos, digamos assim, acho que o Dória tem um papel fundamental nessa caminhada. Creio que ele seja mais o menos o nosso Escoffier. Talvez seja uma das únicas mentes – justamente porque além das qualidades intelectuais, tenha um grande interesse e, sobretudo, prazer ao pensar a gastronomia – capaz de nos classificar e organizar corretamente.
Dito isso, eu pergunto senhores, como se sentiriam na pele de uma simples cozinheira como eu, ao ler isso: http://eaturl.info/t03b?
Emoção é palavra. E acredito que emoção é também o fio condutor dessa gastronomia moderna e brasileira que diariamente buscamos de cozinha em cozinha por esse Brasil de meu Deus!