Todo mundo já sabe que eu mudo o “menu” do RS diariamente por respeito à natureza. Sobretudo ao mar e ao que ele me reserva diariamente. Não costumo ligar para o meu pescador e ordenar: “Quero pargo! Quero atum!” Muito pelo contrário, quem me navega é ele, o mar. Ligo e pergunto: “O que o mar nos presenteou hoje?” E com isso me movo. Sonho. Crio e construo.
É uma logística complicada devo admitir. Todos os dias um movimento diferente, um passo novo, uma nova dança. Todos os dias um grande desafio, o de se fazer merecedor dos presentes que recebemos dessa natureza. Rodrigo Oliveira, o craque lá do Mocotó http://www.mocoto.com.br outro dia me emocionou com suas palavras. Aliás, não só com as suas palavras, mas com a sua cozinha e sua alma também. Adoro esse garoto.
Pois bem, estávamos lá nos deliciando com o ambiente, a aura, os aromas e os sabores do seu restaurante e falando de farinhas… É incrível falar de farinhas! Contei para ele que eu era alucinada por uma farinha granulada lá de Goiás, uma das mais deliciosas que conheço. De repente ele chega com um saco enorme de farinha, olhos brilhando e me diz emocionado: “É essa, não é? Agora, a gente olha para ela e pensa: será que eu sou digno dela?” Adoro esse garoto.
É isso que eu penso todos os dias. Será que eu sou digna de tanta preciosidade que a natureza diariamente me presenteia? Esse também é um dos motivos pelo qual eu enlouqueço os meus fornecedores. No quesito peixe não adianta querer me empurrar o que a natureza cuspiu dias atrás. Sim, porque dias atrás não é mais presente, já é refugo. No RS não entra. Hoje eles já sabem. No inicio ainda argumentavam: “Mas Chef…” Hoje não correm o risco de levar um atum de 20kgs na cabeça. Sábios esses pescadores. Tão sábios que andam me entregando peixe vivo. E com um orgulho de pescador! Dizem para o Lucas quando não estou no restaurante na hora da entrega: “Olha, avisa para a Chef que o peixe chegou aqui nadando, hein!”
Outro dia entrei na cozinha e vi o Rafinha com o dedo enfaixado. Não me admirei já que é uma cena corriqueira. Ponto para ele que além de estar cursando a faculdade de gastronomia ainda tem a chance de exercitar diariamente a dor e a graça de ser cozinheiro. Sempre digo que cozinheiro que não se corta e não se queima é porque não cozinha. Eu me corto – feio! – e me queimo – feio! – até hoje. Mas para minha surpresa a atadura no dedo do Rafinha dessa vez não era proveniente de um corte. Era de uma mordida.
Mordida? Eu disse. “É Chef, mordida”. Ele disse. Como assim? Estamos alimentando algum animal de estimação nas imediações? Alguém trouxe o cachorro escondido para passar o dia no vestiário? Como assim? Frederico não freqüenta a casa em dia de movimento e também não costuma morder nada além de bons queijos, boas carnes e bons peixes. É, o meu cachorro adora peixe. Fresco, claro.
Mordida de quê então? “De peixe!” Todos responderam morrendo de rir. Ah, bom! Então o peixe estava fresco mesmo, meus cumprimentos ao peixeiro. Rafa, solta dois canelones de maçã, mesa 15! Rápido!
Até!