4 de agosto de 2010

Minha alma canta…

Arquivado em: Cotidiano — Tags:, — Roberta Sudbrack @ 18:25

Essa história eu conto e reconto e nunca mudo o final. Gosto de finais verdadeiros. Mais do que os felizes, gosto dos verdadeiros. Quem primeiro me fez essa pergunta numa noite agitada na casinha laranja à beira do canal foi o querido Walter Salles: “Roberta, mas porque o Rio de Janeiro?” Antes disso eu já sofria com algumas colocações que nunca me pareceram razoáveis, mais do que isso, sempre me irritaram e muito: “O seu restaurante é fantástico! Pena que seja no Rio de Janeiro, se fosse em São Paulo!”

Quando deixei a chefia da cozinha do Palácio da Alvorada em Brasília tinha dois destinos a escolher: São Paulo ou Rio de Janeiro. De São Paulo vieram alguns chamados, duas ou três oportunidades muito boas. Do Rio de Janeiro nenhuma. Vou para o Rio de Janeiro! Gosto de desafios! Gosto de romper barreiras. Gosto muito de acreditar no que ninguém acredita. Já faz algum tempo que o discurso mudou para: “O seu restaurante é fantástico! Quando é que você vai abrir um em São Paulo?”

Alfaiataria não se replica. Alfaiataria se vive diariamente. Para fazer alfaiataria há que se acreditar no sonho! Tenho ouvido falar que muitos restaurantes de São Paulo estão pensando em abrir filiais no Rio de Janeiro muito provavelmente por conta da quantidade de atividades que a cidade sediará num futuro próximo. Eu fui uma das grandes entusiastas da chegada do grupo Fasano no Rio de Janeiro. Primeiro porque a cidade merecia uma marca de excelência como a deles. Mas acima de tudo porque o grupo decidiu vir para o Rio quando poucos olhavam para ele com o olhar da credibilidade. O grupo Fasano acreditou no Rio. Amou o Rio como ele merece. Outros grupos vieram depois nessa mesma sintonia e agregaram o seu valor a essa cidade singular, entre eles o pessoal da Pizzaria Braz, fantásticos e profissionais.

Assim como alfaiataria não se replica, amor não se inventa. Que venham grandes e competentes marcas. Que venham cozinheiros apaixonados pelo seu ofício. Que venham amantes a moda antiga, pois o Rio é daqueles que ainda manda flores!

Até!

9 de julho de 2010

Até onde…

Arquivado em: Cotidiano — Tags: — Roberta Sudbrack @ 18:22

Cheguei de uma viagem linda. Sardenha, Sicília, Veneza, Paris… Sabores, cores – até a minha mudou! – aromas e vivencias sem fim. Ainda estava, até ontem à noite, colocando os pés no chão. Voltando a estabelecer um contato firme com o solo. Coisa de extrema importância. Sair dele é fácil, não voltar perigoso. As coisas na cozinha foram se encaixando, ajustes, tempos de cocção, texturas e o mais delicado dos pontos: voltar a trabalhar com a Chef sempre de olho em tudo! Em pouco tempo estávamos nos divertindo de novo. Nunca canso de dizer que por mais sacrificante que seja o dia a dia na cozinha, a diversão é fundamental.

A casa começou a encher e as mesas chegaram praticamente ao mesmo tempo, isso normalmente tumultua. E eu estava com uma saudade louca desse tumulto! Passado o stress do inicio todas as mesas entraram na cadência. O serviço transcorreu tranqüilo, as execuções estavam limpas, frescas, vivas, como eu gosto. O garçom entrou na cozinha e me disse que uma mesa gostaria muito de falar comigo, que me conhecia e queria muito me cumprimentar. Assim que pude desci e fui direto até essa mesa onde avistei dois clientes queridos. Cumprimentei-os carinhosamente, deixando claro para eles e para as mesas ao lado – coisa que não se deve fazer! – o quanto estava feliz em revê-los. E estava mesmo.

Não havia passado ainda a emoção do reencontro dentro de mim quando ele determinado começou a falar. Começou num tom e foi até o final nele. E posso afirmar que esse tom destoava absurdamente do meu. As outras três pessoas da mesa não me encaravam, mas aparentemente vivenciaram o prazer da reclamação. Eu perplexa, ainda naquele outro tom carinhoso do reencontro escutava e observava cada um deles.

A história é mais ou menos a seguinte. São clientes da casa, fizeram uma reserva com certa antecedência e solicitaram sentar no andar de cima. Provavelmente nesse dia houve uma falha no atendimento telefônico que não deixou claro, como sempre fazemos que não há como garantir qual ou onde será a sua mesa. Tudo vai depender da disposição das reservas. De saber se os dois andares estarão funcionando naquele dia. Enfim, engrenagens que fazem parte do show, mas que nem sempre interessam à platéia. Para complicar o Maitre tentando dar uma desculpa disse que o andar de cima estava em manutenção. Um erro, uma bobagem, uma falha. Numa certa hora da noite a casa começou a encher e tivemos que abrir a andar de cima. Estava formado o banzé.

Depois de tudo o que ele teve vontade de me dizer – e eu escutei – ele me disse que a comida estava fantástica como sempre, que nesse aspecto não havia nada para reclamar, muito pelo contrário. E que poderia ter ido aos jornais ou vir até aqui ao blog reclamar, mas que no fundo só queria me alertar. Eu não saberia descrever a cara que fiquei, nem o que eu disse, além do pedido de desculpas depois de tudo isso. Saí com a cabeça rodando da mesa dele, fui até as outras mesas e depois fui conversar com o meu pessoal para tentar entender o que teria acontecido.

Acabei de voltar de viagem, fui a tantos restaurantes. Gostei mais de uns, menos de outros. Voltei a restaurantes que eu freqüento há mais de dez anos e não me sentei naquela mesinha que eu tanto sonho sentar um dia. Assisti a pessoas tentando mudar de mesas que por motivos óbvios não conseguiram. Talvez para alguém que não viva os bastidores do show seja mais difícil compreender o que pode causar uma simples mudança numa noite de casa cheia. Comi coisas que eu gostei mais e coisas que eu gostei menos. Mas uma coisa é certa, vivi todos os restaurantes que visitei.

Fico me perguntando se essa mesa viveu o meu restaurante ontem? Se se permitiram viajar pelos sabores do cural, da banana, do caviar, do ossobuco, das frutinhas vermelhas quase colhidas à mão? Fico me perguntando se o momento do brinde com aquele grande vinho foi prazeroso? Se a sensação de rasgar o pão quentinho, que havia saído do forno à poucos instantes, passar manteiga e assisti-la derreter foi tão intensa como poderia ser.

Imagino que não. Imagino que o brilho da comida e de todo o carinho depositado tanto nela, quanto no meu boa noite efusivo, tenha sido ofuscado por um detalhe prático. E que o encanto de tudo tenha realmente se perdido. O meu se perdeu quando eu voltei para a cozinha para contar para os meus cozinheiros a espinafrada que levei no salão e tentar fazê-los entender como um detalhe prático pode ofuscar o brilho de tudo o que fizeram naquela noite. Até onde podemos ir na ânsia de fazer valer o definimos ser o certo e o errado?

Até?

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