5 de agosto de 2009

Peixe fresco…

Filed under: Cotidiano — Roberta Sudbrack @ 18:51

Todo mundo já sabe que eu mudo o “menu” do RS diariamente por respeito à natureza. Sobretudo ao mar e ao que ele me reserva diariamente. Não costumo ligar para o meu pescador e ordenar: “Quero pargo! Quero atum!” Muito pelo contrário, quem me navega é ele, o mar. Ligo e pergunto: “O que o mar nos presenteou hoje?” E com isso me movo. Sonho. Crio e construo.

É uma logística complicada devo admitir. Todos os dias um movimento diferente, um passo novo, uma nova dança. Todos os dias um grande desafio, o de se fazer merecedor dos presentes que recebemos dessa natureza. Rodrigo Oliveira, o craque lá do Mocotó http://www.mocoto.com.br outro dia me emocionou com suas palavras. Aliás, não só com as suas palavras, mas com a sua cozinha e sua alma também. Adoro esse garoto.

Pois bem, estávamos lá nos deliciando com o ambiente, a aura, os aromas e os sabores do seu restaurante e falando de farinhas… É incrível falar de farinhas! Contei para ele que eu era alucinada por uma farinha granulada lá de Goiás, uma das mais deliciosas que conheço. De repente ele chega com um saco enorme de farinha, olhos brilhando e me diz emocionado: “É essa, não é? Agora, a gente olha para ela e pensa: será que eu sou digno dela?” Adoro esse garoto.

É isso que eu penso todos os dias. Será que eu sou digna de tanta preciosidade que a natureza diariamente me presenteia? Esse também é um dos motivos pelo qual eu enlouqueço os meus fornecedores. No quesito peixe não adianta querer me empurrar o que a natureza cuspiu dias atrás. Sim, porque dias atrás não é mais presente, já é refugo. No RS não entra. Hoje eles já sabem. No inicio ainda argumentavam: “Mas Chef…” Hoje não correm o risco de levar um atum de 20kgs na cabeça. Sábios esses pescadores. Tão sábios que andam me entregando peixe vivo. E com um orgulho de pescador! Dizem para o Lucas quando não estou no restaurante na hora da entrega: “Olha, avisa para a Chef que o peixe chegou aqui nadando, hein!”

Outro dia entrei na cozinha e vi o Rafinha com o dedo enfaixado. Não me admirei já que é uma cena corriqueira. Ponto para ele que além de estar cursando a faculdade de gastronomia ainda tem a chance de exercitar diariamente a dor e a graça de ser cozinheiro. Sempre digo que cozinheiro que não se corta e não se queima é porque não cozinha. Eu me corto – feio! – e me queimo – feio! – até hoje. Mas para minha surpresa a atadura no dedo do Rafinha dessa vez não era proveniente de um corte. Era de uma mordida.

Mordida? Eu disse. “É Chef, mordida”. Ele disse. Como assim? Estamos alimentando algum animal de estimação nas imediações? Alguém trouxe o cachorro escondido para passar o dia no vestiário? Como assim? Frederico não freqüenta a casa em dia de movimento e também não costuma morder nada além de bons queijos, boas carnes e bons peixes. É, o meu cachorro adora peixe. Fresco, claro.

Mordida de quê então? “De peixe!” Todos responderam morrendo de rir. Ah, bom! Então o peixe estava fresco mesmo, meus cumprimentos ao peixeiro. Rafa, solta dois canelones de maçã, mesa 15! Rápido!

Até!

3 de agosto de 2009

Reticências…

Filed under: Cotidiano — Tags:, , — Roberta Sudbrack @ 17:56

Já disse que adoro reticências. Adoro gente que se apossa delas para criar a ilusão da possibilidade. Possibilidade é sempre possibilidade, seja ela ilusão ou não, sempre pode acontecer. Adoro gente assim. Talvez por isso tenha tanto apreço pelos e-mails. Ao contrário do que muitos pensam, podem dizer tanto, e por isso mesmo, não têm medo de se utilizar delas…

Por falar em dizer alguma coisa, gosto sempre de deixar claro que não estou aqui para julgar ou divulgar. Esse não é um espaço para isso. Digo sempre o que sinto – nua e cruamente! – muito mais do que o que penso, ainda que necessariamente os dois acabem sempre andando meio juntos ou pelo menos se encontrando em algum lugar. Por isso quando resolvo falar justamente de algum lugar, falo porque me tocou e porque senti necessidade de dividir, já que sensações genuínas estão cada vez mais difíceis de encontrar. Mas nunca só para divulgar.

Aliás, por falar nisso, ando cheia dessa história de divulgar por divulgar. Acho uma pena que os meios de comunicação – nem todos – muitas vezes se utilizem de um espaço que poderia ser tão valioso para a discussão e a reflexão, somente para a enfadonha divulgação. Estamos meio órfãos de um espaço onde o pensamento seja o ator principal e faça a diferença. O que é uma pena uma vez que a cozinha brasileira está em pleno processo de crescimento. Ideias novas e instigantes pipocando por aí. Pesquisas interessantes sejam tecnológicas ou sensitivas. Gente que tem muito a dizer, gente que tem muito a ouvir. Pensamentos distintos, crenças também. Enfim, um mundo de possibilidades sem um canal para ecoar…

Pensando bem fica difícil imaginar como uma cozinha tão rica, mas ao mesmo tempo tão desconhecida lá fora, como a brasileira – Ruth Reichl esteve no Brasil outro dia e aparentemente não entendeu nada da nossa cultura culinária, primeiro achou tudo com cheiro de pão de queijo. Depois reduziu tudo a caipirinha. – possa dar o seu recado estando sufocada como está. Os grandes movimentos sempre tiveram ao seu lado canais que possibilitassem uma maior expressão, ingrediente fundamental numa receita dessas.

Quem há algum tempo imaginava o que pensavam e esperavam os espanhóis da sua cozinha? Uma coisa é certa, se os canais de comunicação não tivessem dado o devido suporte e prestado mais atenção à necessidade que essa cozinha – que aparentemente já havia dito tudo – tinha em se expressar novamente e com isso praticamente renascer e conquistar o mundo, nada disso teria acontecido.

Enfim, vamos remando e acreditando que algum dia os meios de comunicação possam se interessar por coisas aparentemente tão insignificantes quanto a magnitude de sabor e aroma concentrada na casca de um singelo mangarito! Tubérculo genuinamente brasileiro que está praticamente em extinção e que me foi apresentado com tanto amor pela Chef Mara Sales, uma das nossas mais incansáveis e geniais pesquisadoras brasileiras. E que a gente possa abrir o jornal e encontrar mais discussões inteligentes, trocas e debates sobre o potencial da cozinha moderna brasileira e a sua vontade de romper barreiras e também ganhar o mundo.

Enquanto isso não acontece, vamos afogando as nossas angústias e a sensação de que estamos nadando contra a correnteza, numa cerveja Damm geladíssima no ótimo bar de tapas Venga! http://www.venga.com.br/ que abriu a alguns meses no Leblon e já se tornou um dos meus restaurantes de bairro preferidos. Daqueles que a gente nutre sentimentos, torce para dar certo e desde o momento em que deixa o lugar, já está com vontade de voltar! Sensações genuínas…

Até!

« Newer Posts

Powered by WordPress