Todo mundo deve ter uma tese para esse assunto. Vira e mexe alguém me sai com essa: “mas como é que você consegue manter a forma com essas comidinhas todas?” Tirando o fato de que eu não ando tão em forma assim, a resposta é simples: não como! Não como certo, na hora certa, no tempo certo, da maneira correta. Como sempre correndo, como errado, e sempre apressada. Mas, como diria a Ingrid Guimarães: “Isso é glamour?” Pois é, não é. E que bom que não seja!
O glamour que de certa forma alimenta o imaginário de muita gente quando o assunto é cozinha, pode ser extremamente perigoso se não for usado com moderação. Como o sal e a pimenta! Se for dirigir não beba, se decidir ser cozinheiro não se iluda. O lado bonito desse conto de fadas não está nas páginas das revistas, nas quais saímos sempre sorrindo e constantemente de braços cruzados! Está dentro de nós, no nosso dia a dia. Nas altas temperaturas, as dores nas pernas, na coluna, na cabeça, no dedinho do pé! Está nas assaduras! Que hipocrisia seria dizer que só bebês se assam, cozinheiros também. E como! Facilmente explicável na teoria e na prática. Mas poucos vão admitir.
Está nos momentos de concentração máxima, superação e cooperação entre a brigada. Nas gargalhadas madrugada à dentro ou nas lágrimas. Na adrenalina que corre por nossas veias na hora do serviço, no espírito de equipe, no amor que vai no prato. Na angústia de poder ter feito melhor. Na vontade eterna de se superar. No respeito absoluto pelo produto que chega às suas mãos diariamente. Na devoção ao nosso ofício. Se isso tudo não lhe parece um conto de fadas, experimente prestar bastante atenção no papel que embrulha o peixe amanhã. Nossa cara sorridente e de braços cruzados pode estar lambuzada de maresia!
E depois de limpar o rosto e retirar o cheiro da maresia, o que comemos? Do que gostamos? Com que sonhamos? Outra coisa que eu não canso de ouvir é alguém dizer que não teria coragem de cozinhar para mim. Mas alguém tem realmente ideia dos sonhos que rondam o apetite de um cozinheiro num dia de folga? Na minha última comi arroz com feijão, lombinho de panela, farofa de ovo, doce de leite com queijo e fui feliz. Hoje comi carré de cordeiro na brasa com aromático de cogumelos crus em pé na cozinha. E também fui feliz. Agora pouco conversando com um amigo no Twitter(www.twitter.com/RobertaSudbrack) me lembrei do ossobuco de vitelo, do jambon du pays e do arroz de leite do L´amis Jean, restaurante que eu adoro em Paris e que certamente me faria muito feliz. Mas minha avó Iracema bate na porta do escritório nesse momento e me pergunta: “Vai querer um cafezinho?” E com pão ou sem pão, eu já sou feliz!
Até!