Tudo bem, admito: não estou dando conta de tudo! Tem horas que a cabeça parece que entra em curto circuito e o winchester que levei anos para preencher com cores, sabores, aromas, texturas e pensamentos – todos sobre comida claro! – desaparecem! Assustador isso.
Admito esquecer números de telefones, datas de aniversários, aliás, nesse quesito não contem comigo, simplesmente não lembro. Meus melhores amigos são aqueles que com a maior naturalidade me ligam e dizem: “Estou ligando para te avisar que hoje é o meu aniversário.” Adoro isso, é o nível máximo da intimidade sendo atingido. Também admito esquecer nomes de pessoas a quem fui apresentada há poucos instantes, antigos namorados ou gente que simplesmente não me interessa. Curiosamente sei de cor o número do meu CPF e da minha identidade, mas não sei até quando isso vai durar?
Agora, esquecer qualquer coisa relacionada a comida, não admito! Não posso esquecer o gostinho da melhor comida italiana que já experimentei na minha vida. Foi numa ilha quase deserta da Grécia, num lugar absolutamente inacreditável que se transformava em restaurante no meio da tarde e pela manhã já não estava mais lá.
Não posso me esquecer do dia em que as sementinhas do quiabo saíram andando pelo meu prato em Tiradentes, Minas Gerais, para chamar a minha atenção e me cutucar: “Veja, somos praticamente um caviar, mas ninguém pensou nisso ainda, acorda!” Não posso esquecer o gosto do pão com mortadela que comi na varanda da casinha laranja à beira do canal – quando ainda estava em obras e repleta de poeira – com um grande amigo e naquela época cozinheiro – hoje para minha tristeza, advogado!
Não posso me esquecer dos sabores das panelas encantadas e genuinamente brasileiras da Janaína Rueda, do Bar da Dona Onça. Entre tantas delícias magistralmente preparadas, não admitiria esquecer o sabor do simples pãozinho com carne moída e da couve flor frita que experimentei na semana passada. Não posso me esquecer do gosto do sagu do Spot. Mas espera aí, esse está fácil, porque amanhã vou almoçar lá e além de matar as saudades posso refrescar a winchester! Acho que tenho andado muito pelas bandas paulistas, acabei me esquecendo de citar os sabores cariocas. Fica para o próximo post, por enquanto, a gente vai levando, a gente vai levando…
Até!