10 de agosto de 2011

Errar é mais do que humano, é necessário.

Arquivado em: Cotidiano — Roberta Sudbrack @ 15:37

Espero que nenhum dos meus cozinheiros passe por aqui hoje. Porque apesar de acreditar nessa filosofia de botequim, não posso correr esse risco com eles! Errar, se pensarmos bem, é o caminho mais próximo da sabedoria. Só errando na prática, ou seja, vivendo literalmente as dificuldades, a gente desenvolve um método muito próprio para lidar com elas no futuro. Se prestarmos bastante atenção aos detalhes que protagonizaram o erro anterior, muito provavelmente não repetiremos a cena. Seja por cautela, seja por aprendizado efetivo. Seja o que for, está valendo.

Errar é fundamental. Aprender sem errar não tem nem a mesma graça e nem o mesmo peso. Eu, como boa perfeccionista que sou, detesto errar, para mim é igual perder no jogo de mímica, não admito! Mas com o tempo fui aprendendo o quanto é importante no processo de amadurecimento do cozinheiro e do ser humano. Antes, queria morrer. Sentava, chorava, jogava a panela inteira de arroz todo grudado no lixo. Depois respirava fundo e começava tudo de novo.

Minha formação é autodidata até a última gota de sangue. Sangue dos dedos! Todos, um por um, já experimentaram a dor e a delícia de serem decepados. Cortava tanto os pobres coitados que o pessoal de casa chegou a pensar que aquela história não iria dar certo simplesmente porque quando eu tivesse aprendido tudo o que precisava aprender já não teria mais dedos… Eu ia para a cozinha religiosamente no mesmo horário e com a compenetração de quem vai mesmo para a faculdade. Colocava uma música ou ligava uma pequena televisão preto e branco que foi do meu avô. Isso servia para não perder o contato com o mundo, afinal, passava tantas horas na cozinha que se não fosse assim não saberia nem quando a moeda havia sido trocada. Como naquela época trocava bastante, corria o risco de chegar à feira com cruzeiro, quando as bananas já estavam sendo vendidas em cruzados. Ali eu passava horas, só na companhia do meu assistente, o adorável Júnior, meu primeiro Golden Retriever. De vez em quando eu passava correndo pela sala com a mão enrolada num pano de prato, que aos poucos ia sofrendo uma mutação na coloração original, do branco para o vermelho em segundos, coisa fantástica. Todo mundo já sabia o que havia acontecido e saia correndo atrás de mim com caixinhas e mais caixinhas de bandaids… Cada um tinha um estoque pessoal sempre à mão para me acudir nessas horas.

Aprendi errando, essa foi a minha grande escola. Mas também jamais virava as costas ou desistia de alguma tarefa antes de pelo menos compreender que havia acontecido. Mesmo que tivesse perdido a ponta de mais de três dedos no mesmo dia. Poderia até não encontrar a sabedoria para tomar um cafezinho naquele dia. Mas no dia seguinte lá estava eu, mais cedo do que de costume na cozinha, esperando por ela. Minha obstinação é tanta que uma hora a gente acabava tomando tal cafezinho. Não sei se eu a vencia pelo cansaço ou pela obstinação… Mas seja lá o que fosse eu sempre aprendia muito.

No dia em que finalmente consegui visualizar o processo de gelatinização de um molho demi-glace chorei de soluçar em cima dele. Muito mesmo. Podem imaginar a cena e morrer de rir de mim. Está liberado! A verdade é que só o demi-glace, o Júnior e eu sabemos o que significava aquele momento para uma cozinheira que aprendeu tudo sozinha. Outro dia conversando com um especialista em pesquisa alimentar, descobri que um dos métodos mais eficazes nesse tipo de estudo é justamente o da tentativa e erro. Ou seja, nem a ciência escapa da fabulosa possibilidade de errar. Vira e mexe me perguntam como chego a resultados tão expressivos e precisos na minha cozinha sem que ela esteja tão intimamente conectada à ciência. Ora, errando, acertando e vivendo, meu caro Watson!

Até!

26 de julho de 2011

Quer ser cozinheiro?

Arquivado em: Sem categoria — Roberta Sudbrack @ 13:48

Esse se tornou um dos bordões mais citados no twitter quase sem querer. Quem acompanha o meu dia a dia na cozinha vira e mexe se depara comigo descrevendo alguma situação do nosso dia a dia e fazendo essa pergunta: Quer ser cozinheiro? Hoje reli um texto que escrevi há algum tempo falando justamente sobre isso e resolvi reeditar. Porque como Chanel, os clássicos nunca saem da moda. E se no final do texto você quiser me perguntar se eu faria tudo outra vez? Faria! Quantas vezes fosse preciso, mas eu já decidi e você? Se ainda não, aí vão algumas dicas que podem ser muito úteis!

Se você decidiu que o seu caminho definitivamente vai dar numa cozinha. Se isso é realmente um ideal e não um meio de vida. Se essa é realmente a sua vontade acima de qualquer coisa, aceite alguns conselhos de quem já esteve nesse lugar:

Não mande currículos para todos os lugares de uma vez. Escolha o tipo de cozinha que mais te encanta, a filosofia de trabalho que mais te seduz e o chef que você mais admira. Mande o seu currículo primeiro para esses lugares. Encare o sonho de trabalhar nesse lugar como um ideal. Não tem nada mais desagradável do que alguém que atira para todos os lados. Normalmente esses não sabem o que querem e isso fica nítido mesmo antes da primeira entrevista. Se é que ela vai acontecer…

Não desista nos primeiros obstáculos, insista, mande cartas, se expresse, se debata, ligue, tente até as últimas conseqüências! Nós já estivemos no seu lugar e certamente teríamos feito o mesmo.

Não escreva no campo profissão do seu currículo: Chef de cozinha. A não ser que você esteja exercendo esse cargo em alguma cozinha. Mas, se estivesse, por que estaria enviando currículos? Nós somos cozinheiros! Podemos “estar” chefs de cozinha se estivermos exercendo essa atividade dentro de uma cozinha profissional. Ainda assim, somos cozinheiros. Ninguém sai da faculdade, por mais que erroneamente esteja escrito no diploma, com esse título. Isso é um cargo, não é uma profissão!

Jamais escreva no campo expectativas do seu currículo: Subchef. Esse cargo é um caso de amor, de conquista, vitórias e suores! Um dos nervos mais vitais e sensíveis nesse sistema nervoso central! Onde o relacionamento é repleto de cumplicidade, harmonia, confiança e doação. É um cargo que se conquista, e conquista requer conhecimento. Quem é você para chegar querendo ocupar esse lugar?

Jamais defina o que você imagina ser o mais acertado para você: “eu não acho justo começar como assistente. Acho que mereço pelo menos o cargo de primeiro cozinheiro.” Pelo amor de Deus, comece onde quer que o trem pare! E se não parar, pule nele mesmo se estiver em movimento, mas não se esqueça de pular com delicadeza para não incomodar os que já estão dentro. Se começar na área de lavagem, faça dela a mais limpa e organizada do planeta e garanta o seu passaporte para a próxima viagem. Um dos meus melhores cozinheiros começou como vigia da casa e quando chegou à área de lavagem me mostrou do que seria capaz em questão de minutos.

Comece com delicadeza, desde o primeiro contato, até o momento em que colocar os pés no sagrado chão da cozinha.

Não menospreze quem te entrevista: “Não vou falar com o Chef? Não acho que vocês têm capacidade de me avaliar”. É certo que quem está te avaliando já foi avaliado pelo Chef…

Não acredite que você sabe tudo, não tem nada pior, e normalmente quem acha que sabe tudo não sabe quase nada. Além do mais, seja lá o que quer que você saiba, terá que deixar do lado de fora e aprender tudo de novo. Quando se entra numa cozinha que já estava em funcionamento não se deve ter a pretensão de acreditar que se sabe alguma coisa, tudo pode e deve ser novo, tudo pode e deve ser aprendizado. Tudo é crescimento.

E por último, se a humildade não é uma qualidade que lhe cai bem, por favor, desista dessa parada, salta na próxima.

Quer ser cozinheiro?

11 de maio de 2011

Quiabos me mordam!

Arquivado em: Sem categoria — Roberta Sudbrack @ 14:13

Mais um dos meus textos publicados na revista Gula para vocês. Nesse, que eu adorei e escrever, falo sobre a minha eterna dificuldade em explicar o processo criativo!

Quiabos me mordam!
Por Roberta Sudbrack

Falar de processo criativo para mim tem o mesmo efeito que emprestar escova de dente. Não gosto, não entendo e acho extremamente estranho. Francamente, me apavora a simples ideia de tentar explicar uma coisa dessas. Assim como me apavora a ideia de emprestar a minha escova de dente para alguém que não seja eu mesma.

Como explicar, por exemplo, a minha relação com as sementes de quiabo? Tão louca, mas tão louca, a ponto de sonhar com a utópica possibilidade de transformá-los em… Caviar? Como é que eu vou explicar que numa noite de lua cheia em Tiradentes, MG, enquanto comia um quiabo magnificamente preparado tudo isso aconteceu? De repente a sementinha do quiabo saiu correndo pelo meu prato. Imediatamente eu deixei as pessoas com quem estava jantando na mesa e me transportei para outro mundo. Um mundo onde quiabos falam com você, trocam ideias, fazem brainstorm, te interrogam e pior – ou melhor? – decidem o seu destino!

A história foi mais ou menos assim, tão logo adentrei esse mundo misterioso fui capturada, algemada e levada por alguns quiabos fortões ao encontro de um quiabo alto e formoso, aparentemente o líder. O local parecia um tribunal e estava repleto de quiabos de todas as procedências. O líder, aquele quiabo formoso, entrou e todos os outros se levantam. Ele fez um gesto de agradecimento, ordenou que todos sentassem e começasse a sabatina. Sabatina?

Primeira pergunta: “No seu mundo como nós somos preparados?”
Resposta: “Normalmente refogados ou ensopados!” Um silêncio toma conta do tribunal e todos suspiram: “oh…” O líder balança a cabeça e faz anotações. Segunda pergunta: “De que outra forma?” Resposta: “Bem existem uns malucos com eu que têm mania de grelhá-lo inteiro…” Aplausos e mais aplausos! Achei prudente apenas aceitá-los e não continuar, para que entrar no mérito do motivo pelo qual prefiro grelhá-los inteiros?

Mas eis que vem a terceira pergunta: “E o que fazem com a baba” Resposta firme: “Eliminamos!” Silêncio novamente no tribunal, o líder se ajeita na cadeira e os outros suspiram: “Ohhhhh…”
Claramente a situação não estava boa para o meu lado e na tentativa desesperada de retomar a confiança do grupo resolvo voltar à minha teoria: “Bem, eu e meus cozinheiros somos contra esse tipo de procedimento…” Nesse momento sou interrompida e aplaudida em cena aberta! Encho o peito de confiança e continuo: “Chegamos à conclusão de que a baba é na verdade uma gelatina natural. Gelatina essa que contém grandes quantidades de açúcar na sua composição…” Novamente aplausos efusivos tomam conta do tribunal e até um “uhuuu!” é ouvido ao longe. O líder chama o terceiro secretário, um quiabo bem sério e distinto e cochicha alguma coisa no seu ouvido. Observo com certa tensão, será que me excedi? Ultrapassei novamente algum limite? Qual será o meu fim? Alguns instantes depois dois quiabos com capes de guarda de trânsito se aproximam e me libertam das algemas sorrindo. O líder então diz: “prossiga.”

Respiro fundo e penso; o que tenho a perder? Na melhor das hipóteses serei grelhada viva como São Lourenzo o padroeiro dos cozinheiros, e, com sorte, depois de alguns milagres virarei santa e terei uma imagem no altar da minha própria cozinha. Na pior serei refogada ou ensopada com bastante água por vingança! Sigo em frente então: “Estudamos a composição do quiabo durante um ano na minha cozinha. No mundo de onde eu venho as pessoas costumam dizer que não gostam de quiabo justamente por causa da baba. Estávamos decididos a mudar essa história. Depois de muito estudo e pesquisas exaustivas conseguimos desenvolver um processo artesanal de concentração e aprisionamento dessa gelatina na própria semente do quiabo, o que chamamos de caviar vegetal.” Aplausos e mais aplausos efusivos! E muitos ‘uhuuus!” depois, o líder pede silêncio novamente e diz, agora ligeiramente sorridente: “Prossiga.”

Mais uma vez encho o peito de orgulho e prossigo: “Essa descoberta chamou a atenção do mundo gastronômico e eu e meus cozinheiros viajamos fazendo demonstrações e levando quiabos para a França, Espanha, Itália, Uruguai…” Nesse momento todos os quiabos se levantaram inclusive o líder, e aplaudiram emocionados. Alguns saltaram o cordão de isolamento e me carregaram nos braços até a praça, onde milhares de outros quiabos me esperavam eufóricos!”

Quando voltei para a mesa meus amigos me olhavam perplexos. Comi calmamente um pedaço do frango com quiabo e disse: “Eu avisei que processo criativo era algo muito íntimo!”

Até!

31 de março de 2011

Eu voltei!

Arquivado em: Sem categoria — Roberta Sudbrack @ 17:27

Pois é, na verdade nunca parti. Sempre passo por aqui com aquele olhar baixo, olhando de ladinho, espreitando o que está acontecendo na cozinha… Sem poder entrar. Vocês podem imaginar o que é essa sensação para uma cozinheira? Não conseguir tempo nem para entrar na sua própria cozinha?

Aí vocês me perguntam: “Mas porque não entra? Pode entrar, acabamos de assar um bolinho de nada… Pede para a Vó Iracema passar um cafezinho coado e vamos engrenar uma prosa Chef!”

Felizmente na cozinha da casinha laranja à beira do canal isso não acontece e através do Twitter que é inegavelmente uma ferramenta muito rápida e eficaz, podemos manter o contato e não deixar o bolo esfriar…

Não sei por quanto tempo conseguirei sentar para tomar esse cafezinho e comer o bolo de nada, que como sabem é o meu preferido. Mas enquanto me esforço para dar conta de todo esse dobrado, resolvi ir postando alguns dos textos que tenho orgulhosamente escrito para a Revista Gula (http://www.gula.com.br)que está de volta e como sempre saborosa e divertida.

Por falar em diversão, é como eu sempre digo para os meus cozinheiros; por mais doloroso que seja o fundamental é se divertir! Divirtam-se enquanto eu vou ali e já volto…

Até!

Perigo, perigo! Não tem registro!
Artigo publicado na Revista Gula

Que a gastronomia vive uma fase única não é novidade. Efervescência de idéias, técnicas, visões e pensamentos interessantíssimos comungam com o excesso de pirotecnia nas cozinhas mundo a fora. Que tudo isso é bom, seja qual for a sua linha ou filosofia de trabalho dentro da cozinha, também é fato. Gostar ou não gostar de toda essa parafernália tecnológica que recentemente tomou conta das cozinhas mundo a fora não é o cerne dessa questão. Afinal, cozinha é sensação, é desejo, é expressão e acima de tudo liberdade. Cada um que emita a sua opinião em três vias, uma verde, uma amarela e outra branca. A branca fica com você, a vermelha vai para o seu fornecedor e a verde você entrega para o cliente levar como souvenir!

O cerne dessa questão me parece estar justamente nessa via. A verde! Aquela avalizada por nós. Aquela que o nosso cliente levará para casa depois do jantar como lembrança. A questão é: – Que lembrança será essa? Será que não estamos mais preocupados com o show, com a surpresa, com a extravagância, do propriamente dito com as sensações duradouras? Para surpreender hoje em dia vale tudo, bolhas, bolhinhas e bolhões. Equipamentos de última geração, pirotecnia e até fogos de artifício se necessário for. Estamos dispostos a tudo para encher os olhos do cliente diante do nosso show de luzes e cores. Podemos até transformar os nossos garçons em malabaristas ou contorcionistas se isso causar estranheza.

Estranheza, essa parece ser a palavra chave, aquela abre as portas mais inesperadas nesse incrível universo da gastronomia moderna. Seres estranhos, vindos das profundezas da terra, do mar e do ar. Mutações nunca antes imaginadas fora dos filmes científicos que costumávamos assistir na sessão da tarde, hoje acontecem bem ali diante dos nossos olhos no salão dos restaurantes. Fico imaginando a cara do Doutor Smith, aquele personagem rabugento, do antológico do seriado “Perdidos no espaço”, ao assistir o garçom preparar, ali na sua frente, um sorvete em míseros três minutos utilizando suco de fruta e nitrogênio líquido. Ou assisti-lo trazer o seu prato da cozinha absolutamente vazio, ligar uma impressora na corrente elétrica, apertar o botão imprimir e aguardar. Enquanto isso outro garçom se aproxima e deposita na mesa uma grande cúpula de vidro enfumaçada e num gesto preciso retira a tampa que imediatamente libera uma fumaça com aroma inebriante de frango assado com batatas. Em alguns segundos o outro garçom retira o papel cuidadosamente da impressora e em golpes rápidos e precisos corta o mesmo em dois e serve um para o Doutor Smith e outro para o Robot B9 que mais do que rapidamente sentencia: “Perigo, perigo! Não tem registro!”

Pensando bem pode até ser que todo esse mise en scène tenha alguma conexão com o passado. Lembram-se da magia criada em torno do preparo de um simples crepe Suzette no salão dos restaurantes nos anos 70? Espera aí, mas crepe Suzette se faz com farinha, açúcar, leite, ovos, laranja, boas colheradas de manteiga e licor! Tudo isso tem registro.

30 de outubro de 2010

Por uma memória que nos sustente

Arquivado em: Sem categoria — Tags:, , , — Roberta Sudbrack @ 11:01

“Em um mundo no qual temos máquinas para fazer tudo. Fazer algo com as mãos não deixa de ser revolucionário… uma rebeldia!” A ideia central por trás da minha apresentação dois dias atrás no Congresso Internacional de Gastronomia Mesa Tendências, foi propor uma reflexão sobre a responsabilidade que nós cozinheiros profissionais temos em fazer uma ponte entre os tempos e estarmos sempre com o olhar referenciado na sabedoria do fazer com as mãos. Esse saber que precisa e deve ser preservado para que o sonho da moderna cozinha brasileira seja possível. Ser capaz de pensar o futuro da gastronomia aprendendo com o passado parece simples, como fritar um ovo deveria ser. Mas ninguém melhor do que nós, cozinheiros convictos e atentos, para saber o quanto é complexa a tarefa de fritar um ovo como deve ser. A simplicidade incomoda porque ela desafia, instiga, perturba. Como explicar a sensação de satisfação plena que um simples arroz quentinho na companhia de um ovo frito bem feito pode causar?

Muitas perguntas, muitas reflexões, inúmeras lições. Essa cozinheira apaixonada que vos fala se sente pequena, mínima, envergonhada, perto da grandiosidade de certos artesãos das mãos que espalhados por esse Brasil mantém a chama da nossa memória gastronômica acesa e nos desafiam a pensar numa cozinha moderna que seja capaz de manter essa ligação tão preciosa com o passado vivo e presente.

Esse filme feito pelas mãos de um artesão do olhar chamado Yuri Samico diz muito sem ter que dizer tanto. Comove, incomoda, desafia, pergunta, emociona, intriga, questiona… Atenção especial a fala mansa do mineiro “fazedor” – existe palavra mais linda do que essa? – de doces de São Bartolomeu, MG, sobre o dia em que o marmelo que antes existia em abundância em Minas Gerais, simplesmente acabou. Fiquem atentos à fala mansa, firme e extremamente lúcida da Dona Virginia, mulher de fibra que há mais de 80 anos debulha com as próprias mãos o milho que será moído no moinho movido a água que pertenceu ao seu avô, mas que hoje já não produz como antes porque a água está mais miúda… Observem o Roninho, dono da Mercearia Paraopeba em Itabirito, MG, seu pensamento, seu gestual, sua postura tão simples para alguém que pode ser considerado um herói nacional. Um homem que devota a vida a não deixar que as páginas de um passado que ainda nos comove sejam arrancadas desse caderno chamado Brasil.

Até!

25 de outubro de 2010

Assado ou cozido? You tell me!

Arquivado em: cozinha moderna brasileira — Tags: — Roberta Sudbrack @ 19:11

Nas cozinhas do século 19, templo de grandes banquetes e de chefs que fizeram história – a figura do assador era peça fundamental. Fosse hoje em dia alguns poderiam jurar que assador seria o nome de alguma geringonça ultramoderna repleta de botões e visores digitais vendida sobre o pretexto de produzir assados perfeitos.

Assados perfeitos? Mas o que seria na sua imaginação ou memória afetiva, um assado perfeito? Vamos pensar juntos em dois contextos; o primeiro, o assado da vovó. Verdadeiro patrimônio de qualquer família que se preze, suculento, cheio de raspinhas provenientes da caramelização natural dos sucos. Nesse tipo de preparo até certas imperfeições são toleradas, mais do que isso, valem cada garfada. O segundo, o pretenso assado perfeito preparado nessas máquinas mirabolantes de cozimento a vácuo. Aqui nenhuma imperfeição é perdoada. Nenhuma caramelização é permitida. Nenhum contato com o oxigênio é aconselhável. Até tossir no momento do preparo pode ser perigoso. Muito perigoso!

Vamos fechar os olhos e nos transportar para primeiro cenário; a casa da vovó. Cozinha arrumada, rendinhas, panos de prato bordados e latas de biscoito, muitas latas de biscoito por todos os lados! Agora vamos mergulhar no universo desse assado.

Primeira etapa; o cheiro. Você entra na cozinha e é tomado por uma nuvem inebriante de sabor concentrado – Não estamos definitivamente falando daqueles sprays sabor fumaça de churrasco de domingo ensolarado. Também vendem o de domingo nublado, mas acho que você vai preferir o cheiro do ensolarado! – e imediatamente diz sem pensar: “Olha esse cheiro!” Quem é que em sã consciência num momento como esse vai pensar na conjugação certa?

Próxima etapa; o olhar. Mais precisamente o contemplar. É nesse instante quase mágico que a sua mente entra em contato com o cheiro que está catalogado no seu cérebro e vibra de alegria. Mais do que isso, na melhor das hipóteses saliva descontroladamente feito criança.

Etapa final; o toque. A primeira garfada na realidade seria, digamos assim, a materialização do sabor que já está armazenado na sua mente e no seu olhar desde o momento em que você entrou nessa cozinha. Daí em diante a viagem é sua. Pode ser de ida e volta ou sem compromisso algum com o tempo, seja ele passado, presente ou futuro. It´s up to you!

Corta, edita e recomeça a filmagem. Vamos nos transportar para o segundo cenário. Cozinha ultramoderna, aço inox por todos os lados, bancadas térmicas digitais, equipamentos de última geração e cozinheiros que usam pinças – e óculos, claro! – no lugar de facas e colheres de pau. Agora vamos mergulhar nesse universo. Você entra na cozinha e avista no cantinho de uma bancada um aparelho muito estranho. Aproxima-se bem devagar, compreensivelmente assustado e avista um saquinho de plástico boiando. Dentro dele, um pedaço de carne muito bonito bóia calmamente numa água clara e morninha.

Primeira etapa; o cheiro. Bem, essa etapa nós vamos pular.

Segunda etapa; o olhar. É… Essa, nós também podemos pular.

Terceira etapa; o toque. Bom, nessa eu vou precisar da ajuda de vocês: é assado ou cozido? Eu sempre fico em dúvida.

Até!

24 de setembro de 2010

Na cozinha ou fora dela… Sempre dentro dela!

Arquivado em: Cotidiano — Roberta Sudbrack @ 17:01

Acabei de voltar de uma viagem linda. Foram só dois dias, mas a intensidade dos versos simples na fala dos mineiros, das inúmeras broas de fubá que comemos sempre acompanhadas daquele cafezinho coado e já adoçado. Da convivência mais do que íntima, pois quase sempre tudo se dá dentro da casa das pessoas, mas precisamente na cozinha!

Enfim, a ideia era falar sobre isso. Postar fotos, coisa que raramente faço. Contar histórias engraçadas como o salvamento do galo Chanteclair, coisa de cinema! Lembrar das muitas prosas à beira dos fogões à lenha. E tantas outras vivências e aprendizados que me deixaram mais perplexa e mais encantada com a cultura gastronômica brasileira. Mais do que isso, que me fizeram ter certeza do quão pouco eu sei e do quanto com sorte posso aprender.

Mas entrei aqui hoje e como faço diariamente – apesar de não conseguir mais escrever com a frequência que gostaria – fui ler os comentários. Quem me acompanha desde o inicio, acho que temos pelo menos uns quatro anos de blog, me corrijam se estiver errada, sabe que uma coisa que sempre me inspira são os comentários. Eu diria que muitas vezes foram eles os grandes protagonistas desse espaço. Pois hoje, mais uma vez eles derrubaram a pauta das Minas Gerais!

De qualquer forma continuarei a falar sobre intimidade e convivência, primeiro porque acho duas coisas fundamentais na vida e na gastronomia. E segundo porque apesar de ser um ingrediente riquíssimo, como qualquer outro quando utilizado em excesso pode amargar o caldo.

Nunca acreditei numa cozinha que despreza a conexão com o afeto. Cozinhas muito tecnológicas nunca me encheram os olhos. Tenho até medo daquelas cozinhas que só tem bancadas de aço inox, uma do lado da outra, gosto mesmo é de fogão à lenha. Disso todo mundo sabe, ou pelo menos desconfia. Hoje em dia pode até ser bacana assumir isso, mas há alguns anos atrás quando o ápice da “espumalhada” tomava conta do cenário gastronômico, não era não. Dito isso, é fato que o contato direto com o meu cliente é fundamental. Sempre incentivei isso, muito antes até do surgimento de mídias ultra-rápidas como o Facebook e o Twitter, que hoje nos colocam de cara com qualquer um que queira fazer um elogio ou esculachar uma vida dedicada à cozinha. Faz parte, hora faz bem, ora faz mal. É como canja de galinha…

O que não faz parte dessa receita é a cobrança sem limites. E também não faz parte da mesma receita, a falta de limites. Não combina, não harmoniza, não agrega sabor. Não cabe aqui dar explicações sobre a minha vida, aqui se fala de cozinha e sobre ela. Só cabe dizer então que enquanto forças eu tiver essa vida será devotada à cozinha. Esteja eu dentro dela ou fora, sempre estarei dentro. Seja pela doação intensa e afetiva de uma equipe que me acompanha diariamente nessa louca devoção. Seja pelo movimento quase invisível dos ingredientes minuciosamente escolhidos que vão para o seu prato. Seja pelo envolvimento que é quase um sacerdócio de toda uma engrenagem que diariamente faz o meu sonho funcionar. Praticamente como o moinho da Dona Virgínia de Itabirito, que há mais de 90 anos mói artesanalmente todo fubá que é vendido na Mercearia Paraopeba. Mas isso é história para outro post!

Até!

20 de agosto de 2010

Sou eu, ou o mundo gastronômico que está confuso?

Arquivado em: Cotidiano — Tags: — Roberta Sudbrack @ 17:25

É fato que a cozinha suga, no bom sentido, que fique claro, quase todas as minhas energias. E que fique claro também que faço isso não por esporte, mas por escolha de vida. Mas de fato ando meio fora de forma e para completar, uma queimadura – que não posso dizer seja inesperada, porque nessa profissão estamos sempre esperando por elas – me tirou um pouco mais dessa energia nesses últimos dias. Rompeu a pele e algumas estruturas dentro de mim. Tem horas que a gente brinca tanto, se fantasia tanto todos os dias – tem amigos meus que nunca me viram com outra roupa senão a de cozinheiro! – que acaba cometendo a grande besteira de acreditar que é super herói!

Passado o susto algumas coisas dentro de mim continuam firmes. Outras, bem, tão logo eu chegue a uma conclusão emitirei um parecer em três vias e enviarei a amarela para vocês e a verde para o twitter. Ficarei com a branca como souvenir.

Dentre as que continuam firmes, felizmente estão as minhas convicções. Algumas um tanto quanto ultrapassadas para um mundo gastronômico que ainda se deixa impressionar por espumas, receitas sem estrutura, fumaças alucinógenas e shows de pirotecnia que muitos insistem em acreditar serem necessários para uma experiência completa. Experiência completa? E isso existe? O mundo moderno ainda emite a via amarela que nos autoriza viver isso?

Emitindo ou não, estamos sempre à procura dela. Se vamos encontrá-la é uma coisa, se vamos nos permitir vivê-las é outra bem diferente. Afinal estamos à procura de quê? Temos fome de quê?

Se me perguntarem sempre vou responder que tenho fome de comida como a da Casa da Li (Rua Aspicuelta 23, Vila Madalena, não sei por que não tem telefone, né Li?). Comida feita por gente de verdade, com alma de cozinheiro, amor incondicional pela cozinha e o suor bom da profissão. Comida que dispensa explicação e muito menos apresentação, é olhar, vibrar e não esquecer. Essa é a minha experiência. Essa é a minha busca. Onde quer que haja um lugar como a Casa da Li, seja em São Paulo, no interior de Minas Gerais ou Pantelleria na Sicília, eu vou atrás com a curiosidade e a alegria ingênua de uma criança. È essa curiosidade, essa alegria e essa ingenuidade, que me proporcionam a verdadeira experiência sem precisar do aval da via amarela!

Até!

Casa da Li

Rua Aspicuelta 23, Vila Madalena – São Paulo

4 de agosto de 2010

Minha alma canta…

Arquivado em: Cotidiano — Tags:, — Roberta Sudbrack @ 18:25

Essa história eu conto e reconto e nunca mudo o final. Gosto de finais verdadeiros. Mais do que os felizes, gosto dos verdadeiros. Quem primeiro me fez essa pergunta numa noite agitada na casinha laranja à beira do canal foi o querido Walter Salles: “Roberta, mas porque o Rio de Janeiro?” Antes disso eu já sofria com algumas colocações que nunca me pareceram razoáveis, mais do que isso, sempre me irritaram e muito: “O seu restaurante é fantástico! Pena que seja no Rio de Janeiro, se fosse em São Paulo!”

Quando deixei a chefia da cozinha do Palácio da Alvorada em Brasília tinha dois destinos a escolher: São Paulo ou Rio de Janeiro. De São Paulo vieram alguns chamados, duas ou três oportunidades muito boas. Do Rio de Janeiro nenhuma. Vou para o Rio de Janeiro! Gosto de desafios! Gosto de romper barreiras. Gosto muito de acreditar no que ninguém acredita. Já faz algum tempo que o discurso mudou para: “O seu restaurante é fantástico! Quando é que você vai abrir um em São Paulo?”

Alfaiataria não se replica. Alfaiataria se vive diariamente. Para fazer alfaiataria há que se acreditar no sonho! Tenho ouvido falar que muitos restaurantes de São Paulo estão pensando em abrir filiais no Rio de Janeiro muito provavelmente por conta da quantidade de atividades que a cidade sediará num futuro próximo. Eu fui uma das grandes entusiastas da chegada do grupo Fasano no Rio de Janeiro. Primeiro porque a cidade merecia uma marca de excelência como a deles. Mas acima de tudo porque o grupo decidiu vir para o Rio quando poucos olhavam para ele com o olhar da credibilidade. O grupo Fasano acreditou no Rio. Amou o Rio como ele merece. Outros grupos vieram depois nessa mesma sintonia e agregaram o seu valor a essa cidade singular, entre eles o pessoal da Pizzaria Braz, fantásticos e profissionais.

Assim como alfaiataria não se replica, amor não se inventa. Que venham grandes e competentes marcas. Que venham cozinheiros apaixonados pelo seu ofício. Que venham amantes a moda antiga, pois o Rio é daqueles que ainda manda flores!

Até!

14 de julho de 2010

Minha loja de brinquedos

Arquivado em: Cotidiano — Roberta Sudbrack @ 17:38

Talvez uma das coisas mais lindas que já ouvi em relação ao RS foi algo como: “me senti como uma criança numa loja de brinquedos”. Chegou para mim outro dia num email adorável. A gente procura por isso todos os dias. E sabe todos os dias que não vai encontrar. O encantamento depende do grau de entrega. E o grau de entrega depende de tantas coisas…

Ontem também vivi um momento mágico, daqueles que a gente só vive em lojas de brinquedos. Depois de uma noite muito difícil fui até o salão cumprimentar uma aluna querida. Estava arrasada com a noite, com as dificuldades que tivemos na cozinha e as angústias que dividimos por horas e horas. Ganhei um sorriso, um abraço, panelinhas que de tão lindas poderiam ser de brinquedo e uma mais bonita demonstração de entrega que já vi num olhar.

De todos os detalhes envolvidos na preparação de um jantar, a entrega do cozinheiro é o mais importante. Entro na cozinha e sei quem está dentro do prato e quem não está. Remanejo posições, procuro a melhor energia para cada ingrediente. Cozinha é técnica e emoção na mesma proporção, mas dosar as duas na mais perfeita harmonia é tarefa de maluco!

Cozinheiros são malucos por natureza e essa é uma grande vantagem. Para enfrentar um dia a dia como o nosso há que se ter uma boa dose de loucura estocada. Seja para sair das piores situações, seja para reinventar uma história. A minha eu reinvento todos os dias com a alegria de uma criança que tem a chance de viver dentro de uma loja de brinquedos!

Até!

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