Arquivo de agosto de 2009

Os mangaritos alucinógenos…parte II

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Todo mundo sabe que eu tenho uma veia meio novelística… Pena não estar conseguindo acompanhar nenhuma novela ultimamente. Morro de inveja dos clientes que ligam para o restaurante e dizem: “Vou me atrasar porque não quero perder o capítulo de hoje da novela das 8!” Acho o máximo ver novela. Como não vejo, invento as minhas!

Era para encerrar o assunto dos mangaritos, afinal, que mocinhos mais assanhados! Já não bastava o Maestro Zubin Metha ter experimentado, gostado e pedido para repetir? Ainda tinham que virar personagens de uma crônica da Cora Rónai? Estão muito saidinhos para quem estava correndo o risco de desaparecer da face da terra, não estão?

Mas não sei se, nessa mania de comer casquinha de mangarito assim que saem do forno – o aroma de café e chocolate é uma coisa sensacional – não acabei comendo outro que era alucinógeno? Ou se, inspirada nos devaneios dos comentários das pessoas que não comeram um mangarito alucinógeno, mas também acabaram viajando nessa história, criei outra!

Ao chegar à agência dos correios minha gerente identificou-se como a representante legal do RS que teria vindo para libertar os mangaritos. Imediatamente as atendentes se entreolharam e apertaram um pequeno botão que fica atrás do balcão. Segundos depois apareceram dois policiais e o motorista do carro batido. Esse literalmente atordoado. Os policiais pediram para que a minha gerente os acompanhasse até uma salinha reservada. Ela foi. Chegando lá pediram para o motorista relatar o acontecido durante o trajeto. Ele relatou aos berros, desesperado e ao final sentenciou: “São uns delinqüentes! Perigosos! Gritam muito” Os policiais perguntaram se ela tinha certeza de que queria libertá-los, se não seria melhor devolvê-los ao interior de São Paulo de onde vieram? Minha gerente imediatamente disse que não! Eles estavam sendo esperados com ansiedade por uma multidão! “Multidão?” Perguntaram os policiais? “Como assim? Essas coisinhas feias e gritonas?” Sim, ela respondeu. “São astros! Amigos do Maestro Zubin Metha! Estão até no jornal, os senhores não viram? São personagens de uma crônica da Cora Rónai no jornal O Globo do dia 27 de agosto!” Os policiais se entreolharam duvidando e então abriram uma janelinha, daquelas que só quem está de um lado enxerga e pediram para que ela fizesse o reconhecimento. “Então, me diga se esses, que a Senhora vê aí, são os tais astros que saíram na coluna da Cora Rónai e são amigos do Zubin Metha?” E riram. Minha gerente olhou uma vez, olhou outra; estava difícil reconhecer porque estavam todos de óculos escuros fazendo o tipo astro pop total. Mais precisamente todos usavam um rayban aviator rb 3025! Depois de algum tempo ela disse: “Sim senhor, esses mocinhos não são mais simples mangaritos que estão correndo o risco de extinção. Agora são cidadãos brasileiros e astros conhecidos, desacato é mantê-los presos nessa situação! A cozinha está à espera deles para o show de hoje à noite! Ainda tem que ensaiar!” Envergonhados os policiais mandaram libertar imediatamente a mangaritada, não sem antes pedir uns autógrafos e determinar a prisão imediata do motorista!

Com licença que agora está saindo uma fornada de casquinhas de mangarito e eu tenho que correr lá para comer algumas! Isso vicia!

Até!

Os mangaritos alucinógenos…

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Depois de ferrenha negociação com o Senhor João Lino – um dos únicos fornecedores de mangaritos do Brasil – conseguimos finalmente mais uma remessa de mangaritos da safra 2009 para a nossa cozinha. A comparação que frequentemente acontece entre os mangaritos e as trufas não deixa de fazer algum sentido! A oferta de mangaritos chega a ser menor e mais difícil do que a das trufas brancas que vêm de Alba, na Itália. E o preço depois de sedex pra lá, sedex pra cá, acaba ficando parecido. Mas assim como as trufas, vale todo esforço!

Certamente não foram os meus belos olhos que convenceram o Senhor João Lino a nos ceder mais um pouquinho da sua pequena produção, provavelmente foram os do Maestro Zubin Metha, que, diga-se de passagem, brilharam como os de uma criança travessa com a possibilidade de repetir o ravióli amanteigado de mangarito em três texturas, que servimos a ele logo após o concerto da Filarmônica de Israel, aqui no Rio. Pouco importa. O importante é que na semana passada os mangaritos mais uma vez deixaram o interior de São Paulo e rumaram para uma casinha laranja à beira do canal no Rio de Janeiro.

Assim como da primeira vez, a expectativa que se instaurou em todos que habitam essa casinha foi enorme. Os garçons perguntavam quando teríamos mangarito, uma vez que os clientes não paravam de fazer a mesma pergunta diariamente. Os cozinheiros entravam na cozinha como crianças a procura dos brinquedos! Eu tentava controlar a minha ansiedade, pois sabia que, assim como da outra vez, a coisa não seria tão simples assim. Não sei se todos lembram, mas da primeira vez eles ficaram perdidos nos correios por alguns dias…

Dessa vez resolvemos fazer um tracking package em tempo real através do site dos correios. Minha gerente checava de hora em hora e me passava as coordenadas ao vivo, via e-mail, torpedo ou telefone. Tecnologia serve para isso e não para embalar pobres ingredientes em sacos e jogar na água para cozinhar! Como a expectativa já era grande e excitação mais ainda, me empolguei e comecei a postar ao vivo no twitter os passos dos mangaritos pelas ruas do Rio:

Track mangarito: Saiu do interior de SP na sexta-feira…está sendo esperado na agência dos correios do Jardim Botânico a qualquer momento! about 22 hours ago from web

Track mangarito: ainda não chegou à agência dos correios do JB, mas está pelas ruas do RJ! Essa é a última chance de experimentar em 2009!! about 22 hours ago from web

Track mangaritos: foram vistos circulando pelas imediações de Botafogo….tá perto!

Track mangaritos: carro dos correios bateu quando se dirigia ao Jardim Botânico! Mas os mangaritos passam bem, vão atrasar, mas estão a salvo. about 20 hours ago from web

Foi nessa hora que, na excitação, devo ter comido uma casquinha de mangarito torrada da leva anterior que certamente era alucinógeno!

Track mangaritos: enfim chegando aos correios do Jardim Botânico…agora só poderemos libertá-los amanhã! Pelo menos estão a salvo… about 19 hours ago from web

O que os mangaritos não passam para sobreviver! São brasileirinhos mesmo…about 19 hours ago from web

Amanhã pela manhã libertaremos os mangaritos que ficaram detidos por desacato a autoridade na agência dos correios do Jardim Botânico! about 19 hours ago from web

Na minha cabeça de cozinheira metida, e põe metida nisso, a escritora, a história seria mais ou menos assim…

Os mangaritos já não aguentavam mais o calor enfurnados dentro de uma caixa de papelão desde que deixaram o interior de São Paulo há dias atrás. Depois de muita volta pela cidade, a paciência de todos começou a esgotar. Gritavam de dentro da caixa: “Lineu de Paula Machado, 916! Lineu de Paula Machado, 916!” Essa gritaria atrapalhou o motorista, que bateu em outro carro quando finalmente rumava para o Jardim Botânico. Nessa hora a caixa com os mangaritos se abriu e todos saíram aliviados. Ao perceberem que não haviam chegado ainda ao destino, começaram a reclamar e gritar mais ainda. O motorista atordoado chamou a polícia que determinou a prisão dos mesmos imediatamente: “aos costumes! E só serão liberados amanhã mediante pagamento de fiança! Estão pensando que estão aonde? No Rio de Janeiro?” Resignados os mangaritinhos voltaram para a caixa e nos aguardam na agência dos correios para a tão sonhada libertação!

Certamente tinha um com poderes alucinógenos na primeira remessa. Vamos ver nessa…

Até!

A Bahia tem um jeito que nenhuma terra tem…

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Falar de lugares não é a minha praia, isso eu deixo para o mago Ricardo Freire www.viajenaviagem.com com quem eu tenho tido o prazer de “twittar” ultimamente. Mas quando alguma coisa toca a minha alma eu simplesmente não resisto…

Tive o privilégio de pisar em solo baiano esse final de semana. Isso num filme mudo poderia trazer o seguinte subtitle: “Chef feliz!”. Estar na Bahia sempre me deixou feliz. Adoro o povo, adoro os cheiros, adoro a energia. E como um dos meus vícios é adorar hotéis, aproveitei para conhecer o Zank www.zankhotel.com.br/, um hotel para lá de charmoso com o qual eu já flertava há tempos.

Tem uma coisa gostosa em flertar com o hotel antes de conhecê-lo. Eu adoro fazer isso. Não é novidade para ninguém que eu sou capaz de viajar para o outro lado do mundo só para conhecer um hotel. Aliás, se me perguntarem ultimamente qual é o meu hobby vou ter que responder que é conhecer hotéis, porque é uma das coisas que mais me dá prazer na vida.

Conhecer um hotel com o qual já se flertou tem lá os seus encantos e as suas pegadinhas. Primeiro ponto: os sites. Alguns são fiéis. Outros? Depois o departamento de reservas. Alguns são simpáticos. Outros? Depois a expectativa. Algumas são superadas. Outras?

Assim como a Bahia, o Zank tem um jeito que nenhum outro tem. Primeiro é um hotel pequeno, conceitual e emotivo. Emotivo? Sim, emotivo. Os móveis, o casario, as instalações, as donas, os funcionários, tudo é verdadeiro, logo, emociona. E a façanha de emocionar não é para qualquer um. Depois, o check list do flerte bateu todo: site, departamento de reservas e expectativas. Tudo em cima! Não é um hotel antigo, mas tem história, o que é fundamental para a identidade. Cada coisa está no seu lugar porque alguém sonhou assim. Logo, é um hotel de sonhos. Para quem se hospeda e para quem sonhou com ele.

Até!

O Twitter e o forno combinado…parte II

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Então rumei até o hotel conversando com o simpático representante. O cara era simpático mesmo, tanto assim que, apesar do desenrolar da história eu ainda me lembro dele. Cheguei ao hotel e também fui extremamente bem recebida. Tive a sensação de que eles até poderiam estar me confundindo com algum “Chefe” de Estado, já que eu vinha do Palácio da Alvorada, mas fiquei bem quietinha.

Muito simpática a recepção, muitos sorrisos, gente cumprimentando, gerentes de A&B recepcionando. Cafezinhos, bolinhos e petit fours à vontade. Uma festa, acho até que ouvi uma bandinha de música ao longe! Depois da visita a todos os setores da cozinha: padaria, açougue, cozinha de banquete, room service, cozinha fria, cozinha quente, ufa! Cumprido todo o cerimonial, fui finalmente apresentada ao Chef, que era o único ser habitante daquela cozinha com brevê e autorização para pilotar o tal forno combinado.

Apresentações, algumas trocas de elogios e outras palavras depois, fomos caminhando até a sala climatizada especialmente construída para abrigar o tal forno. Não me lembro bem, mas tenho a sensação de que a porta era toda blindada e foi aberta por uma chave que chegou dentro de uma mala preta, trazida por um ajudante de ordens que foi acionado através de botão vermelho… Brincadeira! Agora viajei, estou me achando escritora!

Dentro da sala fomos acomodados em cadeiras confortáveis que haviam sido colocadas ali especialmente para esse momento. O Chef então vestiu uma luva de plástico – nunca entendi essa bobagem de luva de plástico na cozinha, em tempo do pobre do cozinheiro se queimar todo! – e com movimentos muito suaves começou apertar aquele monte de botões à sua frente.

Em seguida começou a descrever todas as possibilidades de cocção e as ferramentas disponíveis no tal forno combinado. Mostrou o cozimento no vapor, a temperatura controlada, a possibilidade de fritar sem usar gordura, o reaquecimento e a regeneração. Op´s! Levantei o braço como se faz na escola e perguntei: “Desculpe, o que foi que o Senhor disse?” “Regeneração”, ele respondeu calmamente. A Senhora conhece os benefícios da regeneração não conhece?

Ajeitei-me na cadeira e resolvi marcar a minha posição sem ser mal educada, afinal naquele momento todos me olhavam e avaliavam as minhas reações. Engoli a seco e disse: “É, já ouvi falar, mas confesso que não faz parte do meu vocabulário. Enfim, vamos adiante.” Aperta botão daqui, aperta botão dali. Abre porta, fecha porta. Entra cenoura, sai objeto não identificado. Injeta vapor, retira vapor. Entra camarão fresco, sai camarão seco. E por aí vai.

A apresentação estava chegando ao fim, o Chef retira as luvas ritualisticamente, enche o peito de orgulho e diz: “Chef, com todo o respeito, os seus problemas acabaram!” Olhei perplexa e pensei, será que é agora que eles vão me agarrar e empacotar para demonstrar o cozimento a vácuo? Dei um sorriso meio amarelo e aguardei o final da frase. “Todos os seus problemas acabaram Chef, a partir de agora a Senhora não precisa fazer mais nada, o forno fará tudo pela Senhora!” E sorriu. Fim da apresentação. Fim da minha paciência. Agradeci, virei de costas para o forno e saí correndo pela esplanada dos ministérios! Chegando a cozinha me ajoelhei em frente ao velho dinossauro de lastro e disse: “obrigada por me deixar fazer alguma coisa!”

Mas o que tem essa história a ver com o twitter? A verdade é que depois de uns quinze dias freqüentando o twitter e aumentando significativamente o número de pessoas que me seguem, comecei a achar que finalmente estava dominando aquela ferramenta. Ficava feliz da vida quando as pessoas diziam: “A Sudbrack está bombando no twitter, precisa ver!” Então, um dia dei de cara com uma palavra estranhíssima: retwitter! Resolvi perguntar o que era e apareceram outras duas: tweetdeck, encurtador de link! Depois de algumas explicações extremamente simpáticas, descobri que para “twittar” existem mil programas super turbinados que te possibilitam fazer barbaridades! E eu lá só com o meu teclado! Sem forno combinado!

Mas se quiserem me seguir assim mesmo: https://twitter.com/robertasudbrack, eu garanto que com um teclado e um forninho seco a gente também pode se divertir muito!

Até!

O Twitter e o forno combinado…

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Eu sou uma cozinheira meio caipira, gosto de fogão à lenha, mangaritos e panelas de ferro. Na minha cozinha não tem tecnologia nos equipamentos, mas tem na cabeça! Estamos conectados com o mundo, fazemos cozinha moderna com pé no quintal e alma na lenha. Cozinha essa que nem por isso deixa de ser moderna e tecnicamente atual, disso eu tenho convicção.

Assim como tenho convicção de que, apesar de respeitar quem opta por essa linha tecnológica, prefiro seguir o meu caminho pela estrada de terra. Vai que encontro um mangarito? Na minha cozinha não entra nem forno combinado! Não gosto dessa ideia de um forno que tem a petulância de achar que vai me dizer a hora que o assado ficou pronto ou jogar vapor na cara dele quando bem entender. Sobre isso tenho uma história ótima para contar.

Eu estava quietinha na cozinha do Palácio da Alvorada, cozinha que chefiei por alguns bons anos e que na minha época era praticamente a mesma que foi utilizada para alimentar o Presidente Juscelino Kubitschek. Naquela época tínhamos um forno enorme de lastro, um dinossauro que eu particularmente adorava. Era tão grande que para alcançar o último compartimento tínhamos um banquinho de madeira feito especialmente para isso.

E um fogão que de tão antigo, não tinha mais peça de reposição, já que a fábrica nem existia mais. Mas a romântica aqui, tinha verdadeira paixão pelo “bicho” e sempre dava um jeito de recauchutar as antigas e continuar usando o “bichão”. Fizemos miséria com essa dupla, alimentamos Reis, Rainhas e Chefes de Estado e mostramos a cara do nosso Brasil com orgulho através da nossa cozinha.

Um belo dia um Senhor muito simpático, representante de uma marca respeitada de forno combinado, conseguiu me convencer a sair do meu porão, ou da minha cozinha, para ir conhecer esse tal forno. Fomos juntos a um hotel que fica muito próximo ao Palácio da Alvorada onde seria me apresentado com toda a pompa e circunstância a tal descoberta que poderia mudar a minha vida…

Amanhã continua…
Até!

Simplesmente diferente!

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Tudo o que se relaciona com comida a princípio me chama a atenção. De livros, como já falei aqui, a TV, DVDs e cinema, não perco nada. Sobre livros faltou falar que tenho verdadeira fascinação por livros antigos, sobretudo os grandes clássicos. Já participei até de leilão internacional com a ajuda da nossa Ana de Bruxelas quando arrematamos um livro raríssimo do grande mestre Antonin Carême http://pt.wikipedia.org/wiki/Marie-Antoine_Carême. Emocionante.

ACareme

Mas voltando à telinha, apesar da NET cismar de cortar alguns dos meus canais desde que resolvi assinar o tal NETCombo – curioso é que deveria ser o contrário, teoricamente eu ganharia mais canais! Vai entender! -, ontem encontrei por acaso o filme “Sem reservas” navegando no meio da madrugada.

SReservas

Apesar de ainda não ter visto essa adaptação justamente por ser apaixonada pelo filme original, o maravilhoso Simplesmente Martha, não iria perder essa chance na madrugada de jeito nenhum! Correndo o risco da NET descobrir que eu estava feliz e cortar o meu sinal, mas, o que seria da vida sem um pouco de aventura?

SMarta

Outro dia ouvi dizer que sou formadora de opinião. Seja lá o que for isso, deve ser muito chato. Mas se ajudasse a fazer a NET devolver os canais pelos quais eu pago, seria ótimo acreditar que eu sou mesmo…
Quanto ao filme “Sem reservas” posso resumir num só comentário se a comparação for entre ele e o original: “simplesmente diferente”. Assim a gente encerra a conversa e não fica chato para ninguém. Se ainda quiserem mais, basta comparar a massa que o charmoso italiano do original prepara na cena da cozinha, quando está tentando convencer a sobrinha de Martha a comer alguma coisa, um belo Spaghetti al sugo com basílico fresco e parmigiano. Com a preparada na mesma cena do “Sem reservas”, sem comentários.

Até!

Viva! Os mangaritos…

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Foi numa mesa, entre muita comida boa, admiração mútua, conversas e reflexões que eu conheci o mangarito. Não fosse a generosidade que permeia a cozinha moderna brasileira, talvez nunca o tivesse conhecido. Mara Sales se levantou, voltou com uma coisinha miúda e escura nas mãos e me disse: “Esse é o mangarito, mas já está bem sequinho, não dá para ter uma idéia da sua grandiosidade!”

Deu sim. No mesmo instante pirei, viajei, sonhei. Não sou de pedir receitas, acho que a única que pedi até hoje, foi a dos scoones da Ale! Acredito que as receitas são patrimônios das pessoas. Não me incomodo que me peçam, mas simplesmente não consigo pedir. Até tenho vontade, mas algo sempre me impede. Da mesma maneira não consigo pedir o contato de um fornecedor. Mas também não tenho o menor problema de dar, acho fantástico incentivar o conhecimento das coisas boas da nossa terra.

E foi assim também, sem pedir, que a generosa e genial Mara Sales, pesquisadora, chef, cozinheira de mão cheia, mulher apaixonada pela nossa cultura, me presenteou com o mapa do caminho das pedras para chegar até o mangarito. Foram meses de espera. Tanta expectativa! Tanta vontade de que realmente acontecesse!

Um belo dia eles chegaram finalmente à casinha laranja à beira do canal. Depois de ficarem perdidos durante quase uma semana nos correios! Eu já estava em cólicas, achava que esse tempo pudesse tê-los deteriorado. Que nada! São brasileirinhos! Cabras machos, sim senhor! Batalhadores!

Não fossem não estariam por aí até hoje nessa luta pela sobrevivência, íntegros e surpreendentes. Especiais, únicos e grandiosos. Tanto que valem a luta de um homem da terra, verdadeiro, sonhador, que devota os seus dias a não deixar que os mangaritos morram. Seu João Lino www-mangarito.blogspot.com, um batalhador. Um brasileiro genuíno e verdadeiro como os mangaritos.

Eu diria que ao final desse conto de fadas não poderia ser mais encantado. Depois de toda essa viagem, vindo lá do interior de São Paulo pelas mãos de um dos únicos homens que o cultiva anualmente com a merecida devoção. Depois dessa corrente generosa de troca e divisão que felizmente existe entre nós. Depois de algumas pesquisas, algumas descobertas fantásticas como o aroma e sabor de café e chocolate das suas casquinhas torradas. Depois de tanto sonho e tanta expectativa, hoje ainda teremos a alegria e a honra de servi-los a ninguém menos do que o grande Maestro Zubin Metha.

Um dia de glória para o mangarito e para a cozinha brasileira. Um dia de muita emoção para nós artesãos dessa encantada cozinha brasileira!

Até!

Esse tal de defeso…

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Temos recebido diariamente no RS peixes e frutos do mar maravilhosos. Coisa de emocionar. E de morder! De tão frescos andam até mordendo os meus cozinheiros. Especialmente os camarões, andam fantásticos. Acho que fazia muito tempo que não via nada tão sensacional. Os de alto mar são deliciosos, de uma cor vermelha vibrante, casca crocante, carne delicada, quase doce. Umas jóias.

É uma glória receber peixe fresco todos os dias e uma alegria poder servi-lo no auge do seu sabor e textura. A história é muito simples, sempre digo para os meus cozinheiros, peixe fresco a gente olha e tem vontade de comer cru! No máximo um fio de azeite e umas pedrinhas de flor de sal. É só. Se não deu vontade, acredite, não é tão fresco assim.

Mesmo morando numa cidade de praia, sei o quanto é difícil conseguir um produto assim. Foram anos de luta e um trabalho imenso de conscientização dos fornecedores. Em contra partida também aprendemos muito, conhecemos espécies novas, tipos especiais de peixe como o cherne de gralha amarela e outras pérolas do mar. E na nossa parceria com os fornecedores uma coisa é lei: respeitamos o defeso. Então não nos ofereça nada fora da época, é perda de tempo.

Agindo assim incentivamos uma pesca consciente e o respeito pelo mar e seus habitantes. Não fosse assim não estaríamos tendo o privilégio de trabalhar diariamente com tantas preciosidades. Quando vou fechar o “menu” do dia seguinte e ainda não tive notícias do que virá do mar, escrevo assim na prévia: “O peixe que chegar…”

Outro dia resolvi abrir esse leque de possibilidades, inspirada pela boa safra de camarões e escrevi: “O ser marinho que chegar…” . Causou gargalhadas no restaurante. Mas era pura verdade, estávamos à espera deles, sejam eles quem fossem, a escolha caberia ao mar!

Até!

Hoje tem T&D!

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Hoje tem aula no RS, 15 pessoas que a priori adoram cozinha, dentro dela das 15h às 22h ou coisa parecida. Às vezes mais, se a turma se atrasa na execução das receitas ou se a dança estiver muito boa. Às vezes menos, se a turma for aplicadíssima e não estiver para conversa e muito menos para dança.

Tudo pode acontecer e nas duas possibilidades a diversão é garantida. Devo confessar que às vezes estamos exaustos na segunda-feira. Afinal seria o nosso dia de folga, dia de recarregar as baterias para a semana que começa. Com isso até podemos começar a aula meio desanimados, mas lá pelas tantas a energia concentrada na cozinha, proveniente de tantos corações apaixonados por ela, acaba tomando conta de nós.

São dias muito especiais na nossa cozinha. Dia de dividir. Dia de observar os olhares, os sonhos de cada um estampados nos olhos atentos. Dia de alegria, de extravasar emoção. Dia de jantar junto, a equipe que trabalha duro o mês inteiro, os alunos que esperaram o mês todo para estar ali.

É um curso muito especial. Há 6 anos ele existe em nossas vidas e por mais exaustiva que ela possa ser, sempre há espaço para ele. Será porque nesse dia a doação, que já é uma constante para nós, parece ser maior ainda?

Seja lá o que for, vida longa ao T&D!

Até!

Mais informações: www.robertasudbrack.com.br ou 55. 21. 2263.8173

Livros…

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Adoro livros. Compro tudo que acho pela minha frente que tenha a mínima relação com comida. Pode ser um parágrafo num livro, uma frase no outro, um livro inteiro de receitas ou receitas soltas por outro livro. Adorei fazer o inventário do tempo: livros, com a Bia Lessa.

inventario

O tempo dele passou, mas a saudade de tudo o que vivemos e dividimos por lá ainda reina soberana dentro de mim. Assim como certas passagens, de certos livros, que parecem ficar grudadas na alma da gente, sabe-se lá por quanto tempo.

As minhas estão quase sempre relacionadas à cozinha, sempre foi assim. Quando era pequena, mesmo antes de enveredar por esses caminhos, sempre me interessei mais por livros de receitas do que por gibis. Hoje dando uma olhada na minha pequena biblioteca repleta de tudo um pouco, me deparei com um livrinho engraçado: Receitas para gastrônomos requintados, inventadas e executadas por distintos artistas e escritores portugueses, edição portuguesa de 1994. Uma pérola!

E lá encontrei a seguinte receitinha que transcrevo na íntegra, correndo o risco de apenas o nosso querido Pedro Rui entender:

Bolos de milho

Amassa-se numa terrina o seguinte: 500g de farinha de milho, 500g de flor de farinha de trigo, 500g de manteiga fresca, 400g de açúcar cristalizado; logo que a massa não apresente grânulos, juntam-se duas colheres de mel e cidrão bem pisado, depois estende-se e corta-se em bolos(demais essa!), doiram-se com gema de ovo desfeita em água(essa também é poética) e vai ao forno a cozer com calor moderado(mas essa é a melhor!)

Que poesia! E que maravilha seria ter esses “bolos” de milho agora para tomar com cafezinho coado em coador de pano. E eu me pergunto encantada com o livrinho nas mãos, quem mais além deles detêm esse poder de nos fazer levitar por flores de farinhas e gemas desfeitas em água numa sexta-feira corrida?

Até!