A criação é anárquica!

16 de março de 2010

Uma pergunta que adoram me fazer – e que eu confesso, detesto responder – é sobre como é o meu processo criativo? Ora, que tipo de pergunta é essa? Quem é que acorda, escova os dentes, se espreguiça, toma café da manhã e cria? Nessa ordem e nessa sequência? Ou que seja na ordem contrária? Na sequência inversa? Quem é que é capaz de definir: hoje eu vou criar, amanhã também, mas depois de amanhã não! Quem tem controle sobre esse monstro adorável chamado criação que levante o dedo agora!

Eu não tenho e digo mais, acredito que metade da graça se perderia se tivesse. Criação não vem com hora marcada, vem sempre na hora errada. Aí está a sua grande graça, faz parte do seu charme. É sempre naquele momento que a gente não está esperando, não está perto das panelas ou não tem os ingredientes à mão. Ou não, às vezes vem exatamente na hora em que colocamos as mãos neles mas não temos tempo de lhes dar a atenção necessária. Exatamente aí está a grande loucura e o grande barato da criação. A criação é anárquica graças a Deus!

Ela pode estar nos detalhes ou na falta deles. Pode estar na inspiração ou na falta dela. A criação é soberana de nada depende a não ser de uma coisa: o momento. O momento em que tudo se clareia, a energia flui e a emoção fala mais alto. Esse momento é único, é lúcido e absolutamente pessoal. Como escova de dente. Alguém sai por aí perguntando como é a sua escova de dente?

Até!

Cabeça não foi feita só para usar chapéu de cozinheiro…

9 de março de 2010

Eu sempre duvidei dessa história de cozinha sem fogo. Não foram poucas as vezes e nem são poucos os posts onde falo incansavelmente sobre isso. Não suporto ver fotos daquelas cozinhas moderninhas onde só se avistam bancadas, pipetas, blenders e máquinas assustadoras. Quando muito uma chapa por indução no canto esquerdo da cozinha aonde ninguém vai!

Bem, pois não é que outro dia recebi um telefonema de alguém me convidando para participar de uma matéria sobre sustentabilidade, tema que muito me interessa, e o grande desafio era justamente cozinhar sem fogo, eletricidade ou carvão? Sem eletricidade eu sou craque, porque já perdi as contas das vezes que faltou luz no Rio de Janeiro e tivemos que remar no escuro. Mas sem fogo?

Topei na hora porque desafio é comigo mesmo. E, como diz o caipira, “garrei a pensar!” Fiz brainstorming com a minha equipe para saber o que cada um achava dessa ideia. Ouvi coisas interessantes e desesperadas: “Mas não pode usar nem um foguinho?” Sonhei com o assunto, vasculhei a minha mente e a revirei de cabeça para baixo. Pensávamos nas receitas e vira e mexe nos deparávamos com algum empecilho, isso tem que usar geladeira, aquilo passa primeiro pelo charbroiller e coisas desse tipo. Conseguimos chegar a um resultado interessante, entre eles até um prato novo que vínhamos trabalhando com a banana ouro, o que foi sensacional. Fez pensar, refletir, ousar. Isso é importantíssimo na gastronomia, caso contrário, fica muito fácil achar que alguma coisa está perfeita. Ora, felizes são os italianos que nunca acham que nada está perfeito se estiver a dez passos da casa da “mama” ou da “nona”!

A perfeição não existe e nem pode existir. Ela acabaria com a gastronomia. Seria o fim chegar à conclusão de que alguma coisa é perfeita e nada diferente daquilo pode ser bom. A vida na cozinha seria sem graça, sem alegria e o pior, sem perspectiva. O que nos move diariamente é a vontade de fazer melhor. As críticas nos abalam, nos aborrecem e entristecem sim, hipócrita de quem diz o contrário, mas elas também têm um papel fundamental no nosso trabalho: o de nos sacudir! Pensar no tema sustentabilidade tem que ser algo que nos incomode, nos faça perder o sono, nos obrigue a pensar melhor em tudo o que estamos fazendo. Em tudo o que pensamos que estamos construindo. A natureza tem mandado recados, que, como todos nós sabemos, não têm sido lá muito simpáticos.

Até!

Polêmica, eu?

24 de fevereiro de 2010

Dizem as boas e más línguas por aí que sou uma chef polêmica. Nunca havia pensado no assunto sob esse prisma, mas não sei se concordo. O fato de dizer tudo o que eu penso sem medo de ser feliz não quer dizer que diga para criar polêmica. Digo por que adoro a verdade e a clareza. Na vida, na cozinha e no imaginário coletivo. Veja por exemplo a questão do azeite de trufas. Falei porque deu vontade, senti o cheiro, enjoei e falei. Pronto, gerou uma polêmica incrível. Pautou reportagens, entrevistas, coletivas de imprensa. Soube até que tem uma comitiva italiana de produtores de azeite de trufas vindo da Itália especialmente para me conhecer. Pena que não está na época das trufas em Alba, senão pediria para que trouxessem uma fresca para mim na mala!

A questão sobre o azeite de trufas é simples: usa quem quer! Eu não quero mais. Já usei e me arrependo. Quantos pargos fresquíssimos já assassinei na vida, não pelo fato de tê-los colocado na panela, porque nesse caso sempre tomei muito cuidado com o ponto de cada um. Mas pela infelicidade de ter jogado esse líquido insosso na cara deles! Quantos consommés levíssimos já transformei em pedras vulcânicas? Quantos raviólis de massa tenra e recheio cremoso, já não sentenciei à pena de morte, ao regar cheia de pompa e circunstância o pobre coitado com esse azeite adulterado?

Para mim não funciona. Eu procuro o sabor real das coisas, essa, como todo mundo sabe é uma das minhas maiores obsessões. É a minha busca e a minha alegria. Me sinto traindo uma causa quando abuso do meu direito de ir e vir e agrego um elemento a mais onde não deveria. E isso é muito fácil. Lembro-me muito bem que precisei de alguns anos de prática para conseguir preparar um jantar que prestasse na França. Sempre me excedia. Enlouquecia na feira, queria levar tudo, usar tudo, experimentar tudo. Resultado? Nunca acertava a medida.

Acertar a medida não é fácil, principalmente num mundo conectado vinte e quatro horas online. Ceder a tentações como as do “aroma” de trufas fica relativamente fácil digamos assim. Compreensível até, para não pegar muito pesado. Agora incompreensível mesmo é saber o que vem a ser “aroma”de trufas? Meu São Lourenzo me ajuda? Difícil mesmo, de verdade, é manter-se fiel ao que se acredita. Acho que não tem tarefa mais complicada do que essa hoje em dia, sabe por quê? Porque dói, machuca e faz dodói. Difícil é ter coragem de, como diz a Ale Forbes, escancarar o coração e a cozinha diariamente para quem quiser ouvir. Isso pode ser enquadrado na categoria polêmica? Se puder eu não terei alternativa senão topar. Mas se puder optar eu prefiro assim: em vez de chef, cozinheira, por favor. E ao invés de polêmica, verdadeira, por gentileza!

Até!

Tanta água ainda vai rolar…

18 de fevereiro de 2010

Tenho visto muita coisa nesses meus anos de profissão. Da experiência no Palácio da Alvorada, trago lembranças preciosas da necessidade da hierarquia e da disciplina na cozinha. Insisto em dizer que, apesar dos banquetes inesquecíveis que preparei por lá, aprendi mais do que ensinei. Trabalhei com soldados, pessoas que nunca tinham tido contato com uma cozinha que não fosse à da caserna.

Reaprenderam do zero, começaram do nada. Do arroz com feijão ao molho da carne, nada ficou no lugar. Sofreram em certos momentos. Muitos momentos, não entenderam nada em tantos outros. Foram ao limite, sobreviveram, lutaram e venceram. Vivemos momentos memoráveis e emocionantes. O mais marcante para mim foi assistir a um dos meus cozinheiros mais rabugentos se emocionar a ponto de não conter as lágrimas ao perceber que havia acertado o ponto do demi-glace.

Nosso dia a dia não é fácil, são horas e horas de trabalho duro e minucioso por algumas horas do seu prazer. Algo como o carnaval. A diferença é que o nosso carnaval é diário, não cessa, não para, não interrompe a transmissão. Dos tempos de cozinha no Palácio da Alvorada para cá também aprendi demais. Isso não quer dizer que certas vezes levada pela minha exigência insaciável, eu não exagere. Exagero em muitos momentos. E, como os meus cozinheiros soldados, que muitas vezes não entendiam a necessidade de preparar um molho durante 36 horas, também não entendo certas coisas.

Não entendo a falta de garra, de perseverança, de alegria. Não entendo como jovens que por algum motivo decidiram enfrentar essa batalha, se deixam abater por tão pouco. Entregam-se tão fácil. Assisto a tudo isso perplexa e triste. Uma tristeza imensa toma conta de mim. Um sentimento que em nada tem a ver com aquele de dever cumprido que deixei na porta do Palácio da Alvorada no meu último dia de trabalho. Nessas horas eu me pergunto: “Será que a culpa também não é nossa? Será que podemos nos eximir dessa culpa e dormir sossegados toda noite?” Que tipo de profissionais estamos vendo nascer? E o que fazer para despertar em cada um esse espírito de luta que não cessa com o apagar das luzes da cozinha? Tanta água ainda vai rolar, talvez dependa de nós boa parte do esforço para que seja cristalina e bebível!

Até!


A cozinha dorme porque fez por merecer…

8 de fevereiro de 2010

Cozinheiro tem um quê de alfaiate, seja pelo artesanato, seja pela busca do arremate perfeito. Na ótima matéria que saiu essa semana sobre a cozinha do RS na revista Veja Rio  ficou faltando – imagino que não por falta de vontade, mas por falta de espaço – o depois. Aquele momento em que a cozinha finalmente dorme. Resolvi arrematar com um artigo que escrevi para a Revista Gula sobre a visão da cozinha depois que ela passa pelas tempestades tão bem retratadas na matéria da Veja. Para se ter uma exata dimensão da coisa, sugiro dar antes um pulinho no site da Veja http://eaturl.info/rjba e depois voltar correndo para cá para os arremates.

Já são altas horas quando sento aqui no meio dessa cozinha. Minha cozinha. O silêncio é absoluto. As vozes e o tilintar – essa expressão proustiana que tanto me fascina -  de copos e  panelas, ainda ecoam dentro de mim. Um turbilhão de sons, ruídos e sensações. Algo como um efeito alucinógeno que permanece dentro da gente mesmo depois que a cena termina. Todos se foram e eu fiquei. Escutar o silêncio de uma cozinha que dorme é uma sensação tão intensa quanto a que toma conta do corpo do cozinheiro nos momentos de ação dentro dela. Ser cozinheiro é sem a menor dúvida uma escolha de vida. Cozinhar é um sacerdócio. Sacerdócios são fontes inesgotáveis de doação, abnegação e entrega.

Excelência! Palavra profunda. Ao mesmo tempo: cruel. Difícil alcançá-la, quase um martírio conviver com ela. A excelência está nos detalhes. Sempre a parte mais complexa de uma receita. Receitas são antes de tudo viagens por diferentes culturas, diversos sabores, texturas e ingredientes inspiradores. O prato que delas surgem, um  símbolo de convivência e conectividade entre esses diversos ativos informacionais. Para nós, o ideal é que ele possa criar um diálogo que dispense as palavras. Mas essa é só mais uma das nossas pretensões.

Não há como negar que nós, os cozinheiros, somos um pouco temperamentais demais, um pouco vaidosos demais, um pouco ditadores demais. Apegados demais às nossas receitas. Trocar batatinhas por um arrozinho pode não ser uma boa ideia. Dependendo do momento pode ser perigoso! Para compensar, digamos que, afinal de contas a nossa maior obsessão é mexer com os seus sentidos. Vivemos em busca do momento perfeito que, sabemos, nunca encontraremos. Na verdade, aí está a graça de nossas vidas. A perfeição estagna. Não podemos nos dar a esse luxo por você. Muito menos por nós.

O silêncio ainda reina nessa cozinha que há pouco pulsava em ritmo frenético. Mais uma noite de entrega e abnegação terminou. É sábado, os amigos estão na noite, às namoradas ligam para reclamar, à hora do cinema passou. Os olhares estão cansados, o chão por lavar. As panelas usadas o resto de nós. Curiosamente tudo isso nos alegra. Mais curiosamente ainda nos restaura e alimenta. Somos o resultado dessa entrega. Essa entrega é o melhor de nós. Permito que o silêncio seja interrompido pela música, ingrediente tão fundamental à minha cozinha. Ouço Chico Buarque ao longe: “amanhã vai ser outro dia”… Apago o último feixe de luz e penso: a cozinha dorme porque fez por merecer.

Até!

Quem nunca usou que atire a primeira pedra…

4 de fevereiro de 2010

Você já usou. Eu já usei. Você já experimentou. Eu já experimentei. Você já gostou. Eu nunca gostei. Mas, afinal, há alguns anos atrás seria sonho de uma noite de verão imaginar que algum dia nós teríamos o prazer de trabalhar com trufas frescas no Brasil. Logo, azeite de trufas parecia ser a solução mais próxima em sabor e aroma. Não é! Eu me enganei. Você se enganou. Nós nos enganamos ou alguém nos enganou?

A falta de parâmetro nos confundiu, talvez seja essa a resposta mais adequada. Não há nada pior na gastronomia do que a falta dele. Falta de sal a gente resolve. Falta de pimenta também. Agora, falta de parâmetro e frescor não tem solução. Como comparar se a gente não conhece o outro lado da moeda?

Desde o primeiro dia em que tive a chance de colocar as mãos numa trufa fresca meu mundo virou de cabeça para baixo. A primeira pergunta que me veio à cabeça foi: “Como é que eu pude usar azeite de trufa?” Não tem nada a ver. Não tem nada pior. Não tem nenhum sentido lógico, abstrato ou concreto. Simplesmente não emociona. É falso, forte, grosseiro, indigesto e sabe-se lá porque, caro!

Hoje em dia não posso ver, não posso cheirar, não posso sentir. Mas tenho que viver com essa culpa: “Já usei e indiquei.” No meu livro, Roberta Sudbrack, Uma chef, Um palácio, tem uma receita, ou duas, não sei bem. Minhas receitas com esse gás poluente? Terei que viver com essa culpa ou mandar recolher todos os livros para um recall gratuito. Ainda estou avaliando com a minha terapeuta qual é a solução mais viável.

Até aí tudo bem. Vi, vivi e aprendi. O que eu não posso entender e nem aceitar é o fato de vira e mexe ainda me deparar com essa substância tóxica nos cardápios mundo a fora. Não combina com o momento vivido pela gastronomia. Se até na Espanha o uso indiscriminado de produtos químicos na cozinha está sendo reavaliado para nossa sorte! Evoluir é olhar para frente e para trás. Refletir, aprender, entender. Buscar novas formas, novas possibilidades, novos contextos. Instigar, surpreender, alegrar. Tudo isso está valendo. Só não vale mascarar. Ainda que o carnaval esteja perto, sai de cozinheiro que é melhor do que de Batman!

Até!

Dia de festa no mar…

2 de fevereiro de 2010

Eu ainda estou esperando notícias do mar. Todo mundo sabe, seja porque eu repito insistentemente, seja porque ouviu falar, que não sou eu quem decide o menu diário da casinha laranja à beira do canal. Jamais ligarei para o pescador dizendo: “Hoje quero pargo!” Quem sou eu para decidir o que o mar quer me dar naquele dia? Danço conforme o ritmo das marés. E sendo hoje dia de festa no mar, só me resta esperar. O que tiver que ser meu será.

Por falar em repetir insistentemente, também já repeti milhares de vezes que não estou nem aí para thermocirculares, sousvides e thermomix. Nem saberia o que fazer com elas e correria o risco de largar o meu ofício de tanto medo que teria de que elas mandassem em mim. O que certamente aconteceria. Ora, não venha me dizer que tenho que colocar uma carne linda, vibrante, fresca e natural dentro de um saquinho de plástico, retirar-lhe o contato com o oxigênio – fundamental a nós e ao vinho – mergulhar a pobre coitada num banho maria metido a besta e esperar horas e horas pelo resultado.

E onde enfiaria a angústia do meu cozinheiro? Tão necessária à sua evolução! Se ele soubesse exatamente o resultado que iria alcançar todos os dias? Se nada dependesse da sua perícia? E se posto de assador, um dos mais importantes numa cozinha – por vezes até mais importante do que o do chef –  não pudesse ser mais conquistado por alguém que estivesse disposto a se doar por horas e horas à procura de um assado perfeito?

O que seria de mim e do meu artesanato se essa precisão humana não fosse posta a prova todos os dias? Dia após dia. Jornada após jornada? O que seria daquele sorriso de vitória que avisto no rosto dos meus assadores cada vez que a suculência está viva, a umidade mantida e a caramelização insuportavelmente dourada? Porque cozinhar se não for para buscar diariamente essa satisfação? E porque uma maquininha metida a besta acredita que pode substituir essa satisfação e me oferecer a precisão garantida ou o seu dinheiro de volta?

Nunca entendi isso. Nunca vou entender. Sempre achei que com um microplane, bons fouets, peneiras de várias espessuras e, sobretudo, a precisão humana – que graças a Deus pode falhar! – se pode fazer uma cozinha moderna, saborosa e verdadeira. Hoje ouço dizer que os ares vindos da Espanha, o epicentro da modernidade culinária, começam a soprar da mesma maneira. Só posso agradecer a Yemanjá, é sinal de que suas festas no mar têm feito pensar…

Até!

Feito a mão…

26 de janeiro de 2010

Tenho pratos rondando a minha mente. Acordo sentindo sabores, revendo cores, acertando texturas. Aqui falta, aqui tem demais, ali pesa, lá pode, aqui não. Um prato é construção de uma expressão, e em minha opinião ela tem que ser precisa, clara, tranquila. Não acredito em construções que se apoiam em elementos demais. Gosto do minimalismo e da exatidão. Sabores marcantes, verdadeiros, convictos.

Convicção é uma palavra forte. Gosto dela. Convivo com ela. Luto por ela. Esses pratos que andam rondando a minha cabeça são delicados, autoconfiantes e desafiantes! Não há desafio maior no mundo de hoje que optar pelo artesanal. Palavra forte também. Simples, poética, exata. Quer dizer simplesmente: feito a mão. E o que mais interessa? Feito a mão diz tudo, projeta tudo, conclui tudo. Expressa tudo.

Outro dia assistindo a um documentário sobre a vida de Coco Chanel, caí num choro profundo no momento em que ela proíbe completamente as máquinas de costura e decide que dali em diante tudo será feito a mão. Os detalhes, os acabamentos, as texturas, tudo estará a partir de então permeado pela energia intensa e necessária das mãos. Depois disso tenho pensado demais. Repensado também. Sofrido muito mais.

Meus pratos não têm conseguido o espaço necessário para deixar a minha mente e assumir o seu lugar no mundo. Não têm encontrado a tolerância necessária para a expressão precisa. Seu preparo, sua concepção e execução não se encaixam na correria que hoje em dia atende pelo nome de: refeição. Na visão dos meus pratos uma refeição precisa de cadência. De respiração, entrega e contemplação. O tempo é efêmero. Pode parecer muito, pode parecer pouco, a contemplação não impõe regras.

Restaurantes, a história comprova, sempre foram lugares onde as pessoas procuraram restauração. Não é a toa que os primeiros que se tem notícia vendiam apenas sopas restauradoras. Restaurar, degustar, sentir, vivenciar. Nada disso combina com o ritmo que a vida hoje nos impõe. O artesanato necessita sentir o tempo. O tempo necessário à sua confecção, a sua existência e finalmente à sua expressão verdadeira. É uma proposta, uma tentativa de escapar das ciladas que o ritmo da nossa vida hoje nos impõe. Uma chance.

Danúsia Barbara, crítica gastronômica que eu muito respeito, certa vez ao me escolher como melhor chef do Rio de Janeiro, disse essa frase: “ Mas não é todo mundo que entende o seu artesanato.” Isso sempre volta à minha mente. Dia após dia, noite após noite, quando clamamos pelo ritual, pelo tempo, pela tolerância. O ritual não é um aprisionamento. É uma chance que cada um pode ou não se dar. Não somos nós que decidimos isso. É a vida que passa.

Até!

Op´s…

22 de janeiro de 2010

Podem ter mil nomes essas colunas, cada jornal chama de um jeito. No fundo todas servem sempre para a mesma coisa: um espaço onde o cliente, e só o cliente, tem o direito de expor as suas frustrações em relação a um estabelecimento. Sempre me pareceu justo que ao lado dessas coluninhas pudesse existir outra onde o estabelecimento também tivesse a chance de expor as suas frustrações. Não necessariamente respostas sobre as reclamações dos clientes, essas, eles até nos permitem dar, apesar de editar com vontade as nossas .

Pois hoje resolvi mudar o ângulo de visão. O desabafo de hoje vai do estabelecimento para o cliente. Confesso que jamais sentarei na frente de um computador para escrever qualquer coisa que por ventura venha a me acontecer num restaurante ou qualquer outro estabelecimento para uma dessas colunas. Por dois motivos: primeiro porque sei muito bem o quanto custa manter a credibilidade de um nome no mercado e segundo porque somos todos humanos, logo, erramos.

Mais vale um telefone ou e-mail para o estabelecimento, se o intuito for esclarecer, reclamar ou chamar a atenção sobre algum acontecimento desagradável. Porque sinceramente, em minha opinião, na maioria das vezes quem escreve para essas colunas está mais interessado naquela típica resposta padrão: “O estabelecimento pede desculpas pelo acontecido e convida o cliente a voltar.” Eu também convido meus clientes a voltar, erramos sim, mais do que gostaríamos, mas faço isso quando a reclamação vem acompanhada de respeito, inclusive na escolha do canal por onde será feita.  Estampar no jornal no minuto seguinte ao acontecido me parece ferramenta de vingança. Comigo não cola.

Por isso mesmo, o caso em questão, onde obviamente não vou revelar nomes, deve ser visto apenas como um desabafo de pessoas que amam profundamente o que fazem:

Era dia de comemoração na casinha laranja à beira do canal. Estávamos todos em festa, radiantes, confiantes, felizes. A casa estava completando 5 anos, um marco para nós. O dia era uma terça-feira e nesse dia temos um menu especial, dentro da filosofia da bistronomia que tanto me encanta, composto de entrada e prato principal e preparado com os ingredientes mais frescos e  acessíveis encontrados no mercado naquele dia. Esse menu é oferecido somente às terças-feiras, custa R$ 49,00 e desafia a nossa criatividade em fazer uma comida de qualidade e com a inteligência o bastante para caber nesse orçamento. Não é fácil, mas nos dá um prazer e uma satisfação sem igual. É o dia da acessibilidade no RS, um dia de alegria, de doação e de muita emoção.

Emoção essa que naquele dia estava literalmente à flor da pele, vocês podem imaginar. Bem, era dia de festa, queríamos comemorar com os clientes, queríamos recebê-los com um sorriso estampado no rosto. Celebrar! E queríamos que eles celebrassem também, afinal nos apoiaram ano após ano nessa caminhada que sem eles certamente teria sido menor. Por isso decidimos que naquele dia em especial a terça-básica deveria ter um algo mais, um presente, um mimo a mais. Divulguei então no meu twitter que naquele dia quem fosse jantar no RS teria mais surpresas ao pedir esse menu.

As pessoas começaram a ligar para o RS a procura de informações. Uns se contentavam com a explicação do nosso pessoal de apoio: “Não sabemos quais serão as surpresas, só sabemos que a chef irá oferecer alguma coisa além da entrada e do prato principal, porque é um dia de celebração.” Outros não se contentavam e me perguntavam no twitter. Mais uma vez esclareci através do meu twitter que não iríamos divulgar o que seria, pois a surpresa era fundamental na nossa vida!

A casa estava lotada, repleta, linda. Clientes de muito tempo, cliente de pouco tempo, clientes novos. Uma festa. Ao chegar todo cliente era recebido pelo nosso staff com uma taça de espumante geladíssimo e a seguinte frase: “Hoje o RS está comemorando 5 anos, estamos muito felizes e a Chef gostaria que vocês brindassem com a gente.” E assim começava a noite.

As pessoas brindavam e o garçom trazia o menu. Se a sua opção fosse a terça-básica ele explicaria que se tratava de um menu com entrada e prato principal que naquela noite poderia ter alguma surpresa. Além disso, continuamos a oferecer o nosso menu diário de 5 ou 8 pratos e o garçom explicava a diferença entre um e outro. A mesa em questão chegou, brindou e depois de algumas indagações respondidas com clareza por um dos nossos melhores garçons fez o pedido: “Nós vamos optar pelo menu degustação de 5 pratos.” Seguiram-se as restrições de cada conviva e os serviços começaram.

A noite correu bem, muita alegria no ar, muito tilintar de copos e celebração. Infelizmente não consegui sair da cozinha porque o ritmo dentro dela estava frenético. Mas todos que desejavam falar comigo eram escoltados pelo nosso pessoal de salão até lá. O clima era de celebração. Na cozinha eu preparava o mis en place do SudDog que serviria no final da noite à minha equipe com champagne gelado. Só nessa hora, já exaustos, faríamos o nosso tão esperado brinde.

Quase perto da tão desejada hora do brinde, um dos meus garçons entrou na cozinha visivelmente abatido e me relatou que a mesa tal se negava a pagar os menus degustação. Pagaria somente o valor da terça-básica. Eu o instruí a não discutir e aceitar. Nesse momento todos na cozinha pararam o que estavam fazendo. Tudo parou nessa hora. Nós nos entreolhamos, entendemos tudo. Foi triste. Um balde de água gelada nas nossas cabeças suadas. Destoou de todo o tom e da musicalidade da noite. Tudo tinha ficado tão claro e era tão deprimente que passamos o resto da noite sem falar muito. Refletindo talvez. Nada daquilo combinava com a doação exaustiva que permeou a nossa noite até ali. Nada daquilo combinava com o que plantamos diariamente na nossa horta. Pensei comigo mesma, seria tão mais fácil chamar o mesmo garçom e dizer: “Olha, o meu sonho é comer o menu degustação, mas só tenho recursos para a terça-básica.” Quem me conhece e conhece a essência de todos os que labutam com alegria diariamente ao meu lado sabe que sairiam da cozinhas 6 menus degustação repletos de amor e emoção diretamente para a mesa deles.

Apesar da sensação estranha de termos sido enganados, sim, nós também nos sentimos assim do lado de cá. Apesar da ressaca moral que tomou conta de todos nós, ainda encontramos forças para erguer nossas taças de champagne gelado e brindar por mais 5 anos de luta, conquistas e emoções.

Até!

Desde 2005

18 de janeiro de 2010

Eu sou muito romântica. Sempre fui. Já me dei mal, faz parte. Tentei até ser menos por um tempo. Não rolou. Sou extremamente ligada nessas coisas de datas, comemorações, lembranças. Desde que abri o RS sonhava com a possibilidade de agregar à plaquinha que fica na porta os seguintes dizeres: “Desde 2005”. Mas sempre imaginei que para isso deveria ter percorrido certo caminho, não ficava bem tascar no letreiro desde 2005 em 2006!

Pois esse caminho foi percorrido. Ora com suor e lágrimas. Ora com alegria e boas gargalhadas. Não é novidade para ninguém que manter um negócio por tantos anos nesse país não é moleza. Não contando com um grande suporte financeiro então, pode se chamar de milagre. E daqueles de santo cozinheiro, coisa para São Lorenzo e São Benedito.

Cada ano foi uma conquista e uma dúvida. Ora, se fazemos só o que acreditamos, sem concessões ou distorções, será que pode dar certo?

Se cada paulista que chegava e se encantava com o RS depois me dizia ao pé do ouvido: “É maravilhoso, mas pena que não é em São Paulo, lá daria certo.” Será que pode dar certo?

Se não temos menus fixos e nos damos ao luxo de trabalhar só com o que a natureza nos presenteia diariamente – Certa vez quase apanhei de um cliente na porta do restaurante por causa disso. Digo, apanhar, literalmente – será que pode dar certo?

Se nossa carta de vinhos privilegia só os vinhos de produtores sérios e apaixonados, aqueles que podem literalmente ser chamados de vinho, será que pode dar certo?

Se não abrimos mão do ritual e por isso mesmo só oferecemos um menu com o que temos de melhor naquele dia, será que pode dar certo?

Se a equipe é passional e apaixonada a ponto de lutar diariamente pelo que a maluca da Chef acredita, nem que seja convencer o cliente de que, quiabo, abóbora e maxixe podem ser interessantes, será que pode dar certo?

Se enquanto todos equipam as suas cozinhas com equipamentos mirabolantes, fazemos questão de manter o artesanato e trabalhamos com forno seco, chapa de ferro fundido e grelha com pedra vulcânica – coisa do passado! – será que pode dar certo?

Se quando saímos de férias todos colocam na bagagem um pedacinho de um simpático fermento chamado Lorenzo e a reabertura da casa depende da volta de todos esses pedacinhos, será que pode dar certo?

Se diariamente nos doamos tanto por todos os cantos daquela casinha laranja à beira do canal como se aquele fosse o último dia de nossas vidas, será que pode dar certo?

Não sei por quanto tempo, mas hoje posso dizer com uma alegria incontida: “Desde 2005!” As outras páginas a gente ainda está escrevendo… Obrigada a todos que fizeram parte dessas que já estão escritas!

Até!