As pessoas que me conhecem sabem que eu prezo a verdade acima de qualquer coisa. Uma das frases que mais adoro na vida é da Clarice Lispector: “Eu não quero uma verdade inventada”. Não me interessam as verdades inventadas. Gosto das originais, as nuas e cruas. Mesmo que essa verdade esteja contra mim!
Antes que o sensacionalismo fale mais alto, já que esse país infelizmente tem vocação para isso, e principalmente porque prezo a clareza, seja a dos caldos, dos fatos ou das mensagens, não poderia deixar de me manifestar. Recebi no sábado pela manhã um e-mail extremamente desagradável. Sábado é um dia importante na minha vida, acordo mais tarde, porque normalmente a sexta-feira é dura. Invariavelmente acordo exausta, mas feliz.
Sábado é dia de coisas lúdicas que embalam a vida e ajudam a gente a ir levando. Sábado é dia de tomar café da manhã com o Frederico na padaria Rio Lisboa. Seu Zé só me arranja mesa se eu estiver com ele. Dia de ir ao supermercado com a família. Dia de bater perna pelo Leblon. Dia de relaxar, pelo menos até a hora do jantar, quando, então, tudo começa de novo para minha alegria. Por isso mesmo ser surpreendida por um e-mail desses num sábado não é lá das coisas mais agradáveis.
O e-mail, que, aliás tinha sido disparado para meio mundo – desprezo esse tipo de corrente seja lá para o que for. Nem as do bem no fundo são bem do bem… – trazia uma mensagem para lá de violenta e no anexo, fotos e mais fotos de uma cena lamentável. Talvez se eu fosse outro tipo de pessoa, teria deixado a coisa esfriar, quem sabe cair no esquecimento como alguns me sugeriram. Mais do que isso, porque chamar a atenção a ponto de me expor no meu próprio blog?
Porque erramos. Erramos feio. E como eu sempre digo, um líder tem o dever de entrar na frente numa hora dessas. Quando for para receber palmas, a gente pode até entrar atrás, é mais gostoso, dá para observar no semblante de cada membro da equipe o orgulho. Mas numa hora dessas não tem escolha, somos nós que entramos na frente. Sempre digo isso para a minha equipe: “Se tudo der certo fomos nós. Se tudo der errado fui eu”.
As fotos mostravam alguns itens do lixo do RS jogados de forma irresponsável na calçada em frente ao canal que tanto amamos. O canal que sonhamos um dia despoluir. O canal que dá nome à nossa casa: casinha laranja à beira do canal. A cena me fez chorar. Mais do que isso, acabou com o meu final de semana. Fiquei triste e furiosa também. Chamei a atenção de todos, pedi explicações e cheguei a uma só conclusão: havia falhado.
Cheguei à conclusão de que falho diariamente. Descobri que apesar de imaginar que posso, simplesmente não posso, dar conta de tudo. Isso me exime da culpa? Claro que não. Apenas me alerta para o fato de que apesar do poder que o meu jaleco supostamente me dá – quando estou vestida com ele me sinto mais eu, mais segura, mas completa – não sou um super herói! Sou só mais um ser humano. E devo admitir que mesmo no meio desse turbilhão de emoções ruins, essa foi muito boa.
Imediatamente após receber o e-mail respondi para a pessoa que havia me repassado. Respondi de alma aberta. Não pensei nas palavras ou em como poderiam ser interpretadas. Respondi com a emoção que estava latejando em mim e a vergonha também. Não pude responder para a pessoa que havia disparado os e-mails para meio mundo, pois ela não me deu esse direito. Normalmente essas ações são veladas e como muito bem colocou um amigo: “Os vizinhos são anônimos, não tem o que perder com a imagem.” Já o meu nome curiosamente aparecia sempre escrito em caixa alta e sublinhado em todas as mensagens repassadas exaustivamente.
Aprendi com as freiras do colégio onde estudei que o nome da gente não é osso para andar na boca de cachorro. E levo isso comigo para a vida. Erramos, erramos sim. Não cabe aqui dizer que o funcionário que provocou tudo isso era novo, cabe dizer que foi mal orientado. Então mais uma vez: erramos. Não cabe dizer que todo o lixo que aparecia na foto não era nosso. Havia uma parte que era. Então mais uma vez: erramos. Mas acho que vale dizer aqui, exatamente o que disse para a pessoa que disparou essa corrente, quando finalmente consegui obter o seu e-mail: “Não teria sido melhor bater na porta da minha casa e entrado para tomar um cafezinho?” Certamente a minha reação e as minhas ações seriam as mesmas. Mas quem sabe não teríamos nos tornado amigas e pensado juntas numa maneira de despoluir o “nosso” canal?
Até!