Arquivo da Categoria ‘Cotidiano’

Sou eu, ou o mundo gastronômico que está confuso?

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

É fato que a cozinha suga, no bom sentido, que fique claro, quase todas as minhas energias. E que fique claro também que faço isso não por esporte, mas por escolha de vida. Mas de fato ando meio fora de forma e para completar, uma queimadura – que não posso dizer seja inesperada, porque nessa profissão estamos sempre esperando por elas – me tirou um pouco mais dessa energia nesses últimos dias. Rompeu a pele e algumas estruturas dentro de mim. Tem horas que a gente brinca tanto, se fantasia tanto todos os dias – tem amigos meus que nunca me viram com outra roupa senão a de cozinheiro! – que acaba cometendo a grande besteira de acreditar que é super herói!

Passado o susto algumas coisas dentro de mim continuam firmes. Outras, bem, tão logo eu chegue a uma conclusão emitirei um parecer em três vias e enviarei a amarela para vocês e a verde para o twitter. Ficarei com a branca como souvenir.

Dentre as que continuam firmes, felizmente estão as minhas convicções. Algumas um tanto quanto ultrapassadas para um mundo gastronômico que ainda se deixa impressionar por espumas, receitas sem estrutura, fumaças alucinógenas e shows de pirotecnia que muitos insistem em acreditar serem necessários para uma experiência completa. Experiência completa? E isso existe? O mundo moderno ainda emite a via amarela que nos autoriza viver isso?

Emitindo ou não, estamos sempre à procura dela. Se vamos encontrá-la é uma coisa, se vamos nos permitir vivê-las é outra bem diferente. Afinal estamos à procura de quê? Temos fome de quê?

Se me perguntarem sempre vou responder que tenho fome de comida como a da Casa da Li (Rua Aspicuelta 23, Vila Madalena, não sei por que não tem telefone, né Li?). Comida feita por gente de verdade, com alma de cozinheiro, amor incondicional pela cozinha e o suor bom da profissão. Comida que dispensa explicação e muito menos apresentação, é olhar, vibrar e não esquecer. Essa é a minha experiência. Essa é a minha busca. Onde quer que haja um lugar como a Casa da Li, seja em São Paulo, no interior de Minas Gerais ou Pantelleria na Sicília, eu vou atrás com a curiosidade e a alegria ingênua de uma criança. È essa curiosidade, essa alegria e essa ingenuidade, que me proporcionam a verdadeira experiência sem precisar do aval da via amarela!

Até!

Casa da Li

Rua Aspicuelta 23, Vila Madalena – São Paulo

Minha alma canta…

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Essa história eu conto e reconto e nunca mudo o final. Gosto de finais verdadeiros. Mais do que os felizes, gosto dos verdadeiros. Quem primeiro me fez essa pergunta numa noite agitada na casinha laranja à beira do canal foi o querido Walter Salles: “Roberta, mas porque o Rio de Janeiro?” Antes disso eu já sofria com algumas colocações que nunca me pareceram razoáveis, mais do que isso, sempre me irritaram e muito: “O seu restaurante é fantástico! Pena que seja no Rio de Janeiro, se fosse em São Paulo!”

Quando deixei a chefia da cozinha do Palácio da Alvorada em Brasília tinha dois destinos a escolher: São Paulo ou Rio de Janeiro. De São Paulo vieram alguns chamados, duas ou três oportunidades muito boas. Do Rio de Janeiro nenhuma. Vou para o Rio de Janeiro! Gosto de desafios! Gosto de romper barreiras. Gosto muito de acreditar no que ninguém acredita. Já faz algum tempo que o discurso mudou para: “O seu restaurante é fantástico! Quando é que você vai abrir um em São Paulo?”

Alfaiataria não se replica. Alfaiataria se vive diariamente. Para fazer alfaiataria há que se acreditar no sonho! Tenho ouvido falar que muitos restaurantes de São Paulo estão pensando em abrir filiais no Rio de Janeiro muito provavelmente por conta da quantidade de atividades que a cidade sediará num futuro próximo. Eu fui uma das grandes entusiastas da chegada do grupo Fasano no Rio de Janeiro. Primeiro porque a cidade merecia uma marca de excelência como a deles. Mas acima de tudo porque o grupo decidiu vir para o Rio quando poucos olhavam para ele com o olhar da credibilidade. O grupo Fasano acreditou no Rio. Amou o Rio como ele merece. Outros grupos vieram depois nessa mesma sintonia e agregaram o seu valor a essa cidade singular, entre eles o pessoal da Pizzaria Braz, fantásticos e profissionais.

Assim como alfaiataria não se replica, amor não se inventa. Que venham grandes e competentes marcas. Que venham cozinheiros apaixonados pelo seu ofício. Que venham amantes a moda antiga, pois o Rio é daqueles que ainda manda flores!

Até!

Minha loja de brinquedos

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Talvez uma das coisas mais lindas que já ouvi em relação ao RS foi algo como: “me senti como uma criança numa loja de brinquedos”. Chegou para mim outro dia num email adorável. A gente procura por isso todos os dias. E sabe todos os dias que não vai encontrar. O encantamento depende do grau de entrega. E o grau de entrega depende de tantas coisas…

Ontem também vivi um momento mágico, daqueles que a gente só vive em lojas de brinquedos. Depois de uma noite muito difícil fui até o salão cumprimentar uma aluna querida. Estava arrasada com a noite, com as dificuldades que tivemos na cozinha e as angústias que dividimos por horas e horas. Ganhei um sorriso, um abraço, panelinhas que de tão lindas poderiam ser de brinquedo e uma mais bonita demonstração de entrega que já vi num olhar.

De todos os detalhes envolvidos na preparação de um jantar, a entrega do cozinheiro é o mais importante. Entro na cozinha e sei quem está dentro do prato e quem não está. Remanejo posições, procuro a melhor energia para cada ingrediente. Cozinha é técnica e emoção na mesma proporção, mas dosar as duas na mais perfeita harmonia é tarefa de maluco!

Cozinheiros são malucos por natureza e essa é uma grande vantagem. Para enfrentar um dia a dia como o nosso há que se ter uma boa dose de loucura estocada. Seja para sair das piores situações, seja para reinventar uma história. A minha eu reinvento todos os dias com a alegria de uma criança que tem a chance de viver dentro de uma loja de brinquedos!

Até!

Até onde…

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Cheguei de uma viagem linda. Sardenha, Sicília, Veneza, Paris… Sabores, cores – até a minha mudou! – aromas e vivencias sem fim. Ainda estava, até ontem à noite, colocando os pés no chão. Voltando a estabelecer um contato firme com o solo. Coisa de extrema importância. Sair dele é fácil, não voltar perigoso. As coisas na cozinha foram se encaixando, ajustes, tempos de cocção, texturas e o mais delicado dos pontos: voltar a trabalhar com a Chef sempre de olho em tudo! Em pouco tempo estávamos nos divertindo de novo. Nunca canso de dizer que por mais sacrificante que seja o dia a dia na cozinha, a diversão é fundamental.

A casa começou a encher e as mesas chegaram praticamente ao mesmo tempo, isso normalmente tumultua. E eu estava com uma saudade louca desse tumulto! Passado o stress do inicio todas as mesas entraram na cadência. O serviço transcorreu tranqüilo, as execuções estavam limpas, frescas, vivas, como eu gosto. O garçom entrou na cozinha e me disse que uma mesa gostaria muito de falar comigo, que me conhecia e queria muito me cumprimentar. Assim que pude desci e fui direto até essa mesa onde avistei dois clientes queridos. Cumprimentei-os carinhosamente, deixando claro para eles e para as mesas ao lado – coisa que não se deve fazer! – o quanto estava feliz em revê-los. E estava mesmo.

Não havia passado ainda a emoção do reencontro dentro de mim quando ele determinado começou a falar. Começou num tom e foi até o final nele. E posso afirmar que esse tom destoava absurdamente do meu. As outras três pessoas da mesa não me encaravam, mas aparentemente vivenciaram o prazer da reclamação. Eu perplexa, ainda naquele outro tom carinhoso do reencontro escutava e observava cada um deles.

A história é mais ou menos a seguinte. São clientes da casa, fizeram uma reserva com certa antecedência e solicitaram sentar no andar de cima. Provavelmente nesse dia houve uma falha no atendimento telefônico que não deixou claro, como sempre fazemos que não há como garantir qual ou onde será a sua mesa. Tudo vai depender da disposição das reservas. De saber se os dois andares estarão funcionando naquele dia. Enfim, engrenagens que fazem parte do show, mas que nem sempre interessam à platéia. Para complicar o Maitre tentando dar uma desculpa disse que o andar de cima estava em manutenção. Um erro, uma bobagem, uma falha. Numa certa hora da noite a casa começou a encher e tivemos que abrir a andar de cima. Estava formado o banzé.

Depois de tudo o que ele teve vontade de me dizer – e eu escutei – ele me disse que a comida estava fantástica como sempre, que nesse aspecto não havia nada para reclamar, muito pelo contrário. E que poderia ter ido aos jornais ou vir até aqui ao blog reclamar, mas que no fundo só queria me alertar. Eu não saberia descrever a cara que fiquei, nem o que eu disse, além do pedido de desculpas depois de tudo isso. Saí com a cabeça rodando da mesa dele, fui até as outras mesas e depois fui conversar com o meu pessoal para tentar entender o que teria acontecido.

Acabei de voltar de viagem, fui a tantos restaurantes. Gostei mais de uns, menos de outros. Voltei a restaurantes que eu freqüento há mais de dez anos e não me sentei naquela mesinha que eu tanto sonho sentar um dia. Assisti a pessoas tentando mudar de mesas que por motivos óbvios não conseguiram. Talvez para alguém que não viva os bastidores do show seja mais difícil compreender o que pode causar uma simples mudança numa noite de casa cheia. Comi coisas que eu gostei mais e coisas que eu gostei menos. Mas uma coisa é certa, vivi todos os restaurantes que visitei.

Fico me perguntando se essa mesa viveu o meu restaurante ontem? Se se permitiram viajar pelos sabores do cural, da banana, do caviar, do ossobuco, das frutinhas vermelhas quase colhidas à mão? Fico me perguntando se o momento do brinde com aquele grande vinho foi prazeroso? Se a sensação de rasgar o pão quentinho, que havia saído do forno à poucos instantes, passar manteiga e assisti-la derreter foi tão intensa como poderia ser.

Imagino que não. Imagino que o brilho da comida e de todo o carinho depositado tanto nela, quanto no meu boa noite efusivo, tenha sido ofuscado por um detalhe prático. E que o encanto de tudo tenha realmente se perdido. O meu se perdeu quando eu voltei para a cozinha para contar para os meus cozinheiros a espinafrada que levei no salão e tentar fazê-los entender como um detalhe prático pode ofuscar o brilho de tudo o que fizeram naquela noite. Até onde podemos ir na ânsia de fazer valer o definimos ser o certo e o errado?

Até?

Chorar de alegria

terça-feira, 1 de junho de 2010

Tem coisa mais gostosa do que chorar de alegria? Chorei tantas vezes que perdi as contas. Chorei de alegria depois da minha apresentação no Fórum gastronômico da Espanha. O epicentro da cozinha molecular e lá estava eu. Eu, meus quiabos, minha grelha de ferro fundido e minha paixão. Tudo nessa história tinha grandes chances de dar errado, mas de repente fomos surpreendidos – eu, meus quiabos e minha grelha – por uma platéia que fez questão de se levantar e aplaudir apaixonadamente aquela loucura.

Chorei de alegria quando os equipamentos da minha cozinha chegaram. Chorei de alegria a primeira vez que cozinhei para a Fernanda Montenegro. Chorei de alegria – horas! – quando o Presidente da Itália além de me aplaudir de pé, comparou um dos meus jantares no Palácio da Alvorada a um banquete renascentista. Chorei de alegria quando consegui ministrar uma aula em francês para um auditório repleto de franceses em Cannes! Chorei de alegria quando visitei a casa de Pablo Neruda em Santiago do Chile. Chorei de alegria quando vi o meu primeiro pôr do sol na Grécia. Chorei de alegria outro dia, quando comi pela vigésima vez a carne assada da Dona Laura, na Pousada Alcobaça em Itaipava. Chorei de alegria quando assisti a esse vídeo: http://eaturl.info/jng7 Mais do que isso, chorei de saudades. Saudades do meu amigo Rogério do La Palma em Brasília. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

Choro a toa. Sou do tipo: “ando tão a flor da pele que até beijo de novela me faz chorar.” Choro muito facilmente de emoção, mas de alegria, só quando os cinco sentidos são atingidos…

Até!

Eu nunca quis ter um restaurante…

sexta-feira, 30 de abril de 2010

A princípio o título de hoje pode chocar quem não estiver disposto a ler o resto do texto. Na vida também é assim, muitas vezes a primeira impressão é péssima e quando não há interesse mútuo na chamada segunda chance pode-se perder muito. Ou não. Depende de cada um. Depende do que cada um quer!

Eu realmente nunca quis ter um restaurante, eu sempre quis ter uma casa. Casa é o lugar pra onde a gente sempre quer ir. É lá que a gente pode usar camiseta velha e furada. Eu sempre me pergunto cada vez que visto uma: será tem algo melhor na vida? Em casa a comidinha está sempre em cima do fogão. É verdade que na minha época de escola, a minha avó, cuidadosa que só, deixava o meu prato todo arrumadinho dentro do forno morno. Certamente hoje em dia diriam os moderninhos se tratar de uma espécie de câmara de ar quente! Mas era só afeto.

Casa é afeto. Casa é conforto, mas conforto lá tem a ver com excesso? Conforto tem a ver com bem estar. Bem estar tem a ver com cuidado. E cuidado tem a ver com afeto. Logo, tudo começa e termina no afeto.

Afeto desde a escolha dos ingredientes que serão servidos. Até a  definição da forma de servi-los. Nesse caso o afeto é extensivo aos próprios ingredientes, já que o respeito, pelo menos o verdadeiro, normalmente também é recheado de afeto. O afeto nas relações, no comprometimento da causa que cada um carrega com orgulho estampado no peito. O afeto do servir. Esse eu considero o mais importante de todos. Sempre digo para o meu pessoal: “Somos serviçais, entrar pela porta dos fundos e usar o banheiro da área de serviço tem que ser uma coisa natural para nós. Caso contrário, não conseguiremos servir com afeto.”

Outro dia escutei de alguns entendidos no assunto a seguinte definição sobre o que vem a ser um botequim: “Botequim é aquele lugar aonde as pessoas vão pra se sentir em casa.  É aquele lugar aonde o dono conhece as pessoas pelo nome e sabe do que elas gostam ou não gostam. Botequim é aquele lugar aonde o dono chega cedo e sai tarde, está sempre lá, sabe onde está sujo e precisa limpar e conhece as pessoas que trabalham com ele pela respiração.” Aí eu pensei: “Eu tenho um botequim!” Que bom, já que eu nunca quis ter um restaurante!

Até!

O que comem os cozinheiros?

sexta-feira, 26 de março de 2010

Todo mundo deve ter uma tese para esse assunto. Vira e mexe alguém me sai com essa: “mas como é que você consegue manter a forma com essas comidinhas todas?” Tirando o fato de que eu não ando tão em forma assim, a resposta é simples: não como! Não como certo, na hora certa, no tempo certo, da maneira correta. Como sempre correndo, como errado, e sempre apressada. Mas, como diria a Ingrid Guimarães: “Isso é glamour?” Pois é, não é. E que bom que não seja!

O glamour que de certa forma alimenta o imaginário de muita gente quando o assunto é cozinha, pode ser extremamente perigoso se não for usado com moderação. Como o sal e a pimenta! Se for dirigir não beba, se decidir ser cozinheiro não se iluda. O lado bonito desse conto de fadas não está nas páginas das revistas, nas quais saímos sempre sorrindo e constantemente de braços cruzados! Está dentro de nós, no nosso dia a dia. Nas altas temperaturas, as dores nas pernas, na coluna, na cabeça, no dedinho do pé! Está nas assaduras! Que hipocrisia seria dizer que só bebês se assam, cozinheiros também. E como! Facilmente explicável na teoria e na prática. Mas poucos vão admitir.

Está nos momentos de concentração máxima, superação e cooperação entre a brigada. Nas gargalhadas madrugada à dentro ou nas lágrimas. Na adrenalina que corre por nossas veias na hora do serviço, no espírito de equipe, no amor que vai no prato. Na angústia de poder ter feito melhor. Na vontade eterna de se superar. No respeito absoluto pelo produto que chega às suas mãos diariamente. Na devoção ao nosso ofício. Se isso tudo não lhe parece um conto de fadas, experimente prestar bastante atenção no papel que embrulha o peixe amanhã. Nossa cara sorridente e de braços cruzados pode estar lambuzada de maresia!

E depois de limpar o rosto e retirar o cheiro da maresia, o que comemos? Do que gostamos? Com que sonhamos? Outra coisa que eu não canso de ouvir é alguém dizer que não teria coragem de cozinhar para mim. Mas alguém tem realmente ideia dos sonhos que rondam o apetite de um cozinheiro num dia de folga? Na minha última comi arroz com feijão, lombinho de panela, farofa de ovo, doce de leite com queijo e fui feliz. Hoje comi carré de cordeiro na brasa com aromático de cogumelos crus em pé na cozinha. E também fui feliz. Agora pouco conversando com um amigo no Twitter(www.twitter.com/RobertaSudbrack) me lembrei do ossobuco de vitelo, do jambon du pays e do arroz de leite do L´amis Jean, restaurante que eu adoro em Paris e que certamente me faria muito feliz. Mas minha avó Iracema bate na porta do escritório nesse momento e me pergunta: “Vai querer um cafezinho?” E com pão ou sem pão, eu já sou feliz!

Até!

A criação é anárquica!

terça-feira, 16 de março de 2010

Uma pergunta que adoram me fazer – e que eu confesso, detesto responder – é sobre como é o meu processo criativo? Ora, que tipo de pergunta é essa? Quem é que acorda, escova os dentes, se espreguiça, toma café da manhã e cria? Nessa ordem e nessa sequência? Ou que seja na ordem contrária? Na sequência inversa? Quem é que é capaz de definir: hoje eu vou criar, amanhã também, mas depois de amanhã não! Quem tem controle sobre esse monstro adorável chamado criação que levante o dedo agora!

Eu não tenho e digo mais, acredito que metade da graça se perderia se tivesse. Criação não vem com hora marcada, vem sempre na hora errada. Aí está a sua grande graça, faz parte do seu charme. É sempre naquele momento que a gente não está esperando, não está perto das panelas ou não tem os ingredientes à mão. Ou não, às vezes vem exatamente na hora em que colocamos as mãos neles mas não temos tempo de lhes dar a atenção necessária. Exatamente aí está a grande loucura e o grande barato da criação. A criação é anárquica graças a Deus!

Ela pode estar nos detalhes ou na falta deles. Pode estar na inspiração ou na falta dela. A criação é soberana de nada depende a não ser de uma coisa: o momento. O momento em que tudo se clareia, a energia flui e a emoção fala mais alto. Esse momento é único, é lúcido e absolutamente pessoal. Como escova de dente. Alguém sai por aí perguntando como é a sua escova de dente?

Até!

Polêmica, eu?

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Dizem as boas e más línguas por aí que sou uma chef polêmica. Nunca havia pensado no assunto sob esse prisma, mas não sei se concordo. O fato de dizer tudo o que eu penso sem medo de ser feliz não quer dizer que diga para criar polêmica. Digo por que adoro a verdade e a clareza. Na vida, na cozinha e no imaginário coletivo. Veja por exemplo a questão do azeite de trufas. Falei porque deu vontade, senti o cheiro, enjoei e falei. Pronto, gerou uma polêmica incrível. Pautou reportagens, entrevistas, coletivas de imprensa. Soube até que tem uma comitiva italiana de produtores de azeite de trufas vindo da Itália especialmente para me conhecer. Pena que não está na época das trufas em Alba, senão pediria para que trouxessem uma fresca para mim na mala!

A questão sobre o azeite de trufas é simples: usa quem quer! Eu não quero mais. Já usei e me arrependo. Quantos pargos fresquíssimos já assassinei na vida, não pelo fato de tê-los colocado na panela, porque nesse caso sempre tomei muito cuidado com o ponto de cada um. Mas pela infelicidade de ter jogado esse líquido insosso na cara deles! Quantos consommés levíssimos já transformei em pedras vulcânicas? Quantos raviólis de massa tenra e recheio cremoso, já não sentenciei à pena de morte, ao regar cheia de pompa e circunstância o pobre coitado com esse azeite adulterado?

Para mim não funciona. Eu procuro o sabor real das coisas, essa, como todo mundo sabe é uma das minhas maiores obsessões. É a minha busca e a minha alegria. Me sinto traindo uma causa quando abuso do meu direito de ir e vir e agrego um elemento a mais onde não deveria. E isso é muito fácil. Lembro-me muito bem que precisei de alguns anos de prática para conseguir preparar um jantar que prestasse na França. Sempre me excedia. Enlouquecia na feira, queria levar tudo, usar tudo, experimentar tudo. Resultado? Nunca acertava a medida.

Acertar a medida não é fácil, principalmente num mundo conectado vinte e quatro horas online. Ceder a tentações como as do “aroma” de trufas fica relativamente fácil digamos assim. Compreensível até, para não pegar muito pesado. Agora incompreensível mesmo é saber o que vem a ser “aroma”de trufas? Meu São Lourenzo me ajuda? Difícil mesmo, de verdade, é manter-se fiel ao que se acredita. Acho que não tem tarefa mais complicada do que essa hoje em dia, sabe por quê? Porque dói, machuca e faz dodói. Difícil é ter coragem de, como diz a Ale Forbes, escancarar o coração e a cozinha diariamente para quem quiser ouvir. Isso pode ser enquadrado na categoria polêmica? Se puder eu não terei alternativa senão topar. Mas se puder optar eu prefiro assim: em vez de chef, cozinheira, por favor. E ao invés de polêmica, verdadeira, por gentileza!

Até!

Tanta água ainda vai rolar…

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Tenho visto muita coisa nesses meus anos de profissão. Da experiência no Palácio da Alvorada, trago lembranças preciosas da necessidade da hierarquia e da disciplina na cozinha. Insisto em dizer que, apesar dos banquetes inesquecíveis que preparei por lá, aprendi mais do que ensinei. Trabalhei com soldados, pessoas que nunca tinham tido contato com uma cozinha que não fosse à da caserna.

Reaprenderam do zero, começaram do nada. Do arroz com feijão ao molho da carne, nada ficou no lugar. Sofreram em certos momentos. Muitos momentos, não entenderam nada em tantos outros. Foram ao limite, sobreviveram, lutaram e venceram. Vivemos momentos memoráveis e emocionantes. O mais marcante para mim foi assistir a um dos meus cozinheiros mais rabugentos se emocionar a ponto de não conter as lágrimas ao perceber que havia acertado o ponto do demi-glace.

Nosso dia a dia não é fácil, são horas e horas de trabalho duro e minucioso por algumas horas do seu prazer. Algo como o carnaval. A diferença é que o nosso carnaval é diário, não cessa, não para, não interrompe a transmissão. Dos tempos de cozinha no Palácio da Alvorada para cá também aprendi demais. Isso não quer dizer que certas vezes levada pela minha exigência insaciável, eu não exagere. Exagero em muitos momentos. E, como os meus cozinheiros soldados, que muitas vezes não entendiam a necessidade de preparar um molho durante 36 horas, também não entendo certas coisas.

Não entendo a falta de garra, de perseverança, de alegria. Não entendo como jovens que por algum motivo decidiram enfrentar essa batalha, se deixam abater por tão pouco. Entregam-se tão fácil. Assisto a tudo isso perplexa e triste. Uma tristeza imensa toma conta de mim. Um sentimento que em nada tem a ver com aquele de dever cumprido que deixei na porta do Palácio da Alvorada no meu último dia de trabalho. Nessas horas eu me pergunto: “Será que a culpa também não é nossa? Será que podemos nos eximir dessa culpa e dormir sossegados toda noite?” Que tipo de profissionais estamos vendo nascer? E o que fazer para despertar em cada um esse espírito de luta que não cessa com o apagar das luzes da cozinha? Tanta água ainda vai rolar, talvez dependa de nós boa parte do esforço para que seja cristalina e bebível!

Até!