22 de janeiro de 2010

Op´s…

Arquivado em: Cotidiano — Tags:, — Roberta Sudbrack @ 15:55

Podem ter mil nomes essas colunas, cada jornal chama de um jeito. No fundo todas servem sempre para a mesma coisa: um espaço onde o cliente, e só o cliente, tem o direito de expor as suas frustrações em relação a um estabelecimento. Sempre me pareceu justo que ao lado dessas coluninhas pudesse existir outra onde o estabelecimento também tivesse a chance de expor as suas frustrações. Não necessariamente respostas sobre as reclamações dos clientes, essas, eles até nos permitem dar, apesar de editar com vontade as nossas .

Pois hoje resolvi mudar o ângulo de visão. O desabafo de hoje vai do estabelecimento para o cliente. Confesso que jamais sentarei na frente de um computador para escrever qualquer coisa que por ventura venha a me acontecer num restaurante ou qualquer outro estabelecimento para uma dessas colunas. Por dois motivos: primeiro porque sei muito bem o quanto custa manter a credibilidade de um nome no mercado e segundo porque somos todos humanos, logo, erramos.

Mais vale um telefone ou e-mail para o estabelecimento, se o intuito for esclarecer, reclamar ou chamar a atenção sobre algum acontecimento desagradável. Porque sinceramente, em minha opinião, na maioria das vezes quem escreve para essas colunas está mais interessado naquela típica resposta padrão: “O estabelecimento pede desculpas pelo acontecido e convida o cliente a voltar.” Eu também convido meus clientes a voltar, erramos sim, mais do que gostaríamos, mas faço isso quando a reclamação vem acompanhada de respeito, inclusive na escolha do canal por onde será feita.  Estampar no jornal no minuto seguinte ao acontecido me parece ferramenta de vingança. Comigo não cola.

Por isso mesmo, o caso em questão, onde obviamente não vou revelar nomes, deve ser visto apenas como um desabafo de pessoas que amam profundamente o que fazem:

Era dia de comemoração na casinha laranja à beira do canal. Estávamos todos em festa, radiantes, confiantes, felizes. A casa estava completando 5 anos, um marco para nós. O dia era uma terça-feira e nesse dia temos um menu especial, dentro da filosofia da bistronomia que tanto me encanta, composto de entrada e prato principal e preparado com os ingredientes mais frescos e  acessíveis encontrados no mercado naquele dia. Esse menu é oferecido somente às terças-feiras, custa R$ 49,00 e desafia a nossa criatividade em fazer uma comida de qualidade e com a inteligência o bastante para caber nesse orçamento. Não é fácil, mas nos dá um prazer e uma satisfação sem igual. É o dia da acessibilidade no RS, um dia de alegria, de doação e de muita emoção.

Emoção essa que naquele dia estava literalmente à flor da pele, vocês podem imaginar. Bem, era dia de festa, queríamos comemorar com os clientes, queríamos recebê-los com um sorriso estampado no rosto. Celebrar! E queríamos que eles celebrassem também, afinal nos apoiaram ano após ano nessa caminhada que sem eles certamente teria sido menor. Por isso decidimos que naquele dia em especial a terça-básica deveria ter um algo mais, um presente, um mimo a mais. Divulguei então no meu twitter que naquele dia quem fosse jantar no RS teria mais surpresas ao pedir esse menu.

As pessoas começaram a ligar para o RS a procura de informações. Uns se contentavam com a explicação do nosso pessoal de apoio: “Não sabemos quais serão as surpresas, só sabemos que a chef irá oferecer alguma coisa além da entrada e do prato principal, porque é um dia de celebração.” Outros não se contentavam e me perguntavam no twitter. Mais uma vez esclareci através do meu twitter que não iríamos divulgar o que seria, pois a surpresa era fundamental na nossa vida!

A casa estava lotada, repleta, linda. Clientes de muito tempo, cliente de pouco tempo, clientes novos. Uma festa. Ao chegar todo cliente era recebido pelo nosso staff com uma taça de espumante geladíssimo e a seguinte frase: “Hoje o RS está comemorando 5 anos, estamos muito felizes e a Chef gostaria que vocês brindassem com a gente.” E assim começava a noite.

As pessoas brindavam e o garçom trazia o menu. Se a sua opção fosse a terça-básica ele explicaria que se tratava de um menu com entrada e prato principal que naquela noite poderia ter alguma surpresa. Além disso, continuamos a oferecer o nosso menu diário de 5 ou 8 pratos e o garçom explicava a diferença entre um e outro. A mesa em questão chegou, brindou e depois de algumas indagações respondidas com clareza por um dos nossos melhores garçons fez o pedido: “Nós vamos optar pelo menu degustação de 5 pratos.” Seguiram-se as restrições de cada conviva e os serviços começaram.

A noite correu bem, muita alegria no ar, muito tilintar de copos e celebração. Infelizmente não consegui sair da cozinha porque o ritmo dentro dela estava frenético. Mas todos que desejavam falar comigo eram escoltados pelo nosso pessoal de salão até lá. O clima era de celebração. Na cozinha eu preparava o mis en place do SudDog que serviria no final da noite à minha equipe com champagne gelado. Só nessa hora, já exaustos, faríamos o nosso tão esperado brinde.

Quase perto da tão desejada hora do brinde, um dos meus garçons entrou na cozinha visivelmente abatido e me relatou que a mesa tal se negava a pagar os menus degustação. Pagaria somente o valor da terça-básica. Eu o instruí a não discutir e aceitar. Nesse momento todos na cozinha pararam o que estavam fazendo. Tudo parou nessa hora. Nós nos entreolhamos, entendemos tudo. Foi triste. Um balde de água gelada nas nossas cabeças suadas. Destoou de todo o tom e da musicalidade da noite. Tudo tinha ficado tão claro e era tão deprimente que passamos o resto da noite sem falar muito. Refletindo talvez. Nada daquilo combinava com a doação exaustiva que permeou a nossa noite até ali. Nada daquilo combinava com o que plantamos diariamente na nossa horta. Pensei comigo mesma, seria tão mais fácil chamar o mesmo garçom e dizer: “Olha, o meu sonho é comer o menu degustação, mas só tenho recursos para a terça-básica.” Quem me conhece e conhece a essência de todos os que labutam com alegria diariamente ao meu lado sabe que sairiam da cozinhas 6 menus degustação repletos de amor e emoção diretamente para a mesa deles.

Apesar da sensação estranha de termos sido enganados, sim, nós também nos sentimos assim do lado de cá. Apesar da ressaca moral que tomou conta de todos nós, ainda encontramos forças para erguer nossas taças de champagne gelado e brindar por mais 5 anos de luta, conquistas e emoções.

Até!

18 de janeiro de 2010

Desde 2005

Arquivado em: Cotidiano — Tags:, — Roberta Sudbrack @ 17:27

Eu sou muito romântica. Sempre fui. Já me dei mal, faz parte. Tentei até ser menos por um tempo. Não rolou. Sou extremamente ligada nessas coisas de datas, comemorações, lembranças. Desde que abri o RS sonhava com a possibilidade de agregar à plaquinha que fica na porta os seguintes dizeres: “Desde 2005”. Mas sempre imaginei que para isso deveria ter percorrido certo caminho, não ficava bem tascar no letreiro desde 2005 em 2006!

Pois esse caminho foi percorrido. Ora com suor e lágrimas. Ora com alegria e boas gargalhadas. Não é novidade para ninguém que manter um negócio por tantos anos nesse país não é moleza. Não contando com um grande suporte financeiro então, pode se chamar de milagre. E daqueles de santo cozinheiro, coisa para São Lorenzo e São Benedito.

Cada ano foi uma conquista e uma dúvida. Ora, se fazemos só o que acreditamos, sem concessões ou distorções, será que pode dar certo?

Se cada paulista que chegava e se encantava com o RS depois me dizia ao pé do ouvido: “É maravilhoso, mas pena que não é em São Paulo, lá daria certo.” Será que pode dar certo?

Se não temos menus fixos e nos damos ao luxo de trabalhar só com o que a natureza nos presenteia diariamente – Certa vez quase apanhei de um cliente na porta do restaurante por causa disso. Digo, apanhar, literalmente – será que pode dar certo?

Se nossa carta de vinhos privilegia só os vinhos de produtores sérios e apaixonados, aqueles que podem literalmente ser chamados de vinho, será que pode dar certo?

Se não abrimos mão do ritual e por isso mesmo só oferecemos um menu com o que temos de melhor naquele dia, será que pode dar certo?

Se a equipe é passional e apaixonada a ponto de lutar diariamente pelo que a maluca da Chef acredita, nem que seja convencer o cliente de que, quiabo, abóbora e maxixe podem ser interessantes, será que pode dar certo?

Se enquanto todos equipam as suas cozinhas com equipamentos mirabolantes, fazemos questão de manter o artesanato e trabalhamos com forno seco, chapa de ferro fundido e grelha com pedra vulcânica – coisa do passado! – será que pode dar certo?

Se quando saímos de férias todos colocam na bagagem um pedacinho de um simpático fermento chamado Lorenzo e a reabertura da casa depende da volta de todos esses pedacinhos, será que pode dar certo?

Se diariamente nos doamos tanto por todos os cantos daquela casinha laranja à beira do canal como se aquele fosse o último dia de nossas vidas, será que pode dar certo?

Não sei por quanto tempo, mas hoje posso dizer com uma alegria incontida: “Desde 2005!” As outras páginas a gente ainda está escrevendo… Obrigada a todos que fizeram parte dessas que já estão escritas!

Até!

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