Arquivo da Categoria ‘cozinha moderna brasileira’

Cabeça não foi feita só para usar chapéu de cozinheiro…

terça-feira, 9 de março de 2010

Eu sempre duvidei dessa história de cozinha sem fogo. Não foram poucas as vezes e nem são poucos os posts onde falo incansavelmente sobre isso. Não suporto ver fotos daquelas cozinhas moderninhas onde só se avistam bancadas, pipetas, blenders e máquinas assustadoras. Quando muito uma chapa por indução no canto esquerdo da cozinha aonde ninguém vai!

Bem, pois não é que outro dia recebi um telefonema de alguém me convidando para participar de uma matéria sobre sustentabilidade, tema que muito me interessa, e o grande desafio era justamente cozinhar sem fogo, eletricidade ou carvão? Sem eletricidade eu sou craque, porque já perdi as contas das vezes que faltou luz no Rio de Janeiro e tivemos que remar no escuro. Mas sem fogo?

Topei na hora porque desafio é comigo mesmo. E, como diz o caipira, “garrei a pensar!” Fiz brainstorming com a minha equipe para saber o que cada um achava dessa ideia. Ouvi coisas interessantes e desesperadas: “Mas não pode usar nem um foguinho?” Sonhei com o assunto, vasculhei a minha mente e a revirei de cabeça para baixo. Pensávamos nas receitas e vira e mexe nos deparávamos com algum empecilho, isso tem que usar geladeira, aquilo passa primeiro pelo charbroiller e coisas desse tipo. Conseguimos chegar a um resultado interessante, entre eles até um prato novo que vínhamos trabalhando com a banana ouro, o que foi sensacional. Fez pensar, refletir, ousar. Isso é importantíssimo na gastronomia, caso contrário, fica muito fácil achar que alguma coisa está perfeita. Ora, felizes são os italianos que nunca acham que nada está perfeito se estiver a dez passos da casa da “mama” ou da “nona”!

A perfeição não existe e nem pode existir. Ela acabaria com a gastronomia. Seria o fim chegar à conclusão de que alguma coisa é perfeita e nada diferente daquilo pode ser bom. A vida na cozinha seria sem graça, sem alegria e o pior, sem perspectiva. O que nos move diariamente é a vontade de fazer melhor. As críticas nos abalam, nos aborrecem e entristecem sim, hipócrita de quem diz o contrário, mas elas também têm um papel fundamental no nosso trabalho: o de nos sacudir! Pensar no tema sustentabilidade tem que ser algo que nos incomode, nos faça perder o sono, nos obrigue a pensar melhor em tudo o que estamos fazendo. Em tudo o que pensamos que estamos construindo. A natureza tem mandado recados, que, como todos nós sabemos, não têm sido lá muito simpáticos.

Até!

Quem nunca usou que atire a primeira pedra…

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Você já usou. Eu já usei. Você já experimentou. Eu já experimentei. Você já gostou. Eu nunca gostei. Mas, afinal, há alguns anos atrás seria sonho de uma noite de verão imaginar que algum dia nós teríamos o prazer de trabalhar com trufas frescas no Brasil. Logo, azeite de trufas parecia ser a solução mais próxima em sabor e aroma. Não é! Eu me enganei. Você se enganou. Nós nos enganamos ou alguém nos enganou?

A falta de parâmetro nos confundiu, talvez seja essa a resposta mais adequada. Não há nada pior na gastronomia do que a falta dele. Falta de sal a gente resolve. Falta de pimenta também. Agora, falta de parâmetro e frescor não tem solução. Como comparar se a gente não conhece o outro lado da moeda?

Desde o primeiro dia em que tive a chance de colocar as mãos numa trufa fresca meu mundo virou de cabeça para baixo. A primeira pergunta que me veio à cabeça foi: “Como é que eu pude usar azeite de trufa?” Não tem nada a ver. Não tem nada pior. Não tem nenhum sentido lógico, abstrato ou concreto. Simplesmente não emociona. É falso, forte, grosseiro, indigesto e sabe-se lá porque, caro!

Hoje em dia não posso ver, não posso cheirar, não posso sentir. Mas tenho que viver com essa culpa: “Já usei e indiquei.” No meu livro, Roberta Sudbrack, Uma chef, Um palácio, tem uma receita, ou duas, não sei bem. Minhas receitas com esse gás poluente? Terei que viver com essa culpa ou mandar recolher todos os livros para um recall gratuito. Ainda estou avaliando com a minha terapeuta qual é a solução mais viável.

Até aí tudo bem. Vi, vivi e aprendi. O que eu não posso entender e nem aceitar é o fato de vira e mexe ainda me deparar com essa substância tóxica nos cardápios mundo a fora. Não combina com o momento vivido pela gastronomia. Se até na Espanha o uso indiscriminado de produtos químicos na cozinha está sendo reavaliado para nossa sorte! Evoluir é olhar para frente e para trás. Refletir, aprender, entender. Buscar novas formas, novas possibilidades, novos contextos. Instigar, surpreender, alegrar. Tudo isso está valendo. Só não vale mascarar. Ainda que o carnaval esteja perto, sai de cozinheiro que é melhor do que de Batman!

Até!

Dia de festa no mar…

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Eu ainda estou esperando notícias do mar. Todo mundo sabe, seja porque eu repito insistentemente, seja porque ouviu falar, que não sou eu quem decide o menu diário da casinha laranja à beira do canal. Jamais ligarei para o pescador dizendo: “Hoje quero pargo!” Quem sou eu para decidir o que o mar quer me dar naquele dia? Danço conforme o ritmo das marés. E sendo hoje dia de festa no mar, só me resta esperar. O que tiver que ser meu será.

Por falar em repetir insistentemente, também já repeti milhares de vezes que não estou nem aí para thermocirculares, sousvides e thermomix. Nem saberia o que fazer com elas e correria o risco de largar o meu ofício de tanto medo que teria de que elas mandassem em mim. O que certamente aconteceria. Ora, não venha me dizer que tenho que colocar uma carne linda, vibrante, fresca e natural dentro de um saquinho de plástico, retirar-lhe o contato com o oxigênio – fundamental a nós e ao vinho – mergulhar a pobre coitada num banho maria metido a besta e esperar horas e horas pelo resultado.

E onde enfiaria a angústia do meu cozinheiro? Tão necessária à sua evolução! Se ele soubesse exatamente o resultado que iria alcançar todos os dias? Se nada dependesse da sua perícia? E se posto de assador, um dos mais importantes numa cozinha – por vezes até mais importante do que o do chef –  não pudesse ser mais conquistado por alguém que estivesse disposto a se doar por horas e horas à procura de um assado perfeito?

O que seria de mim e do meu artesanato se essa precisão humana não fosse posta a prova todos os dias? Dia após dia. Jornada após jornada? O que seria daquele sorriso de vitória que avisto no rosto dos meus assadores cada vez que a suculência está viva, a umidade mantida e a caramelização insuportavelmente dourada? Porque cozinhar se não for para buscar diariamente essa satisfação? E porque uma maquininha metida a besta acredita que pode substituir essa satisfação e me oferecer a precisão garantida ou o seu dinheiro de volta?

Nunca entendi isso. Nunca vou entender. Sempre achei que com um microplane, bons fouets, peneiras de várias espessuras e, sobretudo, a precisão humana – que graças a Deus pode falhar! – se pode fazer uma cozinha moderna, saborosa e verdadeira. Hoje ouço dizer que os ares vindos da Espanha, o epicentro da modernidade culinária, começam a soprar da mesma maneira. Só posso agradecer a Yemanjá, é sinal de que suas festas no mar têm feito pensar…

Até!

Feito a mão…

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Tenho pratos rondando a minha mente. Acordo sentindo sabores, revendo cores, acertando texturas. Aqui falta, aqui tem demais, ali pesa, lá pode, aqui não. Um prato é construção de uma expressão, e em minha opinião ela tem que ser precisa, clara, tranquila. Não acredito em construções que se apoiam em elementos demais. Gosto do minimalismo e da exatidão. Sabores marcantes, verdadeiros, convictos.

Convicção é uma palavra forte. Gosto dela. Convivo com ela. Luto por ela. Esses pratos que andam rondando a minha cabeça são delicados, autoconfiantes e desafiantes! Não há desafio maior no mundo de hoje que optar pelo artesanal. Palavra forte também. Simples, poética, exata. Quer dizer simplesmente: feito a mão. E o que mais interessa? Feito a mão diz tudo, projeta tudo, conclui tudo. Expressa tudo.

Outro dia assistindo a um documentário sobre a vida de Coco Chanel, caí num choro profundo no momento em que ela proíbe completamente as máquinas de costura e decide que dali em diante tudo será feito a mão. Os detalhes, os acabamentos, as texturas, tudo estará a partir de então permeado pela energia intensa e necessária das mãos. Depois disso tenho pensado demais. Repensado também. Sofrido muito mais.

Meus pratos não têm conseguido o espaço necessário para deixar a minha mente e assumir o seu lugar no mundo. Não têm encontrado a tolerância necessária para a expressão precisa. Seu preparo, sua concepção e execução não se encaixam na correria que hoje em dia atende pelo nome de: refeição. Na visão dos meus pratos uma refeição precisa de cadência. De respiração, entrega e contemplação. O tempo é efêmero. Pode parecer muito, pode parecer pouco, a contemplação não impõe regras.

Restaurantes, a história comprova, sempre foram lugares onde as pessoas procuraram restauração. Não é a toa que os primeiros que se tem notícia vendiam apenas sopas restauradoras. Restaurar, degustar, sentir, vivenciar. Nada disso combina com o ritmo que a vida hoje nos impõe. O artesanato necessita sentir o tempo. O tempo necessário à sua confecção, a sua existência e finalmente à sua expressão verdadeira. É uma proposta, uma tentativa de escapar das ciladas que o ritmo da nossa vida hoje nos impõe. Uma chance.

Danúsia Barbara, crítica gastronômica que eu muito respeito, certa vez ao me escolher como melhor chef do Rio de Janeiro, disse essa frase: “ Mas não é todo mundo que entende o seu artesanato.” Isso sempre volta à minha mente. Dia após dia, noite após noite, quando clamamos pelo ritual, pelo tempo, pela tolerância. O ritual não é um aprisionamento. É uma chance que cada um pode ou não se dar. Não somos nós que decidimos isso. É a vida que passa.

Até!

Deu pra ti!

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Deu pra ti!

Eu sei, eu sei, não existe maneira mais previsível de dizer que se está indo para Porto Alegre do que essa: “Deu pra ti, baixo astral, vou pra Porto Alegre tchau!”. Mas todo gaúcho que se preza adora. Não só o refrão como ir para a terrinha, como costumamos dizer.

A mostra ZH de Gastronomia www.clicrbs.com.br/especial/rs/mostragastronomia2009/ é um dos encontros mais importantes do país sobre o tema. Todos os anos eu tento ir, mas as agendas acabam não batendo. Esse ano fiz questão de reservar um lugarzinho com bastante antecedência para voltar à terrinha. É um encontro de alto nível onde não só o interesse do público é enorme, como a gente tem a chance de trocar uma figurinha com amigos de trabalho que pouco se encontram no dia a dia. É um evento de tirar o chapéu, de cozinheiro de preferência!

Sempre faço questão de frisar o quanto é emocionante falar de cozinha brasileira em solo brasileiro. Uma coisa é viajar com essa missão para fora do país, tem um gostinho incrível. Mas viajar com essa mesma missão aqui dentro tem sabor de mangarito!

Voltar a Porto Alegre para mim tem ainda muito mais emoção envolvida. Rever lugares, pessoas, costumes e guloseimas típicas! E mais do que isso, dividir o que tenho descoberto nas minhas pesquisas, cozinhar para aquele povo maravilhoso, tudo isso me deixa de altíssimo astral. Dessa vez o Kleiton e o Kledir que me desculpem, vou pra Porto Alegre e tchau… Mas de ótimo astral!

Minha agenda na terrinha:

Preparo um jantar no dia 4/9 às 21horas, cujo menu será:

Tartare de abóbora
Camarão em lâminas de chuchu e leite de amendoim
Costelinha de vitelo de leite assada em baixa temperatura “caseira”
Canelone de maçã em farinha de pistache

Ministro aula no dia 5 às 14hs, cujo tema será:
A moderna cozinha brasileira, e as receitas:

Quiabo defumado em camarão semicozido
Canelone de atum e tartare de chuchu
Ravióli de filé curado e marmelada de maxixe

E no meio disso pretendo encontrar um tempinho para uma farra ou outra, com os meus amigos do http://www.destemperados.com/

Até!

Salvem a flor de sal!

terça-feira, 1 de setembro de 2009

A flor de sal é um produto maravilhoso, uma pérola da natureza. Todo mundo sabe que eu sou fascinada pelas pérolas da natureza, por isso, há alguns anos atrás quando não se encontrava a flor de sal por aqui, eu trazia um estoque anual toda vez que viajava. Esse ano estive na França e pensei: “Não, não vou levar. Não precisa, agora somos um país desenvolvido, já temos acesso a esse tipo de ingrediente.” E não trouxe.

Se alguém quiser saber qual é o meu nível de arrependimento basta me seguir no twitter: www.twitter.com.br/RobertaSudbrack. Estou fazendo até campanha: Salvem a flor de sal! Daqui a pouco vou ficar conhecida como a Chef das campanhas… Salvem o Mangarito! Salvem os quiabos! Salvem os maxixes! Enfim, a verdade é que o nível de arrependimento é enorme porque acabei de saber pelo meu fornecedor que não poderei mais comprar a flor de sal no Brasil!

O porquê desse retrocesso? Uma lei de 1974 que determina que todo o sal consumido no Brasil receba uma quantidade a mais de iodo. Ora, adicionar iodo à flor de sal, um produto absolutamente natural e por isso mesmo sensacional, é que os franceses não vão! E nem devem!

Vivamos nós sem a flor de sal e na onda do retrocesso… Ou, gritemos todos: Salvem a Flor de Sal!

Até!

Os mangaritos alucinógenos…parte II

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Todo mundo sabe que eu tenho uma veia meio novelística… Pena não estar conseguindo acompanhar nenhuma novela ultimamente. Morro de inveja dos clientes que ligam para o restaurante e dizem: “Vou me atrasar porque não quero perder o capítulo de hoje da novela das 8!” Acho o máximo ver novela. Como não vejo, invento as minhas!

Era para encerrar o assunto dos mangaritos, afinal, que mocinhos mais assanhados! Já não bastava o Maestro Zubin Metha ter experimentado, gostado e pedido para repetir? Ainda tinham que virar personagens de uma crônica da Cora Rónai? Estão muito saidinhos para quem estava correndo o risco de desaparecer da face da terra, não estão?

Mas não sei se, nessa mania de comer casquinha de mangarito assim que saem do forno – o aroma de café e chocolate é uma coisa sensacional – não acabei comendo outro que era alucinógeno? Ou se, inspirada nos devaneios dos comentários das pessoas que não comeram um mangarito alucinógeno, mas também acabaram viajando nessa história, criei outra!

Ao chegar à agência dos correios minha gerente identificou-se como a representante legal do RS que teria vindo para libertar os mangaritos. Imediatamente as atendentes se entreolharam e apertaram um pequeno botão que fica atrás do balcão. Segundos depois apareceram dois policiais e o motorista do carro batido. Esse literalmente atordoado. Os policiais pediram para que a minha gerente os acompanhasse até uma salinha reservada. Ela foi. Chegando lá pediram para o motorista relatar o acontecido durante o trajeto. Ele relatou aos berros, desesperado e ao final sentenciou: “São uns delinqüentes! Perigosos! Gritam muito” Os policiais perguntaram se ela tinha certeza de que queria libertá-los, se não seria melhor devolvê-los ao interior de São Paulo de onde vieram? Minha gerente imediatamente disse que não! Eles estavam sendo esperados com ansiedade por uma multidão! “Multidão?” Perguntaram os policiais? “Como assim? Essas coisinhas feias e gritonas?” Sim, ela respondeu. “São astros! Amigos do Maestro Zubin Metha! Estão até no jornal, os senhores não viram? São personagens de uma crônica da Cora Rónai no jornal O Globo do dia 27 de agosto!” Os policiais se entreolharam duvidando e então abriram uma janelinha, daquelas que só quem está de um lado enxerga e pediram para que ela fizesse o reconhecimento. “Então, me diga se esses, que a Senhora vê aí, são os tais astros que saíram na coluna da Cora Rónai e são amigos do Zubin Metha?” E riram. Minha gerente olhou uma vez, olhou outra; estava difícil reconhecer porque estavam todos de óculos escuros fazendo o tipo astro pop total. Mais precisamente todos usavam um rayban aviator rb 3025! Depois de algum tempo ela disse: “Sim senhor, esses mocinhos não são mais simples mangaritos que estão correndo o risco de extinção. Agora são cidadãos brasileiros e astros conhecidos, desacato é mantê-los presos nessa situação! A cozinha está à espera deles para o show de hoje à noite! Ainda tem que ensaiar!” Envergonhados os policiais mandaram libertar imediatamente a mangaritada, não sem antes pedir uns autógrafos e determinar a prisão imediata do motorista!

Com licença que agora está saindo uma fornada de casquinhas de mangarito e eu tenho que correr lá para comer algumas! Isso vicia!

Até!

Os mangaritos alucinógenos…

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Depois de ferrenha negociação com o Senhor João Lino – um dos únicos fornecedores de mangaritos do Brasil – conseguimos finalmente mais uma remessa de mangaritos da safra 2009 para a nossa cozinha. A comparação que frequentemente acontece entre os mangaritos e as trufas não deixa de fazer algum sentido! A oferta de mangaritos chega a ser menor e mais difícil do que a das trufas brancas que vêm de Alba, na Itália. E o preço depois de sedex pra lá, sedex pra cá, acaba ficando parecido. Mas assim como as trufas, vale todo esforço!

Certamente não foram os meus belos olhos que convenceram o Senhor João Lino a nos ceder mais um pouquinho da sua pequena produção, provavelmente foram os do Maestro Zubin Metha, que, diga-se de passagem, brilharam como os de uma criança travessa com a possibilidade de repetir o ravióli amanteigado de mangarito em três texturas, que servimos a ele logo após o concerto da Filarmônica de Israel, aqui no Rio. Pouco importa. O importante é que na semana passada os mangaritos mais uma vez deixaram o interior de São Paulo e rumaram para uma casinha laranja à beira do canal no Rio de Janeiro.

Assim como da primeira vez, a expectativa que se instaurou em todos que habitam essa casinha foi enorme. Os garçons perguntavam quando teríamos mangarito, uma vez que os clientes não paravam de fazer a mesma pergunta diariamente. Os cozinheiros entravam na cozinha como crianças a procura dos brinquedos! Eu tentava controlar a minha ansiedade, pois sabia que, assim como da outra vez, a coisa não seria tão simples assim. Não sei se todos lembram, mas da primeira vez eles ficaram perdidos nos correios por alguns dias…

Dessa vez resolvemos fazer um tracking package em tempo real através do site dos correios. Minha gerente checava de hora em hora e me passava as coordenadas ao vivo, via e-mail, torpedo ou telefone. Tecnologia serve para isso e não para embalar pobres ingredientes em sacos e jogar na água para cozinhar! Como a expectativa já era grande e excitação mais ainda, me empolguei e comecei a postar ao vivo no twitter os passos dos mangaritos pelas ruas do Rio:

Track mangarito: Saiu do interior de SP na sexta-feira…está sendo esperado na agência dos correios do Jardim Botânico a qualquer momento! about 22 hours ago from web

Track mangarito: ainda não chegou à agência dos correios do JB, mas está pelas ruas do RJ! Essa é a última chance de experimentar em 2009!! about 22 hours ago from web

Track mangaritos: foram vistos circulando pelas imediações de Botafogo….tá perto!

Track mangaritos: carro dos correios bateu quando se dirigia ao Jardim Botânico! Mas os mangaritos passam bem, vão atrasar, mas estão a salvo. about 20 hours ago from web

Foi nessa hora que, na excitação, devo ter comido uma casquinha de mangarito torrada da leva anterior que certamente era alucinógeno!

Track mangaritos: enfim chegando aos correios do Jardim Botânico…agora só poderemos libertá-los amanhã! Pelo menos estão a salvo… about 19 hours ago from web

O que os mangaritos não passam para sobreviver! São brasileirinhos mesmo…about 19 hours ago from web

Amanhã pela manhã libertaremos os mangaritos que ficaram detidos por desacato a autoridade na agência dos correios do Jardim Botânico! about 19 hours ago from web

Na minha cabeça de cozinheira metida, e põe metida nisso, a escritora, a história seria mais ou menos assim…

Os mangaritos já não aguentavam mais o calor enfurnados dentro de uma caixa de papelão desde que deixaram o interior de São Paulo há dias atrás. Depois de muita volta pela cidade, a paciência de todos começou a esgotar. Gritavam de dentro da caixa: “Lineu de Paula Machado, 916! Lineu de Paula Machado, 916!” Essa gritaria atrapalhou o motorista, que bateu em outro carro quando finalmente rumava para o Jardim Botânico. Nessa hora a caixa com os mangaritos se abriu e todos saíram aliviados. Ao perceberem que não haviam chegado ainda ao destino, começaram a reclamar e gritar mais ainda. O motorista atordoado chamou a polícia que determinou a prisão dos mesmos imediatamente: “aos costumes! E só serão liberados amanhã mediante pagamento de fiança! Estão pensando que estão aonde? No Rio de Janeiro?” Resignados os mangaritinhos voltaram para a caixa e nos aguardam na agência dos correios para a tão sonhada libertação!

Certamente tinha um com poderes alucinógenos na primeira remessa. Vamos ver nessa…

Até!

Esse tal de defeso…

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Temos recebido diariamente no RS peixes e frutos do mar maravilhosos. Coisa de emocionar. E de morder! De tão frescos andam até mordendo os meus cozinheiros. Especialmente os camarões, andam fantásticos. Acho que fazia muito tempo que não via nada tão sensacional. Os de alto mar são deliciosos, de uma cor vermelha vibrante, casca crocante, carne delicada, quase doce. Umas jóias.

É uma glória receber peixe fresco todos os dias e uma alegria poder servi-lo no auge do seu sabor e textura. A história é muito simples, sempre digo para os meus cozinheiros, peixe fresco a gente olha e tem vontade de comer cru! No máximo um fio de azeite e umas pedrinhas de flor de sal. É só. Se não deu vontade, acredite, não é tão fresco assim.

Mesmo morando numa cidade de praia, sei o quanto é difícil conseguir um produto assim. Foram anos de luta e um trabalho imenso de conscientização dos fornecedores. Em contra partida também aprendemos muito, conhecemos espécies novas, tipos especiais de peixe como o cherne de gralha amarela e outras pérolas do mar. E na nossa parceria com os fornecedores uma coisa é lei: respeitamos o defeso. Então não nos ofereça nada fora da época, é perda de tempo.

Agindo assim incentivamos uma pesca consciente e o respeito pelo mar e seus habitantes. Não fosse assim não estaríamos tendo o privilégio de trabalhar diariamente com tantas preciosidades. Quando vou fechar o “menu” do dia seguinte e ainda não tive notícias do que virá do mar, escrevo assim na prévia: “O peixe que chegar…”

Outro dia resolvi abrir esse leque de possibilidades, inspirada pela boa safra de camarões e escrevi: “O ser marinho que chegar…” . Causou gargalhadas no restaurante. Mas era pura verdade, estávamos à espera deles, sejam eles quem fossem, a escolha caberia ao mar!

Até!

Os mangaritos chegaram!

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Os mangaritos chegaram! Os mangaritos chegaram! Estão lá quietinhos repousando. Todos os dias vamos até onde eles estão, pegamos um, olhamos, cheiramos, cheiramos de novo, olhamos de novo, e vamos fazer outra coisa. Daqui a pouco voltamos, descascamos, cozinhamos, um pouco mais, uma pouco menos, e provamos. Sem sal, com sal, com açúcar, com manteiga – que delícia!

Mais tarde pegamos outro, limpamos a terra que os envolve e experimentamos cru, em lâminas, quadradinhos, pedaços e pedacinhos. Deixamos um pedaço em contato com o ar e depois de alguns minutos voltamos para observar as reações. Colocamos no céu da boca e esperamos alguns minutos antes de morder. Raspamos, assamos, douramos, cortamos, escovamos, lavamos, secamos e sonhamos!

Num desses movimentos, sim, essa pesquisa empírica, genuinamente brasileira, lembra de algum modo os movimentos da dança. Talvez porque envolva, apesar desse empirismo, boa dose de disciplina, reverência e conexão com a ciência. A ciência da vida, do mato, do caboclo, do sertão, das raízes, enfim, da cozinha brasileira. Uma ciência que está muito mais ligada aos métodos caseiros do “erro e acerto”, do que com qualquer outro. Da observação, da tentativa, da busca pela compreensão que tantas vezes pode estar escondida nas profundezas de uma raiz. Numa casca, uma semente ou numa gelatina natural.

Num desses movimentos avistamos algo viscoso que se movia do mangarito até a faca que o cortava e voltava. Repetimos o movimento e lá estava ela, uma boa dose de gelatina. Certamente no interior, no sertão, lá no mato, conhecida como a renegada baba. Gelatina ou baba? Pouco importa, ali está a chave para alguma porta que possivelmente levará a um caminho nunca antes percorrido. Ou não. Mas assim nós vamos, caminhando, sonhando e dançando conforme o ritmo que a natureza nos propõe. E o que formos descobrindo poderá no mínimo ajudar a desvendar alguns mistérios ou até a escrever uma nova página nessa linda história de cozinha.

Até!