Arquivo de março de 2010

O que comem os cozinheiros?

sexta-feira, 26 de março de 2010

Todo mundo deve ter uma tese para esse assunto. Vira e mexe alguém me sai com essa: “mas como é que você consegue manter a forma com essas comidinhas todas?” Tirando o fato de que eu não ando tão em forma assim, a resposta é simples: não como! Não como certo, na hora certa, no tempo certo, da maneira correta. Como sempre correndo, como errado, e sempre apressada. Mas, como diria a Ingrid Guimarães: “Isso é glamour?” Pois é, não é. E que bom que não seja!

O glamour que de certa forma alimenta o imaginário de muita gente quando o assunto é cozinha, pode ser extremamente perigoso se não for usado com moderação. Como o sal e a pimenta! Se for dirigir não beba, se decidir ser cozinheiro não se iluda. O lado bonito desse conto de fadas não está nas páginas das revistas, nas quais saímos sempre sorrindo e constantemente de braços cruzados! Está dentro de nós, no nosso dia a dia. Nas altas temperaturas, as dores nas pernas, na coluna, na cabeça, no dedinho do pé! Está nas assaduras! Que hipocrisia seria dizer que só bebês se assam, cozinheiros também. E como! Facilmente explicável na teoria e na prática. Mas poucos vão admitir.

Está nos momentos de concentração máxima, superação e cooperação entre a brigada. Nas gargalhadas madrugada à dentro ou nas lágrimas. Na adrenalina que corre por nossas veias na hora do serviço, no espírito de equipe, no amor que vai no prato. Na angústia de poder ter feito melhor. Na vontade eterna de se superar. No respeito absoluto pelo produto que chega às suas mãos diariamente. Na devoção ao nosso ofício. Se isso tudo não lhe parece um conto de fadas, experimente prestar bastante atenção no papel que embrulha o peixe amanhã. Nossa cara sorridente e de braços cruzados pode estar lambuzada de maresia!

E depois de limpar o rosto e retirar o cheiro da maresia, o que comemos? Do que gostamos? Com que sonhamos? Outra coisa que eu não canso de ouvir é alguém dizer que não teria coragem de cozinhar para mim. Mas alguém tem realmente ideia dos sonhos que rondam o apetite de um cozinheiro num dia de folga? Na minha última comi arroz com feijão, lombinho de panela, farofa de ovo, doce de leite com queijo e fui feliz. Hoje comi carré de cordeiro na brasa com aromático de cogumelos crus em pé na cozinha. E também fui feliz. Agora pouco conversando com um amigo no Twitter(www.twitter.com/RobertaSudbrack) me lembrei do ossobuco de vitelo, do jambon du pays e do arroz de leite do L´amis Jean, restaurante que eu adoro em Paris e que certamente me faria muito feliz. Mas minha avó Iracema bate na porta do escritório nesse momento e me pergunta: “Vai querer um cafezinho?” E com pão ou sem pão, eu já sou feliz!

Até!

A criação é anárquica!

terça-feira, 16 de março de 2010

Uma pergunta que adoram me fazer – e que eu confesso, detesto responder – é sobre como é o meu processo criativo? Ora, que tipo de pergunta é essa? Quem é que acorda, escova os dentes, se espreguiça, toma café da manhã e cria? Nessa ordem e nessa sequência? Ou que seja na ordem contrária? Na sequência inversa? Quem é que é capaz de definir: hoje eu vou criar, amanhã também, mas depois de amanhã não! Quem tem controle sobre esse monstro adorável chamado criação que levante o dedo agora!

Eu não tenho e digo mais, acredito que metade da graça se perderia se tivesse. Criação não vem com hora marcada, vem sempre na hora errada. Aí está a sua grande graça, faz parte do seu charme. É sempre naquele momento que a gente não está esperando, não está perto das panelas ou não tem os ingredientes à mão. Ou não, às vezes vem exatamente na hora em que colocamos as mãos neles mas não temos tempo de lhes dar a atenção necessária. Exatamente aí está a grande loucura e o grande barato da criação. A criação é anárquica graças a Deus!

Ela pode estar nos detalhes ou na falta deles. Pode estar na inspiração ou na falta dela. A criação é soberana de nada depende a não ser de uma coisa: o momento. O momento em que tudo se clareia, a energia flui e a emoção fala mais alto. Esse momento é único, é lúcido e absolutamente pessoal. Como escova de dente. Alguém sai por aí perguntando como é a sua escova de dente?

Até!

Cabeça não foi feita só para usar chapéu de cozinheiro…

terça-feira, 9 de março de 2010

Eu sempre duvidei dessa história de cozinha sem fogo. Não foram poucas as vezes e nem são poucos os posts onde falo incansavelmente sobre isso. Não suporto ver fotos daquelas cozinhas moderninhas onde só se avistam bancadas, pipetas, blenders e máquinas assustadoras. Quando muito uma chapa por indução no canto esquerdo da cozinha aonde ninguém vai!

Bem, pois não é que outro dia recebi um telefonema de alguém me convidando para participar de uma matéria sobre sustentabilidade, tema que muito me interessa, e o grande desafio era justamente cozinhar sem fogo, eletricidade ou carvão? Sem eletricidade eu sou craque, porque já perdi as contas das vezes que faltou luz no Rio de Janeiro e tivemos que remar no escuro. Mas sem fogo?

Topei na hora porque desafio é comigo mesmo. E, como diz o caipira, “garrei a pensar!” Fiz brainstorming com a minha equipe para saber o que cada um achava dessa ideia. Ouvi coisas interessantes e desesperadas: “Mas não pode usar nem um foguinho?” Sonhei com o assunto, vasculhei a minha mente e a revirei de cabeça para baixo. Pensávamos nas receitas e vira e mexe nos deparávamos com algum empecilho, isso tem que usar geladeira, aquilo passa primeiro pelo charbroiller e coisas desse tipo. Conseguimos chegar a um resultado interessante, entre eles até um prato novo que vínhamos trabalhando com a banana ouro, o que foi sensacional. Fez pensar, refletir, ousar. Isso é importantíssimo na gastronomia, caso contrário, fica muito fácil achar que alguma coisa está perfeita. Ora, felizes são os italianos que nunca acham que nada está perfeito se estiver a dez passos da casa da “mama” ou da “nona”!

A perfeição não existe e nem pode existir. Ela acabaria com a gastronomia. Seria o fim chegar à conclusão de que alguma coisa é perfeita e nada diferente daquilo pode ser bom. A vida na cozinha seria sem graça, sem alegria e o pior, sem perspectiva. O que nos move diariamente é a vontade de fazer melhor. As críticas nos abalam, nos aborrecem e entristecem sim, hipócrita de quem diz o contrário, mas elas também têm um papel fundamental no nosso trabalho: o de nos sacudir! Pensar no tema sustentabilidade tem que ser algo que nos incomode, nos faça perder o sono, nos obrigue a pensar melhor em tudo o que estamos fazendo. Em tudo o que pensamos que estamos construindo. A natureza tem mandado recados, que, como todos nós sabemos, não têm sido lá muito simpáticos.

Até!