Os mangaritos chegaram! Os mangaritos chegaram! Estão lá quietinhos repousando. Todos os dias vamos até onde eles estão, pegamos um, olhamos, cheiramos, cheiramos de novo, olhamos de novo, e vamos fazer outra coisa. Daqui a pouco voltamos, descascamos, cozinhamos, um pouco mais, uma pouco menos, e provamos. Sem sal, com sal, com açúcar, com manteiga – que delícia!
Mais tarde pegamos outro, limpamos a terra que os envolve e experimentamos cru, em lâminas, quadradinhos, pedaços e pedacinhos. Deixamos um pedaço em contato com o ar e depois de alguns minutos voltamos para observar as reações. Colocamos no céu da boca e esperamos alguns minutos antes de morder. Raspamos, assamos, douramos, cortamos, escovamos, lavamos, secamos e sonhamos!
Num desses movimentos, sim, essa pesquisa empírica, genuinamente brasileira, lembra de algum modo os movimentos da dança. Talvez porque envolva, apesar desse empirismo, boa dose de disciplina, reverência e conexão com a ciência. A ciência da vida, do mato, do caboclo, do sertão, das raízes, enfim, da cozinha brasileira. Uma ciência que está muito mais ligada aos métodos caseiros do “erro e acerto”, do que com qualquer outro. Da observação, da tentativa, da busca pela compreensão que tantas vezes pode estar escondida nas profundezas de uma raiz. Numa casca, uma semente ou numa gelatina natural.
Num desses movimentos avistamos algo viscoso que se movia do mangarito até a faca que o cortava e voltava. Repetimos o movimento e lá estava ela, uma boa dose de gelatina. Certamente no interior, no sertão, lá no mato, conhecida como a renegada baba. Gelatina ou baba? Pouco importa, ali está a chave para alguma porta que possivelmente levará a um caminho nunca antes percorrido. Ou não. Mas assim nós vamos, caminhando, sonhando e dançando conforme o ritmo que a natureza nos propõe. E o que formos descobrindo poderá no mínimo ajudar a desvendar alguns mistérios ou até a escrever uma nova página nessa linda história de cozinha.
Até!
