28 de agosto de 2009

Os mangaritos alucinógenos…parte II

Filed under: cozinha moderna brasileira — Tags: — Roberta Sudbrack @ 19:56

Todo mundo sabe que eu tenho uma veia meio novelística… Pena não estar conseguindo acompanhar nenhuma novela ultimamente. Morro de inveja dos clientes que ligam para o restaurante e dizem: “Vou me atrasar porque não quero perder o capítulo de hoje da novela das 8!” Acho o máximo ver novela. Como não vejo, invento as minhas!

Era para encerrar o assunto dos mangaritos, afinal, que mocinhos mais assanhados! Já não bastava o Maestro Zubin Metha ter experimentado, gostado e pedido para repetir? Ainda tinham que virar personagens de uma crônica da Cora Rónai? Estão muito saidinhos para quem estava correndo o risco de desaparecer da face da terra, não estão?

Mas não sei se, nessa mania de comer casquinha de mangarito assim que saem do forno – o aroma de café e chocolate é uma coisa sensacional – não acabei comendo outro que era alucinógeno? Ou se, inspirada nos devaneios dos comentários das pessoas que não comeram um mangarito alucinógeno, mas também acabaram viajando nessa história, criei outra!

Ao chegar à agência dos correios minha gerente identificou-se como a representante legal do RS que teria vindo para libertar os mangaritos. Imediatamente as atendentes se entreolharam e apertaram um pequeno botão que fica atrás do balcão. Segundos depois apareceram dois policiais e o motorista do carro batido. Esse literalmente atordoado. Os policiais pediram para que a minha gerente os acompanhasse até uma salinha reservada. Ela foi. Chegando lá pediram para o motorista relatar o acontecido durante o trajeto. Ele relatou aos berros, desesperado e ao final sentenciou: “São uns delinqüentes! Perigosos! Gritam muito” Os policiais perguntaram se ela tinha certeza de que queria libertá-los, se não seria melhor devolvê-los ao interior de São Paulo de onde vieram? Minha gerente imediatamente disse que não! Eles estavam sendo esperados com ansiedade por uma multidão! “Multidão?” Perguntaram os policiais? “Como assim? Essas coisinhas feias e gritonas?” Sim, ela respondeu. “São astros! Amigos do Maestro Zubin Metha! Estão até no jornal, os senhores não viram? São personagens de uma crônica da Cora Rónai no jornal O Globo do dia 27 de agosto!” Os policiais se entreolharam duvidando e então abriram uma janelinha, daquelas que só quem está de um lado enxerga e pediram para que ela fizesse o reconhecimento. “Então, me diga se esses, que a Senhora vê aí, são os tais astros que saíram na coluna da Cora Rónai e são amigos do Zubin Metha?” E riram. Minha gerente olhou uma vez, olhou outra; estava difícil reconhecer porque estavam todos de óculos escuros fazendo o tipo astro pop total. Mais precisamente todos usavam um rayban aviator rb 3025! Depois de algum tempo ela disse: “Sim senhor, esses mocinhos não são mais simples mangaritos que estão correndo o risco de extinção. Agora são cidadãos brasileiros e astros conhecidos, desacato é mantê-los presos nessa situação! A cozinha está à espera deles para o show de hoje à noite! Ainda tem que ensaiar!” Envergonhados os policiais mandaram libertar imediatamente a mangaritada, não sem antes pedir uns autógrafos e determinar a prisão imediata do motorista!

Com licença que agora está saindo uma fornada de casquinhas de mangarito e eu tenho que correr lá para comer algumas! Isso vicia!

Até!

26 de agosto de 2009

Os mangaritos alucinógenos…

Filed under: cozinha moderna brasileira — Tags: — Roberta Sudbrack @ 13:29

Depois de ferrenha negociação com o Senhor João Lino – um dos únicos fornecedores de mangaritos do Brasil – conseguimos finalmente mais uma remessa de mangaritos da safra 2009 para a nossa cozinha. A comparação que frequentemente acontece entre os mangaritos e as trufas não deixa de fazer algum sentido! A oferta de mangaritos chega a ser menor e mais difícil do que a das trufas brancas que vêm de Alba, na Itália. E o preço depois de sedex pra lá, sedex pra cá, acaba ficando parecido. Mas assim como as trufas, vale todo esforço!

Certamente não foram os meus belos olhos que convenceram o Senhor João Lino a nos ceder mais um pouquinho da sua pequena produção, provavelmente foram os do Maestro Zubin Metha, que, diga-se de passagem, brilharam como os de uma criança travessa com a possibilidade de repetir o ravióli amanteigado de mangarito em três texturas, que servimos a ele logo após o concerto da Filarmônica de Israel, aqui no Rio. Pouco importa. O importante é que na semana passada os mangaritos mais uma vez deixaram o interior de São Paulo e rumaram para uma casinha laranja à beira do canal no Rio de Janeiro.

Assim como da primeira vez, a expectativa que se instaurou em todos que habitam essa casinha foi enorme. Os garçons perguntavam quando teríamos mangarito, uma vez que os clientes não paravam de fazer a mesma pergunta diariamente. Os cozinheiros entravam na cozinha como crianças a procura dos brinquedos! Eu tentava controlar a minha ansiedade, pois sabia que, assim como da outra vez, a coisa não seria tão simples assim. Não sei se todos lembram, mas da primeira vez eles ficaram perdidos nos correios por alguns dias…

Dessa vez resolvemos fazer um tracking package em tempo real através do site dos correios. Minha gerente checava de hora em hora e me passava as coordenadas ao vivo, via e-mail, torpedo ou telefone. Tecnologia serve para isso e não para embalar pobres ingredientes em sacos e jogar na água para cozinhar! Como a expectativa já era grande e excitação mais ainda, me empolguei e comecei a postar ao vivo no twitter os passos dos mangaritos pelas ruas do Rio:

Track mangarito: Saiu do interior de SP na sexta-feira…está sendo esperado na agência dos correios do Jardim Botânico a qualquer momento! about 22 hours ago from web

Track mangarito: ainda não chegou à agência dos correios do JB, mas está pelas ruas do RJ! Essa é a última chance de experimentar em 2009!! about 22 hours ago from web

Track mangaritos: foram vistos circulando pelas imediações de Botafogo….tá perto!

Track mangaritos: carro dos correios bateu quando se dirigia ao Jardim Botânico! Mas os mangaritos passam bem, vão atrasar, mas estão a salvo. about 20 hours ago from web

Foi nessa hora que, na excitação, devo ter comido uma casquinha de mangarito torrada da leva anterior que certamente era alucinógeno!

Track mangaritos: enfim chegando aos correios do Jardim Botânico…agora só poderemos libertá-los amanhã! Pelo menos estão a salvo… about 19 hours ago from web

O que os mangaritos não passam para sobreviver! São brasileirinhos mesmo…about 19 hours ago from web

Amanhã pela manhã libertaremos os mangaritos que ficaram detidos por desacato a autoridade na agência dos correios do Jardim Botânico! about 19 hours ago from web

Na minha cabeça de cozinheira metida, e põe metida nisso, a escritora, a história seria mais ou menos assim…

Os mangaritos já não aguentavam mais o calor enfurnados dentro de uma caixa de papelão desde que deixaram o interior de São Paulo há dias atrás. Depois de muita volta pela cidade, a paciência de todos começou a esgotar. Gritavam de dentro da caixa: “Lineu de Paula Machado, 916! Lineu de Paula Machado, 916!” Essa gritaria atrapalhou o motorista, que bateu em outro carro quando finalmente rumava para o Jardim Botânico. Nessa hora a caixa com os mangaritos se abriu e todos saíram aliviados. Ao perceberem que não haviam chegado ainda ao destino, começaram a reclamar e gritar mais ainda. O motorista atordoado chamou a polícia que determinou a prisão dos mesmos imediatamente: “aos costumes! E só serão liberados amanhã mediante pagamento de fiança! Estão pensando que estão aonde? No Rio de Janeiro?” Resignados os mangaritinhos voltaram para a caixa e nos aguardam na agência dos correios para a tão sonhada libertação!

Certamente tinha um com poderes alucinógenos na primeira remessa. Vamos ver nessa…

Até!

11 de agosto de 2009

Esse tal de defeso…

Filed under: cozinha moderna brasileira — Tags:, , — Roberta Sudbrack @ 17:49

Temos recebido diariamente no RS peixes e frutos do mar maravilhosos. Coisa de emocionar. E de morder! De tão frescos andam até mordendo os meus cozinheiros. Especialmente os camarões, andam fantásticos. Acho que fazia muito tempo que não via nada tão sensacional. Os de alto mar são deliciosos, de uma cor vermelha vibrante, casca crocante, carne delicada, quase doce. Umas jóias.

É uma glória receber peixe fresco todos os dias e uma alegria poder servi-lo no auge do seu sabor e textura. A história é muito simples, sempre digo para os meus cozinheiros, peixe fresco a gente olha e tem vontade de comer cru! No máximo um fio de azeite e umas pedrinhas de flor de sal. É só. Se não deu vontade, acredite, não é tão fresco assim.

Mesmo morando numa cidade de praia, sei o quanto é difícil conseguir um produto assim. Foram anos de luta e um trabalho imenso de conscientização dos fornecedores. Em contra partida também aprendemos muito, conhecemos espécies novas, tipos especiais de peixe como o cherne de gralha amarela e outras pérolas do mar. E na nossa parceria com os fornecedores uma coisa é lei: respeitamos o defeso. Então não nos ofereça nada fora da época, é perda de tempo.

Agindo assim incentivamos uma pesca consciente e o respeito pelo mar e seus habitantes. Não fosse assim não estaríamos tendo o privilégio de trabalhar diariamente com tantas preciosidades. Quando vou fechar o “menu” do dia seguinte e ainda não tive notícias do que virá do mar, escrevo assim na prévia: “O peixe que chegar…”

Outro dia resolvi abrir esse leque de possibilidades, inspirada pela boa safra de camarões e escrevi: “O ser marinho que chegar…” . Causou gargalhadas no restaurante. Mas era pura verdade, estávamos à espera deles, sejam eles quem fossem, a escolha caberia ao mar!

Até!

31 de julho de 2009

Os mangaritos chegaram!

Filed under: cozinha moderna brasileira — Roberta Sudbrack @ 17:20

Os mangaritos chegaram! Os mangaritos chegaram! Estão lá quietinhos repousando. Todos os dias vamos até onde eles estão, pegamos um, olhamos, cheiramos, cheiramos de novo, olhamos de novo, e vamos fazer outra coisa. Daqui a pouco voltamos, descascamos, cozinhamos, um pouco mais, uma pouco menos, e provamos. Sem sal, com sal, com açúcar, com manteiga – que delícia!

Mais tarde pegamos outro, limpamos a terra que os envolve e experimentamos cru, em lâminas, quadradinhos, pedaços e pedacinhos. Deixamos um pedaço em contato com o ar e depois de alguns minutos voltamos para observar as reações. Colocamos no céu da boca e esperamos alguns minutos antes de morder. Raspamos, assamos, douramos, cortamos, escovamos, lavamos, secamos e sonhamos!

Num desses movimentos, sim, essa pesquisa empírica, genuinamente brasileira, lembra de algum modo os movimentos da dança. Talvez porque envolva, apesar desse empirismo, boa dose de disciplina, reverência e conexão com a ciência. A ciência da vida, do mato, do caboclo, do sertão, das raízes, enfim, da cozinha brasileira. Uma ciência que está muito mais ligada aos métodos caseiros do “erro e acerto”, do que com qualquer outro. Da observação, da tentativa, da busca pela compreensão que tantas vezes pode estar escondida nas profundezas de uma raiz. Numa casca, uma semente ou numa gelatina natural.

Num desses movimentos avistamos algo viscoso que se movia do mangarito até a faca que o cortava e voltava. Repetimos o movimento e lá estava ela, uma boa dose de gelatina. Certamente no interior, no sertão, lá no mato, conhecida como a renegada baba. Gelatina ou baba? Pouco importa, ali está a chave para alguma porta que possivelmente levará a um caminho nunca antes percorrido. Ou não. Mas assim nós vamos, caminhando, sonhando e dançando conforme o ritmo que a natureza nos propõe. E o que formos descobrindo poderá no mínimo ajudar a desvendar alguns mistérios ou até a escrever uma nova página nessa linda história de cozinha.

Até!

29 de julho de 2009

Cozimentos… ainda os assados, modernos pero no mucho… Parte III

Filed under: cozinha moderna brasileira — Tags:, , — Roberta Sudbrack @ 18:22

Partindo da tormenta anterior, o que mais me assusta é o fato de alguns estudantes hoje em dia já saírem da universidade com uma única ideia, uma única possibilidade ou solução para algumas coisas. No quesito cozimento, o vácuo parece ser uma unanimidade. Nada me apavorou tanto quanto o dia em que recebi um estudante de gastronomia no meu restaurante para jantar e no final, aparentemente maravilhado com a textura do ossobuco de vitelo, ele sentenciou: “só pode ter sido preparado no vácuo.”

Eu deveria ter respondido: “Como assim? Desde quando a maciez está sentenciada a uma só forma de preparo? Quem foi que te ensinou isso?”. Mas, como meu avô sempre me ensinou, existem situações e situações. Preferi então sorrir e dizer: “Nesse aspecto eu sou mais antiga”. E me retirar parecendo uma velhinha ultrapassada. Ainda hoje posso rever o semblante dele me olhando perplexo, confuso, praticamente a vácuo.

Volto a dizer, não sou contra a evolução. Desde que ela seja coerente e não venha impregnada com a síndrome da verdade absoluta. Pensar é fundamental. Experimentar também, todas as formas, todas as possibilidades, se apropriar do conhecimento, para só então decidir o melhor caminho. A melhor maneira de expressar esse sentimento que está diretamente ligado ao ato de cozinhar.

Foi assim que outro dia vivenciei uma das cenas mais emocionantes da minha vida. Tão moderna, mas nem tanto. Entrei na cozinha para tomar um cafezinho fora de hora e encontrei a minha avó trocando ideias com a Renata. As duas estavam assando sobrecoxas de frango, ou como nós costumamos chamar mais poeticamente no Rio Grande do Sul, o “Santo Antônio”. Haviam assado primeiro no forno grande numa travessa, tampadas com papel alumínio por um bom tempo em temperatura bem baixa. Naquele momento a minha avó dava instruções – a Chef! – para que a Renata aquecesse o forninho – aquele que a gente usa para fazer torradas e misto quente expresso na madrugada – e passasse então as sobrecoxas para lá. Perguntei o porquê daquele ritual e minha avó me respondeu: “Ora, porque no forno baixo ela vai assar devagarzinho até ficar bem tenra e depois no forninho a pele vai ficar bem dourada e crocante.”

Sorri por dentro e por fora. Estava diante de mim a prova de que o pensamento é fundamental e tem o seu lugar garantido na história. Na minha, na sua e na da gastronomia. Agora, como cada um vai decidir como será o seu assado, é outra história.

Até!

28 de julho de 2009

Cozimentos… Mais precisamente os assados… Parte II

Filed under: cozinha moderna brasileira — Roberta Sudbrack @ 17:48

Chamei de “pseudo-desaparecimento” o sumiço dos assados dos menus de muitos restaurantes, porque algumas vezes, o que se apresenta como um assado, em minha opinião não é bem isso. É aí que entra a minha resistência ao hoje tão idolatrado cozimento a vácuo. Assado em minha opinião começa no forno e termina no forno. Pode começar em fogo mais brando e terminar em fogo mais alto. Pode ser o contrário também. Pode estar totalmente selado com papel alumínio, ou outra coisa, justamente para criar um vapor concentrado e constante, que sabemos, auxilia a busca pela maciez. Pode. Mas não pode começar dentro de um saco plástico, mergulhado em água quente e terminar na salamandra. Para ser tratado como assado, não pode. Para ser tratado como algo macio, até pode. Mas veja lá a diferença entre “algo macio” e um bom assado…

Veja bem, não é que eu seja ranzinza ou não esteja aberta a mudanças. Não é que eu não enxergue também a grande contribuição dessa técnica para as grandes cozinhas, refeitórios, caterings e etc. No armazenamento e até em alguns tipos de cozimento. Mas nos assados… Eu simplesmente só consigo enxergar um assado com os olhos dos “assadores”, aqueles indivíduos tão fundamentais nas cozinhas de Antonin Carême e Cia.

Não sou contra o pensamento, o questionamento e até as rupturas quando se mostram necessárias. Muito pelo contrário. Acho que refletir é adicionar modernidade na medida certa a uma gastronomia que está em plena evolução. Mas não posso concordar com a ideia de que a solução esteja tão somente ligada ao uso de mais tecnologia nas cozinhas. Ou que a evolução de uma cozinha sem ela não seja razoável e absolutamente possível.

Primeiro porque acredito que a cozinha, sobretudo a brasileira, tem uma conexão extremamente forte com a tradição. Com o cheirinho de defumado que o fogão a lenha insinua, com o gosto marcante que se concentra no fundo de uma panela de barro ou de ferro. E com a caramelização tão necessária aos assados e a vida.

Além disso, não me agrada nem um pouco a idéia de padronização. Cada cozinha tem o seu cheiro, seu jeito, seus métodos e seu tão poético “modus operandi”. Imaginar que execuções que variam justamente porque estamos falando de ingredientes, maneiras e possibilidades tão diferentes, possam, de uma hora para outra, se tornar absolutamente previsíveis, a ponto de termos certeza que ponto de cocção estará sempre correto, me assusta profundamente. Mais do que isso, me atormenta!

A continuar…

Até!

27 de julho de 2009

Cozimentos…Parte I

Filed under: cozinha moderna brasileira — Roberta Sudbrack @ 20:12

Resolvi dividir esse post em partes porque tenho certeza de que ele vai dar o que falar. Essa é apenas a parte I, então antes que comecem a chover as ponderações, ou até as discussões, sugiro aguardar a parte das conclusões, para só então começar a bombardear essa humilde cozinheira repleta de convicções. Ficou quase poético, não?

Cozimento é cozimento desde que inventaram o fogo. Antes dele também, porque não podemos esquecer que existem os cozimentos a frio, aqueles que derivam da ação de um ácido, do sal e outras reações. Mas, no momento, vamos nos concentrar nos cozimentos que, pelo menos aparentemente, prescindem de fogo.

Pode ser mais lento, o que a gente costuma qualificar como cozimento de dentro para fora. Também pode ser mais agressivo, esse a gente chama de cozimento de fora para dentro. Esse se utiliza sempre de um calor muito intenso e constante por pouco tempo. O objetivo é selar o lado de fora e prender dentro o máximo de suculência e umidade possível num processo muito rápido. O primeiro, o lento, normalmente é feito numa temperatura muito baixa e sem grandes variações, durante um longo tempo. Aí mora a grande dificuldade de encontrar o equilíbrio entre a maciez e a perda de volume e umidade.

É difícil, eu sei. Minha avó sabe. Os cozinheiros, desde os tempos de Antonin Carême, também sabem. Não é a toa que naquele tempo existia inclusive uma figura chamada “assador”, tamanha a importância dessa técnica numa cozinha. Difícil sim, impossível não. Tenho ouvido certas declarações contundentes a favor do cozimento a vácuo ultimamente. Respeito algumas e discordo fervorosamente de outras.

Não posso, por exemplo, concordar com o discurso de que a salvação da cozinha moderna esteja nas mãos do cozimento a vácuo, e não nas mãos dos próprios cozinheiros. Concordo que a técnica de cozimento, sobretudo a dos assados requer uma precisão e uma perícia que é para poucos. Os assados… O nome já diz tudo. Em quantos restaurantes hoje em dia encontramos ofertas de assados diariamente? Não estou falando de churrascaria, claro. Talvez essa falta de oferta possa ilustrar a complexidade que envolve a técnica. E quem sabe até o porquê do seu pseudo-desaparecimento.

Pseudo-desaparecimento? Ah, isso é assunto para a parte II…

Até!

21 de julho de 2009

São tantas emoções…

Filed under: cozinha moderna brasileira — Tags:, — Roberta Sudbrack @ 18:28

A cada dia a natureza reserva uma surpresa diferente. Basta estarmos atentos e dispostos a tirar disso o melhor proveito. Trabalhar com o que a natureza me presenteia diariamente sempre foi um ponto inegociável para mim. Não posso me imaginar ligando para o pescador e dizendo: “Olha, hoje eu quero pargo!” Como assim? E se o mar não quiser te dar pargo hoje?

Prefiro ligar e dizer: “O que mar trouxe hoje?” Me parece mais condizente com a minha filosofia de trabalho, me mover conforme o balanço do mar. Respeitar as suas manias e vontades. Adequar-me às suas idiossincrasias! Não teimar com elas nunca!

Nessa caminhada de respeito e reverência acabo me deparando com cada tesouro…Fazia tempo que não chegava do mar a notícia de que teríamos cherne de gralha amarela. É uma espécie de cherne mais rara, de carne muito branca, adocicada e maravilhosamente entremeada de gordura. Uma iguaria. Talvez quem frequente o meu restaurante não tenha tido a chance de degustar esse peixe muitas vezes, tamanha é a dificuldade de encontrá-lo. Mas certamente quem teve essa raríssima chance deve se lembrar, porque é de uma delicadeza incomum.

Hoje recebi a notícia de que o peixe que teríamos para o jantar seria esse. É tão emocionante saber que teremos a oportunidade de trabalhar com uma carne tão especial! Fico imaginando a expectativa da minha equipe para saber quem será o sortudo que irá trabalhar na praça do peixe hoje? Também fico emocionada de pensar que serviremos uma iguaria tão singular para os nossos clientes simplesmente porque permitimos nos guiar pela natureza. Logo, ela nos presenteia com uma coisa dessas…

São tantas emoções…Essa semana também recebo a minha primeira remessa de mangarito. A minha expectativa é a mesma de uma criança que acha que vai ganhar uma bicicleta, mas ainda não tem tanta certeza disso. Então sonha uma noite atrás da outra com a dita cuja. Qual será a cor? O modelo? Que dia vai chegar? Será que vai chegar?

O Rei tem razão, são tantas emoções…

Até!

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