3 de novembro de 2009

A gente vai levando…

Arquivado em: Cotidiano — Tags:, , , — Roberta Sudbrack @ 9:35

Tudo bem, admito: não estou dando conta de tudo! Tem horas que a cabeça parece que entra em curto circuito e o winchester que levei anos para preencher com cores, sabores, aromas, texturas e pensamentos – todos sobre comida claro! – desaparecem! Assustador isso.

Admito esquecer números de telefones, datas de aniversários, aliás, nesse quesito não contem comigo, simplesmente não lembro. Meus melhores amigos são aqueles que com a maior naturalidade me ligam e dizem: “Estou ligando para te avisar que hoje é o meu aniversário.” Adoro isso, é o nível máximo da intimidade sendo atingido. Também admito esquecer nomes de pessoas a quem fui apresentada há poucos instantes, antigos namorados ou gente que simplesmente não me interessa. Curiosamente sei de cor o número do meu CPF e da minha identidade, mas não sei até quando isso vai durar?

Agora, esquecer qualquer coisa relacionada a comida, não admito! Não posso esquecer o gostinho da melhor comida italiana que já experimentei na minha vida. Foi numa ilha quase deserta da Grécia, num lugar absolutamente inacreditável que se transformava em restaurante no meio da tarde e pela manhã já não estava mais lá.

Não posso me esquecer do dia em que as sementinhas do quiabo saíram andando pelo meu prato em Tiradentes, Minas Gerais, para chamar a minha atenção e me cutucar: “Veja, somos praticamente um caviar, mas ninguém pensou nisso ainda, acorda!” Não posso esquecer o gosto do pão com mortadela que comi na varanda da casinha laranja à beira do canal – quando ainda estava em obras e repleta de poeira – com um grande amigo e naquela época cozinheiro – hoje para minha tristeza, advogado!

Não posso me esquecer dos sabores das panelas encantadas e genuinamente brasileiras da Janaína Rueda, do Bar da Dona Onça. Entre tantas delícias magistralmente preparadas, não admitiria esquecer o sabor do simples pãozinho com carne moída e da couve flor frita que experimentei na semana passada. Não posso me esquecer do gosto do sagu do Spot. Mas espera aí, esse está fácil, porque amanhã vou almoçar lá e além de matar as saudades posso refrescar a winchester! Acho que tenho andado muito pelas bandas paulistas, acabei me esquecendo de citar os sabores cariocas. Fica para o próximo post, por enquanto, a gente vai levando, a gente vai levando…

Até!

27 de outubro de 2009

Cozinhas não se abandonam…

Arquivado em: Cotidiano — Roberta Sudbrack @ 13:31

Não, eu não abandonei essa cozinha! Cozinhas não se abandonam. Cozinhas são templos. Templos são sagrados. Uma vez conquistada a cozinha, seus cantinhos explorados e suas manias entendidas, a gente passa a fazer parte dela. Como os azulejos, ela precisa de nós. Dela precisamos nós.

Quando se tem outras cozinhas, outros templos para meditar e se entregar, por vezes, um deles pode ficar com ciúmes. Acontece aqui em casa também! Entro nela depois do almoço, silenciosamente enquanto ela dorme. É um dos momentos mais gostosos para contemplá-la. Naquele silêncio nos entendemos, somos uma da outra, não importa o tempo que tivermos uma para a outra.

É como no amor!

Até!

20 de outubro de 2009

Coisa de louco!

Arquivado em: Cotidiano — Tags:, , , — Roberta Sudbrack @ 14:26

É sempre a mesma história, o final do ano começa a se aproximar, nessa etapa do caminho a gente já está mais para lá do que para cá, mas tudo resolve acontecer ao mesmo tempo. É também nessa hora que os motores começam a falhar. Meu subchef teve que entrar de férias, forçadas, porque já não conseguia dizer coisa com coisa. Vira e mexe vejo alguém quase fraquejando e lá vou eu levantar a moral da tropa. É sempre um momento muito intenso, de emoções sem fim à exaustão. Imaginem a nossa situação  psicológica com sucessão de acontecimentos como os que tivemos nas últimas semanas…

Ganhar dois dos prêmios mais importantes da gastronomia brasileira: Chef do ano, pelo guia 4 rodas e melhor restaurante de alta gastronomia, pela Veja Rio.

Receber a diva do cinema Jeanne Moureau, assistir a nossa comida emocioná-la a ponto de ver lágrimas nos seus olhos quando foi visitar a cozinha. E  confessar que aquele era um dos lugares mais sagrados do mundo para ela, pois o seu pai a vida inteira teve restaurante. Não bastasse isso, dias depois chego ao restaurante e encontro uma cartinha escrita por ela de próprio punho…

Ver os meus pratos finalmente serem fotografados pelas lentes de Nana Moraes num ensaio emocionante.

Cozinhar com as cozinheiras das comunidades da Cidade Alta e do Cordovil no simpósio Rio que cidade é essa? Que aconteceu na UFRJ http://eaturl.info/rg6n Energia boa concentrada. A emoção da doação não tem igual…

Ter a honra, o privilégio e a alegria de preparar o jantar de comemoração dos 80 anos de Fernanda Montenegro…não há o que dizer.

Chego ao fim do post exaurida, mas me lembro que hoje a casa está cheia e ainda tenho muito a fazer! Coisa de louco essa vida de cozinheiro…

Até!

29 de setembro de 2009

Apertem os cintos…e twittes mais…

Arquivado em: Cotidiano — Tags: — Roberta Sudbrack @ 16:46

Eu adoro viajar, ponto. Mas detesto avião, ponto de exclamação! Fácil conciliar essas duas características do meu ser não é, mas eu me viro. Particularmente detesto quando aquele aviso miserável de apertar cintos começa a piscar. Boa coisa não vem pela frente! Às vezes passa rápido, noutras a turbulência é grande. Não tem como prever, mas eu sempre acredito que os bons pilotos tentam de alguma maneira minimizar esse nosso sofrimento driblando umas nuvenzinhas.

Como ando twittando muito ultimamente, tenho me utilizado dessa expressão: “Senhoras e Senhores, por favor, retornem aos seus assentos e apertem o cinto de segurança, passaremos por uma zona de instabilidade” , para demonstrar os momentos em que as coisas não vão exatamente como a gente gostaria. Passar para quem está do outro lado da tela, a adrenalina e a emoção da cozinha, sem fotos, filmes ou ilustrações, mas tão somente com a ajuda de um teclado que muitas vezes é mínimo – o do telefone! – não é das tarefas mais fáceis.

Ainda assim acho que não ando me saindo tão mal, não porque tenha o dom da escrita, mas porque amo muito o meu trabalho. Sendo assim fica natural. Isso vale para tudo na vida. Ser natural, desde os ingredientes até a flor de sal, é o que conta! Vai aí então em primeira mão o logo da nossa campanha gentilmente criado e cedido pelo Norton Gomes da Liga Design www.ligadesign.com.br , meu querido amigo que reencontrei via twitter e que como tantos que hoje me seguem lá, resolveu aderir a esse meu grito de guerra:

flordesal

Até!

Mais notícias sobre a nossa campanha:

http://www.tinyurl.com/boavida

http://bit.ly/cgetp

24 de setembro de 2009

No meio do caminho…

Arquivado em: Cotidiano — Tags:, — Roberta Sudbrack @ 21:56

Estou me preparando há dias para escrever esse post. No meio do caminho, não bastassem todas as emoções que ainda estou digerindo, veio a conquista do prêmio de Chef do Ano do Brasil pelo Guia 4 Rodas http://bit.ly/110IxE. Para falar a verdade as emoções ainda estão muito concentradas. Nada ficou no lugar, como diria a Calcanhotto.

Eu sempre fui fascinada pela Pina Bausch. A linguagem dela sempre me encantou. Nunca soube muito sobre ela, não sabia como era fisicamente, não imaginava a sua figura, não sabia do que gostava. Simplesmente me entregava ao seu balé. Vivia o mais intensamente possível a emoção e a oportunidade de assisti-la onde quer que eu estivesse. Perder uma apresentação de Pina Bausch? Sempre pareceu um sacrilégio. Algo que ninguém tinha o direito de fazer. Cheguei assistir a Cia Pina Bausch, em Paris, atrás de uma pilastra gigantesca, no pior lugar do teatro. Era o que tinha sobrado. Não me arrependo. E como é bom não se arrepender de nada nessa vida.

Um dia comentando com a Bia Lessa sobre esse meu fascínio pela Pina, vi seus olhinhos se iluminarem e com a alegria de uma criança ela me disse: “Somos amigas! Vou dar um jeito de você cozinhar para ela. Vai ser sensacional! Ela vai adorar!” E assim ficou acertado, Pina viria ao Brasil em Setembro e eu iria a São Paulo para preparar um jantar para ela e sua trupe. Uma alegria infantil também tomou conta de mim. Só pensava nisso.

O curioso é que nem assim me interessei em saber como ela era, quais eram os seus gostos, que cara tinha. Não julguei necessário, sei lá, acreditei que o melhor seria manter esse mistério até o fim. Inspiraria-me nos seus movimentos, na sua densidade, sua delicadeza e na sua força para criar o menu. Não precisava conhecer a Pina antes de cozinhar para a Pina.

No meio desse turbilhão de emoção e expectativa, Bia me ligou para propor que eu fosse a Wuppertal, na Alemanha, já que estaria na Europa em junho. Ela ligaria para a Pina e acertaria tudo, eu poderia ver a Cia Pina Bausch em casa! Procurei passagem e tentei encaixar essa aventura deliciosa na minha agenda. Não consegui. Liguei para a Bia e disse: “Não tem problema, ela vem em Setembro e vai ser lindo.” Bia, que nunca desiste de nada, me disse para pelo menos não deixar de ir ao restaurante preferido da Pina em Paris, um pequeno bistrô atrás do Centre George Pompidou, chamado Le Hangar. No meu último dia em Paris fui almoçar lá e respirei Pina por todos os lados. Uma emoção estranha, coisa de quem já se conhece. Senti-me muito mais próxima dela através do ambiente, da comida, do vinho. Sentia-me até confortável em chamá-la de Pina, como só os amigos falavam. Brindamos a ela!

Voltei ao Brasil alguns dias antes da morte de Pina. Não acreditava. Liguei para a Bia, chorei com ela ao telefone. Fiquei perplexa. Apesar de tão distante, tudo agora parecia tão perto. Pela primeira vez vi uma foto de Pina Bausch e ela me pareceu familiar, como se a conhecesse há anos. Uma emoção muito estranha, muito visceral e complexa como alguns de seus espetáculos.

Setembro chegou e no domingo embarquei para São Paulo para ir ao encontro de Pina Bausch. Estava nervosa, emocionada, amedrontada. Tudo parecia tão íntimo, tão difícil e ao mesmo tempo tão natural. Um grupo enorme e amoroso viajou para São Paulo para estar mais próximo dela. Assistiríamos o ensaio geral, seria a primeira vez que a Cia dançaria Cafe Muller sem ela. Estávamos todos muito tocados, envolvidos, imersos naquele sofrimento agora tão nosso também.

Foi lindo. Difícil e perturbador. A angústia estava inegavelmente presente nos olhares, nos gestos e nos movimentos dos bailarinos. Apesar disso a entrega era tão intensa e visceral que tecnicamente tudo estava como deveria estar. Mas não estava. Ela não estava. Lembrei-me imediatamente da minha equipe. Das nossas longas jornadas e da dificuldade que eu tenho em deixar a cozinha por uma só noite. No envolvimento, nos detalhes. No nosso sofrimento. Quando há entrega é impossível não sofrer. Lembrei das pessoas que já trabalharam ao meu lado, algumas com as quais eu me envolvi profundamente e que hoje já não estão mais lá. Lembrei da minha obsessão pela precisão. Da minha loucura concentrada e aturada por aquelas pessoas que dão tudo de si diariamente para expressá-la. Da minha luta pela constância nas execuções, nos movimentos. Tudo aquilo parecia tão próximo agora, tão intimamente familiar era essa luta travada diariamente entre a emoção e a emoção.

No meio desse caminho revolto e coalhado de emoções, veio o prêmio. O que pensar? O que dizer? Onde encaixar esse sentimento agora? Cheguei ao Rio e corri para a minha cozinha. Larguei a mochila na escada e subi só com o prêmio nas mãos. Entrei na cozinha e disse: “Mandaram entregar isso para vocês”. Sempre dividimos. Agora era hora de doar. Afinal, o meu caminho sem eles não teria chegado ao meio. Esse meio intenso e desconcertante, onde perdi e reencontrei Pina… E a partir de onde ainda há tanto para viver, sofrer e caminhar.

Até!

22 de setembro de 2009

Cozinha Feliz…

Arquivado em: Cotidiano — Tags: — Roberta Sudbrack @ 18:07

Estamos muito felizes! Hoje só queremos dizer isso… Para que mais?

Obrigada!

Até!

18 de setembro de 2009

Aulas…

Arquivado em: Cotidiano — Tags:, — Roberta Sudbrack @ 18:01

A gente pode aprender sobre tudo todos os dias, basta estar vivo e atento. Atento, porque se não se der ao trabalho de prestar atenção aos detalhes tem chance de perder muita coisa. Sobretudo de deixar de viver muita coisa. Detalhe é tudo. Na vida e na cozinha.

Observar é a melhor maneira de aprender. Eu aprendi praticamente tudo observando. Fosse no imaginário, quando lia um livro de técnicas e observava a performance do meu subconsciente tentando reproduzir alguma. Às vezes com sucesso, noutras nem tanto. Fosse assistindo filmes, programas de TV e tudo mais o que fizesse a menor referência a cozinha. Assim aprendi a cortar, descascar, me posicionar na cozinha e até alguns trejeitos típicos de cozinheiros que acabei incorporando sei lá por quê.

Observo até hoje. Tudo, nada me escapa, porque num simples lícuri posso encontrar um mundo de possibilidades. Numa ferramenta que a princípio me pareceu assustadora como o Twitter, encontrei tantas! A vida proporciona isso, portanto estar vivo e feliz já é meio caminho andado.

Foi observando também, que descobri a imensa paixão que a Cilene Saorin – grande mestra cervejeira, que ontem esteve no RS harmonizando um jantar inesquecível com cervejas – tem pelo que faz. Ontem aprendi muito sobre cerveja e harmonização, tema que eu adoro, muito provavelmente por causa da minha veia alemã. Mas a verdade é que aprendi muito mais. Aprendi sobre paixão, entrega e felicidade. Achei que sabia muito sobre esse assunto por ser um hábito na minha vida. Mas nunca se sabe nada perto dos que fazem por amor. E essas aulas eu não quero perder jamais…

Até!

16 de setembro de 2009

A emoção do Twitter…

Arquivado em: Cotidiano — Tags:, , — Roberta Sudbrack @ 17:28

Outro dia contei aqui no blog que ainda estava engatinhando no Twitter. Realmente quem cai lá, seja quem já ouviu falar alguma coisa, seja quem não ouviu falar nada, fica zonzo. Olha para cima, olha para o lado, olha para baixo e não vê ninguém. Fala baixinho: “Oi…” Mais alto, quem sabe funcione: “Oiiiieeee!” Não funcionando a gente começa a imaginar que deve se comunicar em inglês, caso contrário ninguém irá nos ouvir: “Hello…” “Anyboody home?” E nada.

Assim a gente fica durante alguns dias, totalmente perdido e sem entender nada. Mas de repente alguma conexão se cria. Pessoas começam a pipocar de lá. De cá. Gente interessante começa a aparecer na sua frente respondendo àquele oi tímido que você disse lá atrás. E coisas começam a acontecer. Encontros, reencontros, troca de ideias, de opinião, acontecimentos interessantes e sobretudo, uma energia boa começa a fluir naquilo que passa a ser o seu lar dentro daquele universo, para os leigos: a sua página. Você diz alguma coisa e em instante aquilo está circulando por zilhões de caminhos, que podem levar a milhões de oportunidades e trilhões de possibilidades.

A comunicação é muito rápida. Tudo tem que ficar claro em 140 caracteres! A princípio a gente acha uma loucura, mas depois entende que não é necessário muito mais do que isso para se fazer entender. E até quem não é muito chegado a altas tecnologias, fornos combinados e termocirculares, consegue estabelecer uma comunicação rápida e precisa, meu caso. Eu só tenho tido boas impressões do Twitter. Mais do que isso, tenho adorado twittar! E como não poderia deixar de ser, tenho me emocionado com essa ferramenta. Bom, isso já era de se esperar de alguém que não suporta viver sem emoções…

Em pouco mais de um mês de twittadas, muita coisa bacana aconteceu. Como não daria para falar de todas elas, vou me ater só aos acontecimentos de hoje. Logo pela manhã recebi uma caixinha do correio, e olha que o pessoal lá do Twitter nem tem todo esse conhecimento a meu respeito para saber o quanto adoro receber caixinhas dos correios.

Rasguei o papel que cobria a caixinha com aquela ansiedade infantil e a encontrei, cuidadosamente embalada em papel de seda branco e barbante. Honestamente não tem nada que me emocione mais do que embrulhos com barbante. Acho tão humano, tão coisa de gente… Lá dentro encontrei um pano de prato – também adoro – que embrulhava com todo o cuidado dois saquinhos de flor de sal de Noirmoutier, um origami e um bilhetinho que explicava o porquê da intromissão. Intromissão? Isso é uma declaração de amor! E declarações de amor não se apresentam, simplesmente ocupam o lugar que é seu!

Como se não bastasse ainda recebi de bandeja o link para essa fábula dos tempos modernos:

E ainda tem gente que cisma em afirmar que esse tipo de ferramenta não tem envolvimento…

Até!

11 de setembro de 2009

Sim Chef! Ou não…

Arquivado em: Cotidiano — Tags:, , — Roberta Sudbrack @ 17:53

Uma das perguntas mais difíceis para mim, na ótima entrevista que saiu na Revista de Domingo do jornal O Globo na semana passada, foi sobre considerar ou não, o ofício de cozinheiro uma arte. Difícil. A rigor não é, por outro lado, é. Complexo, confuso, para se pensar.

Também proponho pensar na maneira como as escolas de gastronomia vendem esse “pacote de sonhos” para os seus alunos. Será que, além de todas as promessas, ainda vem de brinde a possibilidade de se tornar artista?

A verdade é que primeiro, antes de qualquer coisa, há que se tornar cozinheiro. Mas muitas vezes isso não fica bem claro. Para começar, a promessa é tornar-se “Chef”. Ora, mas Chef é um posto, nada mais do que isso. Acima de tudo numa cozinha somos todos cozinheiros. Um Chef sem uma cozinha para chefiar é um cozinheiro. Um Chef com uma cozinha para chefiar é um cozinheiro com mais responsabilidades. Simples. Essa é a primeira decepção, a descoberta de que a equação é assim tão simples. “Então investi tanto dinheiro para me tornar cozinheiro?”. Bem, para mim está valendo, estou feliz da vida.

A segunda decepção é o caminho natural: começar de baixo. Mas seria isso uma regra só na gastronomia? Certamente que não. Começar de baixo faz parte do jogo, da vida, dos sonhos. Mas será que no pacote que foi vendido a esses estudantes havia a promessa de pular essa etapa e, portanto, não vivenciar o sofrimento, tão necessário como ingrediente nessa receita, bem como nas grandes conquistas? Que banais seriam as vitórias sem ele.

Outro dia acordei e fui até a cozinha para tomar o meu café da manhã. Ao me aproximar senti um cheiro que não deixou dúvidas, me remeteu aos tempos difíceis. Era o molho de tomate da minha avó que me transportou direto para as madrugadas em Brasília, quando vendia o meu cachorro quente. O que seria de mim sem essa lembrança ora agradável, ora tão sofrida? Talvez alguém que não dá tanto valor a todas as conquistas, sejam elas as mais simples, como o brilho no olhar de um cliente, até as mais requintadas, como cozinhar para reis, rainhas, presidentes, artistas…

O que seria de mim se nenhuma porta tivesse sido arremessada na minha cara cada vez que bati nelas para pedir um simples estágio? O que seria de mim se tivesse realmente desistido no primeiro obstáculo, que foram tantos e me ensinaram tanto? O que seria da paixão pelo meu ofício se esse ofício não tivesse sido conquistado? Que triste eu seria se ele me tivesse sido oferecido em bandeja de prata. Será que não é esse o motivo pelo qual assisto diariamente diante dos meus olhos, sonhos serem esquartejados por jovens que tem tudo para chegar mais longe?

Talvez seja hora de parar. Talvez seja hora de repensar. Talvez seja hora de aceitar que, no fundo, todos nós temos uma parcela de responsabilidade nessa história.

Até!

10 de setembro de 2009

Tanta, tanta, tanta!

Arquivado em: Cotidiano — Tags: — Roberta Sudbrack @ 20:03

Tanta coisa boa…

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Tanta lição…

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Tanta gente boa…

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Tanta alegria…

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Tanta divisão…

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Tanta homenagem…

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Tanta pauleira…

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Tanta generosidade…

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Arroz de carreteiro do Jarbas…

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Tanta loucura e reencontro…

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Tanta saudade!

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Tanta vontade de começar tudo outra vez!

Até!

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