Nas cozinhas do século 19, templo de grandes banquetes e de chefs que fizeram história – a figura do assador era peça fundamental. Fosse hoje em dia alguns poderiam jurar que assador seria o nome de alguma geringonça ultramoderna repleta de botões e visores digitais vendida sobre o pretexto de produzir assados perfeitos.
Assados perfeitos? Mas o que seria na sua imaginação ou memória afetiva, um assado perfeito? Vamos pensar juntos em dois contextos; o primeiro, o assado da vovó. Verdadeiro patrimônio de qualquer família que se preze, suculento, cheio de raspinhas provenientes da caramelização natural dos sucos. Nesse tipo de preparo até certas imperfeições são toleradas, mais do que isso, valem cada garfada. O segundo, o pretenso assado perfeito preparado nessas máquinas mirabolantes de cozimento a vácuo. Aqui nenhuma imperfeição é perdoada. Nenhuma caramelização é permitida. Nenhum contato com o oxigênio é aconselhável. Até tossir no momento do preparo pode ser perigoso. Muito perigoso!
Vamos fechar os olhos e nos transportar para primeiro cenário; a casa da vovó. Cozinha arrumada, rendinhas, panos de prato bordados e latas de biscoito, muitas latas de biscoito por todos os lados! Agora vamos mergulhar no universo desse assado.
Primeira etapa; o cheiro. Você entra na cozinha e é tomado por uma nuvem inebriante de sabor concentrado – Não estamos definitivamente falando daqueles sprays sabor fumaça de churrasco de domingo ensolarado. Também vendem o de domingo nublado, mas acho que você vai preferir o cheiro do ensolarado! – e imediatamente diz sem pensar: “Olha esse cheiro!” Quem é que em sã consciência num momento como esse vai pensar na conjugação certa?
Próxima etapa; o olhar. Mais precisamente o contemplar. É nesse instante quase mágico que a sua mente entra em contato com o cheiro que está catalogado no seu cérebro e vibra de alegria. Mais do que isso, na melhor das hipóteses saliva descontroladamente feito criança.
Etapa final; o toque. A primeira garfada na realidade seria, digamos assim, a materialização do sabor que já está armazenado na sua mente e no seu olhar desde o momento em que você entrou nessa cozinha. Daí em diante a viagem é sua. Pode ser de ida e volta ou sem compromisso algum com o tempo, seja ele passado, presente ou futuro. It´s up to you!
Corta, edita e recomeça a filmagem. Vamos nos transportar para o segundo cenário. Cozinha ultramoderna, aço inox por todos os lados, bancadas térmicas digitais, equipamentos de última geração e cozinheiros que usam pinças – e óculos, claro! – no lugar de facas e colheres de pau. Agora vamos mergulhar nesse universo. Você entra na cozinha e avista no cantinho de uma bancada um aparelho muito estranho. Aproxima-se bem devagar, compreensivelmente assustado e avista um saquinho de plástico boiando. Dentro dele, um pedaço de carne muito bonito bóia calmamente numa água clara e morninha.
Primeira etapa; o cheiro. Bem, essa etapa nós vamos pular.
Segunda etapa; o olhar. É… Essa, nós também podemos pular.
Terceira etapa; o toque. Bom, nessa eu vou precisar da ajuda de vocês: é assado ou cozido? Eu sempre fico em dúvida.
Até!