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	<title> &#187; artesanato</title>
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		<title>Dia de festa no mar&#8230;</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Feb 2010 11:31:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Roberta Sudbrack</dc:creator>
				<category><![CDATA[cozinha moderna brasileira]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu ainda estou esperando notícias do mar. Todo mundo sabe, seja porque eu repito insistentemente, seja porque ouviu falar, que não sou eu quem decide o menu diário da casinha laranja à beira do canal. Jamais ligarei para o pescador dizendo: “Hoje quero pargo!” Quem sou eu para decidir o que o mar quer me dar naquele dia? Danço conforme o ritmo das marés. E sendo hoje dia de festa no mar, só me resta esperar. O que tiver que ser meu será.</p>
<p>Por falar em repetir insistentemente, também já repeti milhares de vezes que não estou nem aí para thermocirculares, sousvides e thermomix. Nem saberia o que fazer com elas e correria o risco de largar o meu ofício de tanto medo que teria de que elas mandassem em mim. O que certamente aconteceria. Ora, não venha me dizer que tenho que colocar uma carne linda, vibrante, fresca e natural dentro de um saquinho de plástico, retirar-lhe o contato com o oxigênio – fundamental a nós e ao vinho – mergulhar a pobre coitada num banho maria metido a besta e esperar horas e horas pelo resultado.</p>
<p>E onde enfiaria a angústia do meu cozinheiro? Tão necessária à sua evolução! Se ele soubesse exatamente o resultado que iria alcançar todos os dias? Se nada dependesse da sua perícia? E se posto de assador, um dos mais importantes numa cozinha &#8211; por vezes até mais importante do que o do chef &#8211;  não pudesse ser mais conquistado por alguém que estivesse disposto a se doar por horas e horas à procura de um assado perfeito?</p>
<p>O que seria de mim e do meu artesanato se essa precisão humana não fosse posta a prova todos os dias? Dia após dia. Jornada após jornada? O que seria daquele sorriso de vitória que avisto no rosto dos meus assadores cada vez que a suculência está viva, a umidade mantida e a caramelização insuportavelmente dourada? Porque cozinhar se não for para buscar diariamente essa satisfação? E porque uma maquininha metida a besta acredita que pode substituir essa satisfação e me oferecer a precisão garantida ou o seu dinheiro de volta?</p>
<p>Nunca entendi isso. Nunca vou entender. Sempre achei que com um microplane, bons fouets, peneiras de várias espessuras e, sobretudo, a precisão humana – que graças a Deus pode falhar! &#8211; se pode fazer uma cozinha moderna, saborosa e verdadeira. Hoje ouço dizer que os ares vindos da Espanha, o epicentro da modernidade culinária, começam a soprar da mesma maneira. Só posso agradecer a Yemanjá, é sinal de que suas festas no mar têm feito pensar&#8230;</p>
<p>Até!</p>
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		<title>Feito a mão&#8230;</title>
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		<pubDate>Tue, 26 Jan 2010 19:34:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Roberta Sudbrack</dc:creator>
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		<category><![CDATA[criação]]></category>
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		<description><![CDATA[Tenho pratos rondando a minha mente. Acordo sentindo sabores, revendo cores, acertando texturas. Aqui falta, aqui tem demais, ali pesa, lá pode, aqui não. Um prato é construção de uma expressão, e em minha opinião ela tem que ser precisa, clara, tranquila. Não acredito em construções que se apoiam em elementos demais. Gosto do minimalismo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tenho pratos rondando a minha mente. Acordo sentindo sabores, revendo cores, acertando texturas. Aqui falta, aqui tem demais, ali pesa, lá pode, aqui não. Um prato é construção de uma expressão, e em minha opinião ela tem que ser precisa, clara, tranquila. Não acredito em construções que se apoiam em elementos demais. Gosto do minimalismo e da exatidão. Sabores marcantes, verdadeiros, convictos.</p>
<p>Convicção é uma palavra forte. Gosto dela. Convivo com ela. Luto por ela. Esses pratos que andam rondando a minha cabeça são delicados, autoconfiantes e desafiantes! Não há desafio maior no mundo de hoje que optar pelo artesanal. Palavra forte também. Simples, poética, exata. Quer dizer simplesmente: feito a mão. E o que mais interessa? Feito a mão diz tudo, projeta tudo, conclui tudo. Expressa tudo.</p>
<p>Outro dia assistindo a um documentário sobre a vida de Coco Chanel, caí num choro profundo no momento em que ela proíbe completamente as máquinas de costura e decide que dali em diante tudo será feito a mão. Os detalhes, os acabamentos, as texturas, tudo estará a partir de então permeado pela energia intensa e necessária das mãos. Depois disso tenho pensado demais. Repensado também. Sofrido muito mais.</p>
<p>Meus pratos não têm conseguido o espaço necessário para deixar a minha mente e assumir o seu lugar no mundo. Não têm encontrado a tolerância necessária para a expressão precisa. Seu preparo, sua concepção e execução não se encaixam na correria que hoje em dia atende pelo nome de: refeição. Na visão dos meus pratos uma refeição precisa de cadência. De respiração, entrega e contemplação. O tempo é efêmero. Pode parecer muito, pode parecer pouco, a contemplação não impõe regras.</p>
<p>Restaurantes, a história comprova, sempre foram lugares onde as pessoas procuraram restauração. Não é a toa que os primeiros que se tem notícia vendiam apenas sopas restauradoras. Restaurar, degustar, sentir, vivenciar. Nada disso combina com o ritmo que a vida hoje nos impõe. O artesanato necessita sentir o tempo. O tempo necessário à sua confecção, a sua existência e finalmente à sua expressão verdadeira. É uma proposta, uma tentativa de escapar das ciladas que o ritmo da nossa vida hoje nos impõe. Uma chance.</p>
<p>Danúsia Barbara, crítica gastronômica que eu muito respeito, certa vez ao me escolher como melhor chef do Rio de Janeiro, disse essa frase: “ Mas não é todo mundo que entende o seu artesanato.” Isso sempre volta à minha mente. Dia após dia, noite após noite, quando clamamos pelo ritual, pelo tempo, pela tolerância. O ritual não é um aprisionamento. É uma chance que cada um pode ou não se dar. Não somos nós que decidimos isso. É a vida que passa.</p>
<p>Até!</p>
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